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  01.02.2008 00h.10  
  Túnel Hipersônico            O Professor Humberto Araújo Machado, 41, é mineiro da cidade de Cataguases, mas foi criado no Rio de Janeiro, no bairro de Brás de Pina.

 

Acassio Costa (*)

 

Lá fez o curso primário, o secundário e um curso técnico em mecânica. Graduou-se em Mecânica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) onde fez o mestrado na área de Ciências Térmicas e o doutorado, em 1998. Ficou por um ano como aluno pesquisador no Instituto Politécnico de Zurique, na Suíça, considerado a terceira melhor escola de Engenharia do Mundo. O pós doutorado foi na Universidade Federal de Uberlândia que é também referência em Mecânica.

Humberto Machado - Foto: Ricardo FariaPorque veio para São José dos Campos?  Humberto Machado – Em 1999, quando estava terminando o pós doutorado, entrei em contato com o Professor Élcio Nogueira, que era o diretor da Faculdade de Engenharia da UNIVAP, e propus a ele um projeto apoiado pela Agência de Financiamento de Pesquisas, a Fapesp, onde eu trabalharia como  pesquisador visitante.

Como assim? – O projeto incluía dinheiro para a compra de equipamentos e uma bolsa com um valor mensal. O projeto foi aprovado, eu fui contratado como professor pela UNIVAP, e pude até dispensar a bolsa, isso no ano de 2000. Ingressei com a referência 11.

Entrou pelas mãos do Professor Élcio Nogueira? – Isso,- ele contratou a mim, e por meu intermédio, mais dois colegas da pós graduação, Professor Luiz Mariano e a Professora Lucília Batista ,para fortalecer o grupo de Ciências Térmicas. Já estavam lá a Professora Heidi Korzenowski e o Professor Pedras, também entraram o Doutor Carlos Pimentel e o Doutor Manolo, nenhum deles está mais na UNIVAP.

Como foi o começo? – Inicialmente, montamos um grupo de pesquisas em Ciências Térmicas, para trabalhar na área de Transferência de Calor e Mecânica dos Fluidos, um grupo extremamente forte e muito bem montado  pelo Professor Élcio.Tanto foi que, em menos de um ano, após termos cadastrado o grupo de pesquisa, o CNPq nos considerou um grupo de pesquisas consolidado, coisa que pouca gente consegue até num tempo bem maior.

Foi um grupo especial? – Foi um grupo muito forte, com uma das maiores taxas de produção científica da Universidade. A intenção era montar um programa de pós graduação, um mestrado  Stricto Senso em Engenharia Mecânica. Nos unimos a um outro grupo, o de Engenharia de Materiais, também formado pelo Professor Élcio, e conseguimos aprovar, logo na primeira tentativa, um Curso de Mestrado em Engenharia Mecânica Stricto Senso. A Comissão do Mec veio, avaliou o corpo docente, a proposta do curso, a estrutura que estava sendo montada e considerou o curso viável, algo difícil de acontecer.

Nessas alturas, já podiam oferecer o curso de mestrado? – Isso mesmo, chegamos a oferecer o curso de mestrado, tivemos alunos e demos aulas, mas eu fui demitido antes que o curso se consolidasse.

E sobre o Túnel Hipersônico? – Eu não estava envolvido diretamente, era algo ligado ao Grupo de Ciências Térmicas, chefiado pelo Dr. Paulo Toro, um pesquisador do IAV, que havia aprovado um projeto na Fapesp  de um milhão de dólares para a montagem do Túnel, a parte física chegou a ser praticamente construída pelo Dr. Manolo e o Engenheiro Garcia.

Mas, de repente, houve uma interrupção do projeto. Certamente pela rivalidade surgida entre o Professor Élcio, já pro reitor de Engenharia e o Professor Marcos Tadeu, diretor do IP&D que chegou a pressionar no sentido de transferir o Túnel Hipersônico para o prédio do  Instituto. Ele não conseguiu tirar, mas o projeto parou. Nunca foi usado e virou ferro velho.

Então na realidade, houve um desmonte do projeto? – Tudo que foi criado parou. O laboratório de Fenômenos de Transporte, o de Hidráulica era exemplar e eu só consegui ver os restos dele. Era um laboratório que poucas universidades brasileiras têm. Eu dei pouquíssimas aulas de laboratório, algo muito aquém do que era possível.

Então era uma enganação? – O laboratório era muito mais uma vitrine do que efetivamente um laboratório, tanto o de ensino como o de pesquisa. Acho que a maior utilidade dele era a de aprovar o curso junto ao MEC, o uso foi mínimo e não havia condições de preparar o laboratório pra receber uma turma de 40 alunos.

Chegou a ser pressionado pela direção da UNIVAP? – A minha situação era confortável. Sou solteiro e moro sozinho e a minha despesa não é grande. Além disso, se fosse demitido poderia trabalhar em qualquer lugar, e não era o que acontecia com a maioria dos professores, casados e com família, que não podiam se dar ao luxo de arriscar uma demissão. Era visível que eles sofriam pressão, principalmente quando éramos obrigados a dar aulas que nada tinham a ver com o nosso currículo.

Uma vez fui obrigado a dar aula de Administração para a Engenharia, sendo eu engenheiro mecânico e doutor em ciências térmicas. Não tenho experiência administrativa e nem formação. O horário chegava pronto e se aceitava ou caia fora. Haviam professores de engenharia, de química e física que tinham que dar aulas de comunicação e expressão, simplesmente para tampar buracos.

E você agüentou até quando? – A partir do momento que senti que não íamos ter apoio da reitoria para o curso de mestrado,- não havia bolsas para os alunos, nem se tinha nada do que era pedido, isso por volta de 2003, quando o grupo começou a se dispersar. O Professor Marcos Pedras saiu e foi trabalhar na Embraer, como engenheiro. O Professor Luiz Mariano foi para a Universidade Federal do Vale do São Francisco onde é pro reitor. A Lucília é professora na Universidade Estadual de Pernambuco, O Carlos Pimentel é professor da Universidade Federal do Tocantins, os demais estão bem colocados.

Quando saiu da UNIVAP? – Eu havia prestado um concurso no CTA e passado em primeiro lugar. Trabalho como pesquisador assistente na área de Termodinâmica, no IAE, em área de foguetes e também sou professor adjunto na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, no campus de Rezende. Fui demitido da UNIVAP no início de 2005. Lá existe um bom corpo docente que não tem liberdade pra trabalhar. São pessoas de altíssimo nível, na área de materiais, principalmente.

Deixei bons amigos, só não gostei da excessiva carga de trabalho, cheguei a ter uma carga de 20 horas aula durante a semana, o que significa dar aulas todas as noites e ainda aprovar projetos e orientar alunos etc. Tudo isso com referência 12. Era comum ver alguns colegas tomando anti depressivos, com doenças psicossomáticas e até brigando entre si. Cheguei a ser ameaçado por um aluno que não gostou da reprovação, - meu carro sofreu depredações. Vi professores serem humilhados por alunos sem providências da direção, num total desrespeito aos docentes.

Tem esperança que haja mudança na UNIVAP? – Olha, eu estive em Uberlândia que é uma cidade do porte de São José dos Campos  e que tinha uma rivalidade com Uberaba que durou 40 anos. A partir do momento que a Universidade Federal de Uberlândia foi instalada, a cidade decolou. Precisamos de uma UNIVAP que funcione como universidade com ensino, pesquisa, interação com a comunidade. Eu torço para que isso aconteça com São José dos Campos.

Fale com Humberto Machado: humbertoam@iae.cta.br

Mais uma vez tentamos ouvir o reitor da Univap, professores e conselheiros, mas não obtivemos resposta até o fechamento dessa edição. O espaço está aberto.

Saiba mais: Boicote na Univap - Humilhação na Univap - Aviões não tripulados - Americano denuncia Gargione - Canizza acusa Gargione - Fisioterapeuta quer diploma - Gargione de novo - Darwin Bassi denuncia Garione - Univap para inglês ver - Pro reitor aciona Univap - Doutora é demitida da UNIVAP - Mec Avalia Univap - Perseguição na UNIVAP

(*) Acassio Costa é advogado - acassio@vejosaojose.com.br


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