Era ela o motivo da minha obsessão adolescente pelas
Playboy. Você leu bem: era. O mundo evoluiu. O
pensamento mudou. E a bunda deixou de ser a única
parte da anatomia que desperta a mais profunda
vontade masculina.
Cheguei a essa conclusão na semana passada, quando
eu vi a menina mais bonita de São Paulo entrar numa
loja de sapatos no shopping. Ela tinha um metro e
sessenta e pouco de altura. Pele clarinha e
bochechas rosadas. Era uma princesa de tão linda.
Tinha um andar tímido e delicado. Uma beleza
intimista. Uma coisa que chega a ser impossível
descrever. Era ela. Apenas ela.
Fiquei tão bobo com a garota que tomei coragem e
entrei na loja. Sentei perto dela e pedi um par de
tênis qualquer para experimentar -- e para
justificar a minha presença. E já vou logo
garantindo: valeu a pena! Foi sensual vê-la despindo
os seus pezinhos. Bem aos poucos, ela desamarrou os
cadarços. Depois, com as duas mãos, tirou o tênis.
Primeiro o da direita. Depois o da esquerda. Lembro
bem. Imaginei os seus pezinhos delicados, clarinhos
como o seu rosto. Dedinhos pequenos. Tudo tão lindo
como ela.
Confesso: eu estava mais do que ansioso para ver os
seus pés. Minha curiosidade era tão grande que
parecia que ela estava se despindo por completa na
minha frente. Mas eu já me contentava com os pés. O
meu desejo era esse apenas: os pés. Nem pensei na
barriga, nas coxas, tampouco na bunda! Talvez essa
tenha sido a minha falha.
Porque quando ela arrancou a meia... Que susto! O
seu pé era feio. Feio, não: horroroso. Os dois.
Tinham calos. As unhas eram mal cortadas, disformes.
Deu nojo o tamanho desleixo.
Foi aí que eu percebi que a bunda havia se vingado
de mim pelo instante em que a ignorei; pelo momento
em que desejei a outra parte do corpo da menina.
Reconheço meu equívoco. Depois dessa eu estou
pensando em reatar relações com a bunda. Só preciso
saber se ela vai topar.

Vinícius
Novaes (*)



