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A gruta azul
Naquela sexta feira, logo
cedo, saímos para viajar.
Na verdade eu queria mesmo é ficar, saber o resultado
da caçada à onça, mas arrumei minha mochila e me
'aconcheguei' na picape.
Seguimos em direção ao norte,
nosso destino era a Fazenda Água Preta, também era uma das
fazendas do meu anfitrião.
Para cortar caminho atravessamos a terra de Sr.
Isidoro, percorremos uns 45 km dentro
das terras
dele, numa reta que parecia não ter fim.
Nunca
tinha visto tanta terra plana. O melhor foram os tuiuiús
voando baixo... que envergadura de asas, que postura de vôo,
achei tão lindo que não consegui fotografar. Não perderia
aquele momento, nem por um segundo. Depois passamos pelas
lagoas rasas que se formam na seca. Todas infestadas de
jacarés de todos tamanhos.
Atravessando a estrada, bem à frente, passaram
algumas emas, correndo desengonçadas, dizendo que aquele
território era delas.
Também as seriemas, as
capivaras, os cervos, passavam pela estrada, entravam na
mata e seguiam calmamente, cientes de que eram os donos da
terra.
Passamos pelo rio Cristalino.
Um convite ao banho.
É claro que a ponte estava impedida. Paramos à
margem. As águas são tão cristalinas que podemos ver os
peixes passeando ao nosso lado. Nadei... boiei...
mergulhei... não queria sair mais de lá.
O tempo parou. Nem percebi que
já tinha passado a hora do almoço. Só notei quando me
acenaram com um pote de farofa.
Foi quando me dei conta de que meu estômago roncava
forte. Havia
ficado horas naquele torpor pantaneiro, boiando na água,
olhando céu riscado de pássaros.
Seguimos
viagem. Há uns 70 km dali paramos na Fazenda Gruta Azul do
Calcário. Fomos até a casa grande da fazenda. Uma imponência
sem igual. Rogério conversou com seu amigo, me apresentou e
pediu licença para ir até a Gruta Azul.
Concessão dada. Fomos. Na base de uma montanha, uma
abertura de caverna.
Adentramos.
Não há palavras no dicionário que possa transmitir a
sensação que senti. Foi
a primeira vez que pedi licença à mãe natureza para pisar em
solo sagrado. Sim... aquele lugar era sagrado.
Entendi porque
tivemos que pedir autorização.
É preciso respeito e amor à mãe Terra para pisar ali.
Fiquei um tempo agachada à beira do lago, só olhando.
O pessoal fez silêncio
absoluto. Entramos
na água azul. A cada braçada abre-se um arco-íris em volta.
As estalactites pingavam. As estalagmites
não deixavam que ficássemos de pé no fundo do lago.
Os estranhos caranguejos, peixinhos
e pitus faziam
cócegas subindo por nossas pernas, numa harmonia sem igual.
Eu que pensava ter visto as
coisas mais lindas da natureza... agora sabia que havia mais
a serem descobertas. Pensei em atravessar um pequeno túnel
de calcário e ir para outro salão da gruta. Mas, ficou para
depois. Tínhamos somente a permissão de 1 hora. Respeitando
isso, fomos embora, num silêncio memorial, num acalento de
alma, numa ampliação de horizontes, numa nova vida.
Voltamos para a estrada.
Seguimos para Água Preta, outra fazenda de Rogério e
Paula. Eles, nos bancos da frente, quietos, as filhas, ao
meu lado, caladas, o Jerry na caçamba em cima das
malas, mudo.
Era o efeito ' Gruta Azul'
como retornar ao mundo exterior depois de uma experiência
tão intensamente bela? Não sei explicar. Só notei que
atravessamos 90km de retas pantaneiras, 72 km dentro da
fazenda Água Preta, quando
Rogério falou: chegamos.
Já era noite.
Tudo diferente da fazenda Saudade. Toda
infra-estrutura de fazenda. Casa grande, casa de caseiro.
Torre de celular e
TV. Um
belo gerador de energia. Horta e pomar.
O agregado 'Ligeirinho' estava
na lida. Logo apareceu e nos preparou uma janta. Depois
fomos 'prosear' olhando as estrelas. Como sempre, uma chuva
de estrelas cadentes fez presença.
Depois de uma semana sem
comunicação consegui falar com meu marido via telefone. Uma
alegria e tanto.
Tinha tanto o que contar que fiquei calada, só
consegui informar que estava perto de São Félix do Araguaia.
Depois de vários dias, foi a
primeira noite que passei entre quatro paredes. Sem me
importar com o jacaré. E nem me lembrava mais da caçada do
onça... meus sonhos aconteceram em pleno dia... a Gruta
Azul.
(*)
Rita Elisa Seda é Cronista, poeta e fotógrafa.Pertence a
REBRA, Academia Literária e Academia Valeparaibana de
Letras. Escreve para o Tribuna Popular - Go. Visão Vale –
São José dos Campos. Jornal Informativo da UFG - Go.autora
dos livros:
Ciber@migos
Pontocom, TROFÉU, Retalhos de Outono, NÀCAR e DESERTOS -
ritelisa@ibest.com.br
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