| |
O recurso não é lá original.
Eu estava desesperado. Tinha que inventar algo. Valia tudo,
desde que me aproximasse da Suely. Passei dias tomando
coragem, ponderando os pós e contras. "Será que você não
está inventando esta entrevista para chamar atenção da minha
sobrinha?", imaginava que seria a primeira pergunta da tia
da Suely. No dia que fiz o convite, julguei ver esta
interrogação estampada no seu rosto.
Como cheguei à tia? Ainda
conservo amizade com a prima da Suely. Eu comentei por alto
de uma entrevista para a escola. Sorte que eu saí bem do
desentendimento a ponto da família da Suely continuar tendo
consideração por mim. Mesmo a mãe da Suely me acolheria para
responder a entrevista, mas resolvi não arriscar, o clima
poderia esquentar. Nosso rompimento está ainda fresco.
Que assunto eu inventaria.
Surgiu a relação pais e filhos. "A entrevista tem o
propósito de comparar os relacionamentos da senhora, quando
criança ou adolescente, com seus pais e o seu atual para com
seus filhos", que me lembro foi esta síntese que dei ao
casal entrevistado, a saber, a tia e tio da Suely.
Digo mais, se não fosse das
vezes que a Suely apareceu na sala, ainda que com a tromba,
amuada, não querendo sequer me cumprimentar, me fazendo
tremer por dentro, confesso que me esqueceria de tudo, na
medida em que mergulhava na entrevista. Foi além do que eu
imaginava. A espontaneidade dos entrevistados, a
desenvoltura, a emoção das lembranças, os relatos de
acontecimentos marcantes na vida deles. Que dez! Me senti o
tal, o próprio jornalista.
Minha professora gostou do
material e até me deu uma nota, embora volto a repetir, não
fizesse a entrevista parte de atividade requerida. Foi
apenas um estratégico meio de eu me aproximar da minha amada
Suely.
Todo aquele palco montado
tinha um único fim, chamar a atenção da Suely. Provar que
seus familiares ainda me queriam bem. Que na verdade ela que
fora infantil ao manter a atitude de indiferença, só por
causa de uma briguinha, a qual ela mesma provocara. Ela que
me atirou comida de cachorro primeiro.
Ela que me bateu primeiro, com
sua mania de dizer que homem nenhum é páreo para ela.
Confesso que fui infantil também. Se eu soubesse que daria
nisso, eu teria apanhado quietinho, teria lavado minha roupa
salpicada de angu de cachorro, do Xuxo. Teria sido seu
capacho, simplesmente porque a amo muito, muito, muito...
Pena que não dá para parar o
tempo, consertar o copo quebrado, evitando deixar cair no
chão... Ela não quer saber de mim. Já tem outro cara... A
mim me resta a Timidez do Biquini Cavadão.

Visite o
blog
- adquira livros pelo fone (011) 3481-2434 com Equipe
Literatura Viva e receba em casa.
(*)
Ronaldo Duran -
ronaldo@ronaldoduran.com
- é
escritor, autor de romances, entre eles ANDO DE ÔNIBUS,LOGO
EXISTO! -
Disponível nos sites:
www.ronaldoduran.com - www.livrariacultura.com.br e
www.corifeu.com.br
Colabora em jornais
brasileiros, como o
valeparaibano. Acesse o
google confira.
|