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O certo
seria agora, vocês e eu, estarmos em uma roda de prosa,
sentados no chão, no centro uma fogueira, com árvores ao
nosso redor e o céu por testemunha.
Todas as
vezes que necessito desse lugar, escuto a experiente
Clarissa Pinkola Estés dizer que não importa o lugar, a hora
e muito menos a estação do ano, uma história estar sendo
contada faz com que um céu estrelado e uma lua branca pairem
nas cabeça dos ouvintes.
A
contadora de história ou melhor... a ‘cantadora’, como se
dizia antigamente, é aquela que vai narra – transmite
sementes!
É mesmo um
mistério como escolhemos essas sementes. Diante de tantas
que colhi esses anos em São José dos Campos, resolvi soltar
ao vento algumas que plantei, colhi frutos e deles vieram
novas sementes.
Começo
hoje
uma série de ‘estórias’ joseenses que denomino Lendas
Urbanas, vou contar mês a mês as que o vento trouxer.
Sim... se
ao ler essa ‘estória’ você sentir o vento tocando seu rosto
saiba que foi convocado para ser uma cantadora ou cantador
de estórias, permita que a voz que sussurra em você grite
liberdade e conte essa ‘estória’ para mais alguém.
Sabe, ali
onde São José dos Campos tem queijo e café passado no coador
de pano? Ali onde no fogão à lenha um tição ainda arde a
noite toda para acordar o dia. Isso mesmo... em Santana.
Parada de tropeiros, ponto de chegança e de partida. Vamos
começar por aí.
Há muitos
e muitos anos, perto da linha do trem, sempre aparecia um
acampamento de ciganos. Não ficavam muito tempo, o
suficiente para montar barracas, cuidar das roupas, dos
cavalos, arrumar comida e água, festar um pouco e partir.
Entre os
errantes a tradição era parar sempre ali, perto dos trilhos.
Certo ano acampou ali um comboio de ciganos. Alguns homens e
mulheres cometidos de febre, doentes, precisavam de
cuidados. Os ciganos, fortes, conseguiram superar a doença,
mas as três ciganas que chegaram doentes faleceram.
Os ciganos
foram até o cemitério de Santana e pediram autorização para
sepultar suas mulheres, para tristeza deles o pedido foi
negado.
Desgostosos, resolveram levantar acampamento, ir embora,
puxar as carroças, mas, antes, de madrugada, foram até o
muro do cemitério e, do lado de fora mesmo, enterraram as
três ciganas. De cada cova nasceu uma árvore, sim... três
figueiras. Teve mesmo de ser a figueira, pois foi a única
árvore que Jesus amaldiçoou, dizendo que dela nada nasceria,
não daria frutos.
As ciganas
também foram renegadas, elas não mais dariam fruto. As
mirradas árvores se desenvolveram rapidamente.
Sr. José
conhecido como Zé Oito, morador há 61 anos daquelas
paragens, nascido ali do lado do Pio XI, conta que ninguém,
no seu juízo perfeito, passava à noite naquela rua sozinho e
nem com turma.
Ele mesmo,
calculando a lembrança, disse que desde seus dez anos
receava passar perto das árvores. Isso porque uma delas
chorava, “qual que é a gente num sabe”, mas que chorava,
chorava! “Acho até que é porque com o movimento do vento ela
rangia, e aí ela chorava”.
As árvores
cresceram tanto que hoje tomam todo o passeio. Estão ali, do
lado de fora do cemitério Maria Peregrina, em Santana. Ao
passar por lá, dê uma paradinha, olhe para as três ciganas
que hoje estão mais do que juntas, seus galhos e raízes se
entrelaçaram numa união corpórea, tanto que de longe parecem
uma só.
De
longe... de pertinho a sensação é de que cada uma nos propõe
as diferenças.
Ao contar
essa ‘estória’ lembre-se que uma cantadora tem o orvalho da
magia em cada palavra. Respeite a ‘estória’ e ela lhe
respeitará. Quando eu estava apenas com o projeto dessa saga
de contos joseenses programados, quis que a primeira fosse
essa das figueiras.
Saí,
em pleno domingo, para fotografá-las, a história eu a tinha
de prospecção arqueológica literária, armazenada em baú e na
cabeça; o que eu não sabia era que ali, diante das
Figueiras, eu ia encontrar Sr. Zé Oito. Ele me disse que
tinha ido para uma partida de futebol junto com o filho
dele, ali na Rhodia, em frente às três figueiras, mas não
achou o filho e nem o jogo.
Entenderam?! Quando se quer contar uma ‘estória’ a magia
cuida de tudo para nós.
Há muitos
anos quem prenunciou para mim essa Lenda Urbana foi George
Gutlich, artista joseense, presença marcante na história da
cidade. Mentor das artes e...das Figueiras de Santana.
(*)
Rita Elisa Seda é Cronista, poeta e fotógrafa. Pertence a REBRA, Academia Literária e Academia Valeparaibana de
Letras. Escreve para o Tribuna Popular - Go. Visão Vale –
São José dos Campos. Jornal Informativo da UFG - Go.autora
dos livros:
Ciber@migos
Pontocom, TROFÉU, Retalhos de Outono, NÀCAR e DESERTOS -
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