Contas escancaradas -
O Tribunal de Justiça de São Paulo determinou a quebra
total do sigilo fiscal, bancário e financeiro do Instituto
Florestan Fernandes (IFF). A decisão foi tomada na
terça-feira (9/2) pela 3ª Câmara de Direito Público,
depois do voto do desembargador Marrey Uint, que havia
pedido vista do processo.
A briga jurídica entre o
Ministério Público e a ONG, ligada ao Partido os
Trabalhadores (PT), se arrasta há mais de três anos.
O acesso aos dados do
instituto foi pedido pelo Ministério Público, numa ação
que apura supostas contratações irregulares feitas pela
prefeitura de São Paulo na gestão Marta Suplicy
(2001-2004).
A votação terminou
empatada na penúltima sessão da câmara. Marrey Uint
apresentou voto divergente do relator, Antonio Carlos
Malheiros, e seguiu a orientação do terceiro juiz e
presidente da Câmara, Paulo Magalhães Coelho.
“A leitura da peça
inicial da Ação Cautelar nos dá conta não de uma sucessão
de coincidências, mas de fatos concretos, que estão
respaldados por documentos, a indicar a malversação de
dinheiro público e a fraude”, afirmou Marrey Uint.
Ele defendeu que o voto
do relator, Antonio Carlos Malheiros, que deferia a quebra
dos sigilos em menor extensão (limitava a devassa de julho
de 2003 ao início de dezembro de 2004), seria plenamente
aceitável, “na medida em que possibilitava o avanço da
persecução na medida da necessidade e dos vínculos
estabelecidos pelas condutas”.
Na opinião de Uint, no
entanto, essa solução imporia ao Ministério Público a
apresentação de representações e o sucessivo deferimento
de pedidos suplementares.
Para Marrey Uint, é mais
razoável que, na hipótese de eventual excesso da
investigação, o agravante utilize os recursos próprios
para restringi-la. “Se não há nada de errado, nada há de
se temer”, disse o desembargador. “O que não se pode é
impedir que se investiguem fatos concretos, onde os
envolvidos transitam e se confundem, ora como associados
do Instituto, ora como agentes públicos.”
O julgamento se travou em
Agravo de Instrumento apresentado pelo IFF contra decisão
cautelar de primeiro grau. Em 2006, o juiz Edson da Silva,
da 13ª Vara da Fazenda Pública da Capital de São Paulo,
decretou a quebra dos sigilos fiscal, bancário e
financeiro do Instituto Florestan Fernandes.
Ele atendeu a pedido da
então Promotoria de Justiça da Cidadania, hoje chamada de
Promotoria do Patrimônio Público e Social).
O Ministério Público
acusa o instituto e mais sete empresas e uma ONG de serem
favorecidos em contratos irregulares assinados com a
prefeitura de São Paulo durante a gestão de Marta Suplicy.
Os contratos provocaram
de acordo com os promotores de Justiça, rombo de mais de
R$ 12 milhões no erário público.
O MP pediu que a Justiça
determinasse a devassa nas contas dos acusados a partir de
julho de 1999. O MP afirma na ação que, por meio de uma
operação triangular, a prefeitura contratava fundações e
essas entidades faziam parcerias com institutos do PT ou
com profissionais que prestam serviços nessas organizações
ou que atuavam em gestões do partido, sobretudo em Santo
André.
A vantagem, segundo os
promotores de Justiça, é que a lei permite contratar
fundações sem a necessidade de licitação.
A promotoria abriu a
investigação (Procedimento 233/04) depois de reportagem do
jornal Folha de S. Paulo. Publicada em abril de
2004, com o título “Fundações contratadas por Marta
beneficiam petistas”, o jornal dizia que a prefeitura
paulistana, comandada por Marta Suplicy (PT), então
candidata à reeleição, teria encontrado uma maneira de
“agraciar institutos ligados ao partido e, de quebra,
ajudar companheiros sem despertar atenção”.
Defesa -
O IFF foi criado por iniciativa do diretório municipal do
PT e presidido por Marta Suplicy até o final de 2000,
antes de sua gestão na prefeitura de São Paulo
(2001-2004). O instituto sustenta que a quebra de sigilos
foi arbitrária, uma vez que não há indícios de desvios que
justifiquem a medida.
A defesa alega ainda que
o instituto nunca se recusou a fornecer qualquer
informação no Inquérito Civil aberto pelo Ministério
Público.
CONJUR
(continua...)