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  17.10.2008 00h.15  
  Crônica pantaneira

Rita Elisa Seda (*)

 

A gruta azul

Naquela sexta feira, logo cedo, saímos para viajar.  Na verdade eu queria mesmo é ficar, saber o resultado da caçada à onça, mas arrumei minha mochila e me 'aconcheguei' na picape.

Seguimos em direção ao norte, nosso destino era a Fazenda Água Preta, também era uma das fazendas do meu anfitrião.  Para cortar caminho atravessamos a terra de Sr. Isidoro, percorremos uns 45 km dentro  das terras dele, numa reta que parecia não ter fim. 

Nunca tinha visto tanta terra plana. O melhor foram os tuiuiús voando baixo... que envergadura de asas, que postura de vôo, achei tão lindo que não consegui fotografar. Não perderia aquele momento, nem por um segundo. Depois passamos pelas lagoas rasas que se formam na seca. Todas infestadas de jacarés de todos tamanhos.  Atravessando a estrada, bem à frente, passaram algumas emas, correndo desengonçadas, dizendo que aquele território era delas.

Também as seriemas, as capivaras, os cervos, passavam pela estrada, entravam na mata e seguiam calmamente, cientes de que eram os donos da terra.  

Passamos pelo rio Cristalino. Um convite ao banho.  É claro que a ponte estava impedida. Paramos à margem. As águas são tão cristalinas que podemos ver os peixes passeando ao nosso lado. Nadei... boiei... mergulhei... não queria sair mais de lá.

O tempo parou. Nem percebi que já tinha passado a hora do almoço. Só notei quando me acenaram com um pote de farofa.  Foi quando me dei conta de que meu estômago roncava forte.  Havia ficado horas naquele torpor pantaneiro, boiando na água, olhando céu riscado de pássaros.  

Seguimos viagem. Há uns 70 km dali paramos na Fazenda Gruta Azul do Calcário. Fomos até a casa grande da fazenda. Uma imponência sem igual. Rogério conversou com seu amigo, me apresentou e pediu licença para ir até a Gruta Azul.  Concessão dada. Fomos. Na base de uma montanha, uma abertura de caverna. 

Adentramos.  Não há palavras no dicionário que possa transmitir a sensação que senti.  Foi a primeira vez que pedi licença à mãe natureza para pisar em solo sagrado. Sim... aquele lugar era sagrado.  Entendi porque  tivemos que pedir autorização.  É preciso respeito e amor à mãe Terra para pisar ali.  Fiquei um tempo agachada à beira do lago, só olhando. 

O pessoal fez silêncio absoluto.  Entramos na água azul. A cada braçada abre-se um arco-íris em volta. As estalactites pingavam. As estalagmites  não deixavam que ficássemos de pé no fundo do lago. Os estranhos caranguejos, peixinhos  e pitus faziam cócegas subindo por nossas pernas, numa harmonia sem igual.

Eu que pensava ter visto as coisas mais lindas da natureza... agora sabia que havia mais a serem descobertas. Pensei em atravessar um pequeno túnel de calcário e ir para outro salão da gruta. Mas, ficou para depois. Tínhamos somente a permissão de 1 hora. Respeitando isso, fomos embora, num silêncio memorial, num acalento de alma, numa ampliação de horizontes, numa nova vida. 

Voltamos para a estrada.  Seguimos para Água Preta, outra fazenda de Rogério e Paula. Eles, nos bancos da frente, quietos, as filhas, ao meu lado, caladas, o Jerry na caçamba em cima das  malas, mudo.

Era o efeito ' Gruta Azul' como retornar ao mundo exterior depois de uma experiência tão intensamente bela? Não sei explicar. Só notei que atravessamos 90km de retas pantaneiras, 72 km dentro da fazenda Água Preta, quando  Rogério falou: chegamos.

Já era noite.  Tudo diferente da fazenda Saudade. Toda infra-estrutura de fazenda. Casa grande, casa de caseiro. Torre de celular e  TV.  Um belo gerador de energia. Horta e pomar. 

O agregado 'Ligeirinho' estava na lida. Logo apareceu e nos preparou uma janta. Depois fomos 'prosear' olhando as estrelas. Como sempre, uma chuva de estrelas cadentes fez presença.

Depois de uma semana sem comunicação consegui falar com meu marido via telefone. Uma alegria e tanto.  Tinha tanto o que contar que fiquei calada, só consegui informar que estava perto de São Félix do Araguaia.

Depois de vários dias, foi a primeira noite que passei entre quatro paredes. Sem me importar com o jacaré. E nem me lembrava mais da caçada do onça... meus sonhos aconteceram em pleno dia... a Gruta Azul.

(*) Rita Elisa Seda é Cronista, poeta e fotógrafa.Pertence a REBRA, Academia Literária e Academia Valeparaibana de Letras. Escreve para o Tribuna Popular - Go. Visão Vale – São José dos Campos. Jornal Informativo da UFG - Go.autora dos livros: Ciber@migos Pontocom, TROFÉU, Retalhos de Outono, NÀCAR e DESERTOS - ritelisa@ibest.com.br visite: www.palavrasdeseda.blogspot.com - http://www.ritaelisaseda.com.br


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