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  27.02.10 21h.40  
  As Figueiras de Santana                                          A cidade de São José dos Campos tem muitas lendas que precisam ser perpetuadas.

Rita Elisa Seda (*)

 

O certo seria agora, vocês e eu, estarmos em uma roda de prosa, sentados no chão, no centro uma fogueira, com árvores ao nosso redor e o céu por testemunha.

Todas as vezes que necessito desse lugar, escuto a experiente Clarissa Pinkola Estés dizer que não importa o lugar, a hora e muito menos a estação do ano, uma história estar sendo contada faz com que um céu estrelado e uma lua branca pairem nas cabeça dos ouvintes.

A contadora de história ou melhor... a ‘cantadora’, como se dizia antigamente, é aquela que vai narra – transmite sementes!

É mesmo um mistério como escolhemos essas sementes. Diante de tantas que colhi esses anos em São José dos Campos, resolvi soltar ao vento algumas que plantei, colhi frutos e deles vieram novas sementes.

Começo hoje uma série de ‘estórias’ joseenses que denomino Lendas Urbanas, vou contar mês a mês as que o vento trouxer.

Sim... se ao ler essa ‘estória’ você sentir o vento tocando seu rosto saiba que foi convocado para ser uma cantadora ou cantador de estórias, permita que a voz que sussurra em você grite liberdade e conte essa ‘estória’ para mais alguém.

Sabe, ali onde São José dos Campos tem queijo e café passado no coador de pano? Ali onde no fogão à lenha um tição ainda arde a noite toda para acordar o dia. Isso mesmo... em Santana. Parada de tropeiros, ponto de chegança e de partida. Vamos começar por aí.

Há muitos e muitos anos, perto da linha do trem, sempre aparecia um acampamento de ciganos. Não ficavam muito tempo, o suficiente para montar barracas, cuidar das roupas, dos cavalos, arrumar comida e água, festar um pouco e partir.

Entre os errantes a tradição era parar sempre ali, perto dos trilhos. Certo ano acampou ali um comboio de ciganos. Alguns homens e mulheres cometidos de febre, doentes, precisavam de cuidados. Os ciganos, fortes, conseguiram superar a doença, mas as três ciganas que chegaram doentes faleceram.

Os ciganos foram até o cemitério de Santana e pediram autorização para sepultar suas mulheres, para tristeza deles o pedido foi negado.

Desgostosos, resolveram levantar acampamento, ir embora, puxar as carroças, mas, antes, de madrugada, foram até o muro do cemitério e, do lado de fora mesmo, enterraram as três ciganas. De cada cova nasceu uma árvore, sim... três figueiras. Teve mesmo de ser a figueira, pois foi a única árvore que Jesus amaldiçoou, dizendo que dela nada nasceria, não daria frutos.

As ciganas também foram renegadas, elas não mais dariam fruto. As mirradas árvores se desenvolveram rapidamente.

Sr. José conhecido como Zé Oito, morador há 61 anos daquelas paragens, nascido ali do lado do Pio XI, conta que ninguém, no seu juízo perfeito, passava à noite naquela rua sozinho e nem com turma.

Ele mesmo, calculando a lembrança, disse que desde seus dez anos receava passar perto das árvores. Isso porque uma delas chorava, “qual que é a gente num sabe”, mas que chorava, chorava! “Acho até que é porque com o movimento do vento ela rangia, e aí ela chorava”.

As árvores cresceram tanto que hoje tomam todo o passeio. Estão ali, do lado de fora do cemitério Maria Peregrina, em Santana. Ao passar por lá, dê uma paradinha, olhe para as três ciganas que hoje estão mais do que juntas, seus galhos e raízes se entrelaçaram numa união corpórea, tanto que de longe parecem uma só.

De longe... de pertinho a sensação é de que cada uma nos propõe as diferenças.

Ao contar essa ‘estória’ lembre-se que uma cantadora tem o orvalho da magia em cada palavra. Respeite a ‘estória’ e ela lhe respeitará. Quando eu estava apenas com o projeto dessa saga de contos joseenses programados, quis que a primeira fosse essa das figueiras.

Saí, em pleno domingo, para fotografá-las, a história eu a tinha de prospecção arqueológica literária, armazenada em baú e na cabeça; o que eu não sabia era que ali, diante das Figueiras, eu ia encontrar Sr. Zé Oito. Ele me disse que tinha ido para uma partida de futebol junto com o filho dele, ali na Rhodia, em frente às três figueiras, mas não achou o filho e nem o jogo.

Entenderam?! Quando se quer contar uma ‘estória’ a magia cuida de tudo para nós.

Há muitos anos quem prenunciou para mim essa Lenda Urbana foi George Gutlich, artista joseense, presença marcante na história da cidade. Mentor das artes e...das Figueiras de Santana.

(*) Rita Elisa Seda é Cronista, poeta e fotógrafa. Pertence a REBRA, Academia Literária e Academia Valeparaibana de Letras. Escreve para o Tribuna Popular - Go. Visão Vale – São José dos Campos. Jornal Informativo da UFG - Go.autora dos livros: Ciber@migos Pontocom, TROFÉU, Retalhos de Outono, NÀCAR e DESERTOS - ritelisa@ibest.com.br visite: www.palavrasdeseda.blogspot.com - http://www.ritaelisaseda.com.br


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