-
Anda. Levanta! Está na hora, é a mãe que mexe com a filha na
cama, fica vendo filme até tarde. É nisso que dá.
-
Tá... Tô indo, a menina tentava livrar-se do sono em mais
uma manhã em realengo.
Noutra casa, o professor
estava de pé desde as seis horas. Vinte anos antes, quando
começou a lecionar, levantar cedo também seria um parto.
Em Sepetiba, longe dali,
um rapaz igualmente ia despertando. Embora tenha dormindo
três horas nesta noite, nada nele aparentava o cansaço de
uma noite mal dormida. Ao redor, uma bagunça, coisas
quebradas propositalmente para dificultar investigações
futuras somando à típica desordem de um jovem solteiro. De
Sepetiba a Realengo demorar ia um bocado. Carregando a
mochila suspeita, apressou-se.
No portão da escola, filas
de carros e pedestres misturavam-se. Abriam-se portas dos
veículos, e saiam alunos carregando mochilas, estas sim com
material escolar. Eram pais que estariam indo para o
trabalho, deixando antes os pimpolhos para mais um dia de
aula. Os jovenzinhos, os que se incomodavam em ter os pais a
tiracolo - para não sofrer assédio moral dos amigos, tipo,
ah, filhinho da mamãe - vinham caminhando em dupla ou em
grupo.
O estridente sinal da
escola soou. Sete horas. Todos correndo para o pátio. Mesmos
os morosos iam sendo empurrados fosse pelo inspetor ou por
colegas mais aplicados.
O professor na sala de
aula.
Eh professor! Bom dia
primeiro. A gente mal encontrou e o senhor está enchendo a
lousa, dizia um.
-
Um ótimo dia para você também. Só estou adiantando...,
respondeu sorridente para quebrar o gelo do início da aula.
Tinha oitava série
difícil. Alunos respondões, algazarra. Esta, segundo a
opinião do professor, valia a pena dar aula. Não que fossem
anjinhos, tinha lá os dias de cão, de tirar até ele do
sério. Porém, gostava inclusive dos alunos atentados do
fundão.
Embora fofocas sobre quem
ficou com quem, da tinta no cabelo, das unhas com desenhos,
e supercílios negros se imiscuíssem com o conteúdo da
ciência, as meninas nas primeiras carteiras reforçavam o
prazer que o mestre tem quando nota que a turma dá atenção
para suas explicações.
Dois meninos atrasados
notam o rapaz carregando a mochila suspeita. Instintivamente
estranharam tanto o cara como a mochila. Mas adentraram na
sala à direita, enquanto o cara entra à esquerda.
- Isso são horas, o
professor chamou atenção. Ainda sob a bronca do mestre, o
primeiro ia pro fundão, enquanto o outro que estava na porta
de repente gritou desesperado. É tiro. Estão atirando, estão
atirando.
Embora acostumado às
palhaçadas de alunos, desta vez o professor não hesitou.
Agiu rápido, correndo para a porta e segurando-a.
-
Rápido, tragam cadeiras, rápido, a turma do fundão se
mobilizou. Juntaram em poucos segundos quase todas as mesas
e cadeiras bloqueando a porta. Deitem no chão, rápido,
todos, todo s para o chão..., ordenava o mestre.
O atirador procurou forçar
a porta. Por fim desistiu.
O caos se instalou. Um
massacre promovido pelo ex-aluno da escola. Os pais
lamentando. Filhos brutalm ente feridos ou assassinados.
Seria possível ter evitado a tragédia? Talvez investido em
segurança para se detectar armas logo na entrada da escola?
Contar com atendimento psicológico para alunos a fim de
tratar abusos sofridos e prevenir distúrbios? Quem sabe
ajudaria se esse jovem tivesse tido família mais atenta aos
indícios que ele emitia, da solidão que vivia?
Estas são perguntas que
brotam a procura de respostas desesperadas que pudessem ter
servido para evitar a tragédia. A dor da perda é irreparável
para o pai que teve a vida de sua criança ceifada.
Espera-se que pais,
professores e governo promovam a prevenção na escola, para
que a criança de hoje - que se vê atormentada por
coleguinhas ou por problemas psicológicos - não cause outra
tragédia amanhã quando adulto.

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(*)
Ronaldo Duran -
ronaldo@ronaldoduran.com
- é
escritor, autor de romances, entre eles ANDO DE ÔNIBUS,LOGO
EXISTO! -
Disponível nos sites:
www.ronaldoduran.com - www.livrariacultura.com.br e
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