Quando eu fiz a pesquisa
sobre as Árvores Imunes de Corte em São José dos
Campos, houve uma pela qual fiquei fascinada:
guapuruvu,
também conhecida
como faveira ou pau-de-vintém.
Foi catalogada pelo
paisagista Roberto Burle Marx, que apaixonado pela
exuberância dessa espécie arbórea nativa da região do Vale
do Paraíba, deu a ela o nome científico de
Schizolobium
parahyba, passando a ser conhecida em
todo planeta como a árvore do Vale do Paraíba. Por
isso o paisagista fez a inclusão de alguns exemplares de
guapuruvu ao paisagismo do complexo formado pela antiga
Tecelagem Parahyba e Fazenda Santana do Rio
Abaixo, bem em frente à Residência Olivo Gomes.
È fascinante o porte dessa árvore, podendo atingir até
mesmo uns 30 metros de altura.
Existe na Região
Leste de São José dos Campos, exatamente dentro do
terreno onde está edificada a Escola Municipal de
Ensino Fundamental Leonor Pereira Nunes Galvão,
na praça José Molina, perto da igreja São Sebastião, um
lindo e raro exemplar da árvore guapuruvu. Lindo porque na
primavera suas flores transbordam da copa e um tapete
amarelo cobre pedaço do passeio e da rua.
Raro porque deve ser
o guapuruvu mais antigo em área urbana joseense, deve ter
mais de 100 anos, sua copa é tão alta que em vários locais
da Vila Industrial podemos avistar a árvore.
Conversando com os antigos moradores da vila e professoras
da EMEF Leonor P. N. Galvão, todos foram unânimes em dizer
que é a árvore mais bonita da região. Aproveitei para
resgatar duas lendas a respeito dessa árvore.
A primeira é que antigamente
as crianças brincavam de comércio usando as sementes do
guapuruvu como moeda de troca (significado de
pau-de-vintém), pelo tanto que davam valor às sementes,
originando uma expressão que virou lenda: uma pessoa ao
ser presenteada com uma semente de Garapuvu, para sempre é
selada essa amizade.
A outra lenda vem de muitos
anos... na oralidade dos índios Tupis que viviam na região
do Vale do Paraíba e pelos Tupinambás do Litoral Norte, em
registro de Mariza Taguada. Quando ainda não havia tanta
tribo nessa terra, há muitos e muitos anos, por aqui vivia
um jovem e forte guerreiro chamado Guapuruvu.
Certa noite não conseguindo
dormir, por causa de uma misteriosa inquietação, saiu da
rede e caminhou pela floresta mal iluminada por causa da lua
nova. Dentro da mata distinguiu um vulto dourado movendo-se
por entre as folhagens. O corajoso e inconseqüente guerreiro
embrenhou-se na mata atrás daquele brilho, quieto e
rasteiro, como uma grande onça.
Guapuruvu, fascinado pela
luz dourada chegou à nascente de um rio e assustou-se ao ver
uma linda mulher de corpo dourado e longos cabelos negros
banhando-se nas singelas águas. O mais espetacular era que
as gotas d'águas que a tocavam transformavam-se em pepita de
ouro e rolavam para dentro do rio.
O guerreiro sentiu o
coração bater forte e temendo que a formosa moça percebesse
sua presença escondeu-se, permanecendo no mesmo lugar,
hipnotizado, a noite toda, até o dia amanhecer e voltar para
a aldeia. Os dias se passaram e todos da tribo notaram o
olhar desvairado que Guapuruvu lançava à mata e a agitação
que tomava conta dele enquanto esperava pela lua nova...
ansioso para encontrar sua amada.
Assim, na primeira noite da
lua nova ficou à espreita e não viu a linda mulher.
Retornando à aldeia nem conseguiu caçar ou pescar. Os outros
perguntavam o que ele tinha, mas ele nada dizia. Na noite
seguinte retornou à trilha do rio. A escuridão era tanta que
Guapuruvu tropeçou e machucou-se nos cipós, galhos e raízes
até chegar à nascente do rio. Foi quando viu uma luz
achegando e transformando-se na linda jovem. Inebriado,
soltou um suspiro alto, atraindo a atenção da jovem que,
assustada, fugiu deixando para trás um rastro de poeira
púrpura.
Guapuruvu passou horas e
horas chorando à beira da nascente e pedindo para que ela
voltasse. A linda moça, depois de passar o susto, atraída
por aqueles lamentos tristes e aquelas juras de amor que o
rapaz não cansava de repetir, apareceu para o jovem
guerreiro que, de tanta felicidade, lançou-se aos pés da
amada jurando amor eterno. Ela se apresentou como a Mãe
do Ouro, disse que era a guardiã das florestas e
protetora dos animais. Ia sempre até o rio banhar-se pois
sua missão era a de criar pepitas de ouro.
Explicou ao jovem Guapuruvu
que ela não podia casar-se com ele, nem dar-lhe filhos como
as moças da tribo, mas corresponderia ao seu amor. Dessa
forma nas noites de lua nova o jovem Guapuruvu saía da
aldeia para encontrar e amar a Mãe do Ouro.
Os anos se passaram e o
índio guerreiro envelheceu enquanto que a Mãe do Ouro
continuava jovem e bonita. Mas o amor dos dois não foi
afetado por isso. Certa noite ele pressentiu que aquela
seria sua última lua em vida. Já muito velho, com extrema
dificuldade, chegou à nascente do rio onde a Mãe do Ouro já
o aguardava. Ele, muito comovido em deixá-la, despediu-se
suspirando amores eternos.
Abraçaram-se
enternecidamente e, quando Guapuruvu fechou os olhos,
transformou-se em uma grande e frondosa árvore de madeira
forte, ereta, ao pé da nascente, pois dessa forma para
sempre veria sua amada. A Mãe do Outro profetizou que o amor
deles seria eternizado nas raízes, no tronco e nos fortes
galhos da árvore Guapuruvu, que a árvore serviria aos
índios quando transformada em canoa de um pau só. Por isso,
quando em noite de lua nova, vemos um rastro de ouro
passeando pela mata é a Mãe do Ouro que vai namorar o
Guapuruvu.
Quem sabe, lá pelas altas
horas da madrugada, numa noite de lua nova, ao passarmos
pela praça José Molina na Vila Industrial possamos ver um
rastro de luz abraçando o maravilhoso Guapuruvu.

(*)
Rita Elisa Seda é Cronista, poeta e fotógrafa. Pertence a REBRA, Academia Literária e Academia Valeparaibana de
Letras. Escreve para o Tribuna Popular - Go. Visão Vale –
São José dos Campos. Jornal Informativo da UFG - Go.autora
dos livros:
Ciber@migos
Pontocom, TROFÉU, Retalhos de Outono, NÀCAR e DESERTOS -
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