Chamá-la de linda
seria cometer um erro. E o mais grave de todos. Ela
era a coisa que mais se aproximava da perfeição.
Tinha um andar que estava longe de ser provocativo:
era, sim, instigante. Quase hipnotizante. Caminhava
como se estivesse dançando a música mais bela de
todas.
Eu a vi pela primeira
vez numa festa. O lugar era bacana, meio rústico,
com muito verde, mangueiras por todo o lado. Tinha
até uma casinha de pau a pique num canto. Uma
piscina, com bexigas coloridas, dava um quê meio
psicodélico ao ambiente. A banda, lembro bem, tocava
Engenheiros do Hawaii.
Refrão
de um Bolero era a canção.
Aquela cena – ela
encostada no balcão do bar, com um copo de
refrigerante na mão e cantarolando Engenheiros – era
algo de outro mundo. Parecia filme, sabe? Estávamos
distante. Mesmo assim, meu coração palpitava.
Pulava. A impressão era que eu estava ao lado dela,
respirando o mesmo ar, sentindo aquela beleza
indescritível. Eu até poderia dizer aquilo era
paixão à primeira vista. Mas não. Ela parecia não
acreditar nessas coisas. Tinha jeito de ser
romântica com estilo.
Eu estava vidrado. Tão
vidrado que demorei a reconhecer aquela voz que me
chamava.
- E aí, cara, como tá?
Tanto tempo, heim?
Era o Marcelo, um
amigo de longa data que não via há tempos. Estudamos
no mesmo colégio. Apesar de termos a mesma idade,
ele era um ano antes de mim na escola. Gente fina.
Inteligente. E só. Era feio de dar pena, coitado.
Branco feito leite. Rosto cheio de sardas. Cabelos
revoltos. E uma voz que vinha do nariz.
- Tá vendo o que aí,
cara? Você tá tão compenetrado! Até parece que está
nas aulas de matemática do Herculano... Lembra?
- Véio, tô apaixonadão
por uma garota aqui da balada! Mas ela sumiu. Estava
ali no bar agora há pouco...
- Pior que tá cheio de
menina gata aqui mesmo... O foda é que eu não posso
ficar olhando. Minha namorada tá aqui. Ela foi ali
pegar uma cerveja pra mim...
Girei a cabeça para
ver se encontrava a menina.
- Mas me mostra ela
aí, cara! Quem sabe eu não conheço... Posso até te
apresentar, vá saber!
De repente, eis que
ela surge do nada. Desviando das mesas, ela
caminhava em nossa direção.
- Cara, olha ela ali?
Você conhece? – perguntei, eufórico.
Depois de uns segundos
em silêncio...
- Conheço sim, cara! É
a minha namorada...
Naquele momento – juro –, eu só queria um buraco para me esconder e uma boa dose de vodka para esquecer.

Vinícius
Novaes (*)



