A mídia – sempre ela – mais
uma vez está em palpos de aranha diante da cobertura de dois
crimes passionais ou que ao menos imaginamos que sejam
passionais. E a visão machista acaba por permear o
noticiário. Eliza Samudio e Mércia Nakashima pagaram com a
vida por crimes que não se justificam. Se é que algum crime,
ainda mais de morte, pode ser justificado. Mais do que pagar
com a vida, elas pagam com a reputação pelo simples fato de
serem mulheres.
Vamos caso a caso.
Eliza Samudio foi, no
início do caso, totalmente desqualificada pela mídia.
Primeiro pela "grife" de amante do goleiro Bruno Fernandes
das Dores de Souza, bom jogador do Flamengo, um dos clubes
mais importantes do país. O termo amante, ainda que
hipocritamente acreditemos viver numa sociedade aberta, é um
mero eufemismo para vagabunda. Depois descobriram que ela
teria feito filmes pornográficos e que o goleiro a teria
conhecido numa "orgia". Ou seja: sob a ótica de parte da
mídia, o que se entregava para a sociedade é que ela era uma
prostituta, uma "maria chuteira" qualquer e que sua morte
aconteceu porque ela "procurou". Alguns dias atrás o
noticiário era bem esse. A partir do momento que o crime foi
sendo desvendado, principalmente pelos requintes de
crueldade, pela quantidade de pessoas envolvidas e pela sua
quase clara premeditação, Elisa passou a figurar como
vítima.
Longe de mim entrar no
mérito do que ocorreu, até porque odeio mundo-cão e esta
cobertura que boa parte da imprensa faz é nojenta. Com a
esfarrapada desculpa de "esclarecer os fatos", reviram-se os
ossos de uma sociedade apodrecida para que seja dado a ela
mais sangue e, se possível, muitas cabeças na bandeja para o
orgasmo das "cleópatras" de plantão.
Sobrou um bebê na história
- Parece-me que
tanto ela quanto Bruno vieram de famílias problemáticas. Ela
tentou o seu lugar ao sol. Ele conquistou o seu lugar ao sol
e, possivelmente, jogou tudo para o alto cercado por
péssimas companhias. E aqui ressalte-se que os clubes de
futebol no Brasil "usam" os jogadores, mas não lhes dão
nenhum suporte psicológico diante da grana fácil e dos
pseudo-amigos que aparecem. A ambos, enfim, faltou o forte
esteio de família, coisa que a sociedade já não sabe muito
bem o que é. Ainda que esta moça não tivesse um
comportamento adequado aos padrões que se acreditam
corretos, não cabe nem a mim nem a ninguém julgá-la e como
já afirmei, nada justifica sua morte.
O fato de Bruno ter vindo
de camadas pobres da população também não justifica o crime.
Trata-se de mais um preconceito tosco. Já tivemos pai de
classe média alta jogando a filha pela janela, filha de
classe alta mandando matar os pais e até jornalista de
grande veículo matando a namorada.
Sobrou um bebê na história,
mas poucos dão a devida importância. Em breve, sua guarda
será "leiloada" na Justiça e padeço em imaginar quão sofrida
será esta criança.
Cobertura rançosa -
Mércia Nakashima é um caso
um pouco diferente. Ela era uma "moça de família" conforme
imagina a tal da opinião pública, essa massa amorfa que vai
para lá ou para cá, de acordo com os diversos interesses.
Vem de uma família, em tese, bem estruturada, era advogada,
ou seja, nada poderia ter acontecido com ela. Exceto pelo
fato de seu ex-namorado, Mizael Bispo de Souza, não ter se
conformado com o fim do relacionamento e, possivelmente, até
pelo fato de ser ex-policial e ter fácil acesso a uma arma,
ter resolvido matá-la.
Ainda assim, o noticiário é
machista ma non tropo. Ouvi outro dia numa rádio que Mizael
acreditava estar sendo traído e que "precisava limpar sua
honra". Leia-se, subliminarmente, que ela é culpada e que
merecia morrer. Aqui volto à mesma retórica. Ainda que ela
tivesse traído o namorado, nada justifica sua morte.
A cobertura da imprensa já
vem rançosa. Os fatos acontecem e deveriam ser analisados
dentro do contexto do fato em si, sem outras adjetivações.
Passou da hora de a mídia rever seus conceitos. Os crimes
ainda renderão muitas páginas impressas e eletrônicas.
Outras coisas medonhas acontecerão. E depois tudo será
esquecido quando os holofotes forem desligados.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA