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A
entrevista realizada no dia 8 de dezembro, com o professor
Élcio Nogueira, que foi pro-reitor na Universidade do Vale
do Paraíba, UNIVAP, é mais uma comprovação que algo não vai
bem no reino do Magnífico Reitor Batista Gargione Filho.
Nascido em Muzambinho, MG, o professor Nogueira, 53,
trabalhou, entre outras coisas, como funcionário da antiga
VASP onde foi um dos responsáveis
pelo primeiro sistema informatizado de reservas de passagens
da América Latina. É físico e matemático com mestrado em
Mecânica Aeronáutica pelo ITA, doutorado em Mecânica pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós doutorado em
Mecânica nos Estados Unidos.
Professor
Élcio Nogueira, o que o
trouxe à São José dos Campos?
– Eu trabalhava no Senai, em Varginha, MG, fazia
especialização em Ciências Térmicas, na Universidade Federal
de Viçosa, MG. Foi então que dois professores vieram para o
ITA fazer doutorado e eu vim junto para fazer um mestrado,
em 1986. Depois fui para o Rio de Janeiro fazer o doutorado
na área de engenharia mecânica. Em 1989, o ITA precisou de
professores, eu vim do Rio e fui professor auxiliar do
Professor Euclides e do Danilo Cesco. Dei aula no Instituto
nas áreas de Mecânica dos Fluídos, Máquinas de Fluxo,
Transferências de Calor e trabalhei no Departamento de
Energia. Também fui professor titular da Universidade de
Taubaté.
Quando
ingressou na UNIVAP?
- Em 1992, ingressei na
Universidade do Vale do Paraíba como professor regular em
tempo integral. Fui coordenador do curso de Ciência da
Computação, chefe do departamento de Matemática e
Informática, depois fui eleito para o Instituto de Ciências
Exatas e Tecnologia, algo em torno de 14 anos.
O senhor
foi admitido pelo próprio reitor, Batista
Gargione? – O professor Gargione é quem, efetivamente, contrata e
demite as pessoas. Apesar da Lei de Diretrizes e Bases da
Educação preconizar que para ser admitido ou demitido o
professor tem que passar pelo Conselho Superior da
Instituição na UNIVAP isso não acontece.
O que
representa realmente a UNIVAP?
– De acordo com os seus estatutos e regimentos é uma
universidade comunitária, filantrópica e sem fins
lucrativos. Ou seja, os recursos provenientes das
mensalidades e outros devem ser aplicados na própria
universidade, em pesquisa, ensino e extensão.
E como
foi a sua passagem pela Univap?
– O professor Gargione precisava, num certo momento, de
pessoas tituladas e por isso contratou várias. Quando
diretor do Instituto de Ciências Exatas e Tecnologia e
diretor da Faculdade de Engenharia eu montei um grupo muito
forte, trouxe mais de 40 doutores jovens com pesquisas em
agências de fomento. Tenho cartas dirigidas a mim pelos que
foram demitidos ou que saíram por não suportar os maus
tratos.
Como vê o
Batista Gargione permanecer reitor esse tempo todo, pode
isso?
– De acordo com os estatutos, não. Pelo Regimento ele
deveria ter saído em 2000, ou seja, quatros e mais quatro
anos, tão somente, é o que está escrito, mas ele interpreta
de maneira diferente sendo um dos motivos da nossa
discordância.
Então
mudaram os Estatutos?
– Não houve modificação, ele continua “magnífico” reitor em
função de um tipo de eleição que ele próprio criou onde as
pessoas são obrigadas a escrever o nome completo do
escolhido e, com isso, ser facilmente identificadas. Algo
confirmado na interpretação que o Dr. Hélio
Pereira Bicudo coloca num
documento apoiando as
sérias denúncias enviadas por mim e outros ao Conselho do
Ministério Público do Estado de São Paulo. O Dr. Bicudo
demonstra que a atuação do Gargione como reitor desde o ano
2000 não tem validade. Em função disso, solicitamos à
Justiça a nulidade dos atos do reitor nos últimos sete anos
e a saída dele imediatamente.
Apesar
disso, o senhor resistiu e continuou na Univap?
– Eu fui eleito como chefe do Instituto de Ciências Exatas.
Em 1998 o reitor criou uma situação diferente, desmembrou os
Institutos e os transformou em faculdades sem maiores
discussões ou opiniões. Eu, particularmente, não considero
algo legal.
Mas, ele
fez isso sozinho ou com outras pessoas?
–
Ele levou
o caso ao Conselho Superior onde eu,
na época, não participava e
fez aprovar a alteração de maneira incompleta, sem ser
submetida ao MEC e isso não pode. No fundo, ele alterou o
regimento da Instituição por conta própria, criou as
faculdades da forma que lhe
interessava (eliminou os 3 institutos e criou 7 faculdades;
dividiu para enfraquecer!). Entretanto, durante um
tempo, os diplomas dos cursos continuaram sendo assinados
por mim, como diretor do Instituto.
Com
reitoria, conselhos, representantes etc, como realmente
funciona a Univap?
– Tem os representantes no Conselho Superior, o
representante da Prefeitura de São José dos Campos, da
Prefeitura de Jacareí e alguns da comunidade, na maioria,
pessoas indicadas pelo reitor.
Quem são
os responsáveis pela UNIVAP?
– São os que compõem o Conselho de Integração Universidade e
Sociedade (CIUS), o Conselho Diretor
e o Conselho Deliberativo
constituído em sua maioria
pelos coordenadores de cursos nomeados pelo reitor.
Dizem
que o reitor tem um temperamento irascível, com atitudes
ditatoriais, o que diz disso?
– Comigo não, eu somente entrava na sala dele quando
convocado. Ele me dizia que eu era pro reitor e que o cargo
era definido por ele. Ele me isolou, me colocou numa posição
e foi me minando, na medida que o tempo passava, foi tirando
as prerrogativas que o pro-reitor tem em qualquer
universidade oficial. Quando conversava ele me dizia: “Você
foi indicado por mim”. Por não constar do Regimento nem dos
Estatutos a função do pro-reitor de graduação eu fiquei na
mão dele. Uma série de coisas que construímos ele desmontou.
Quantos
alunos tem hoje a Univap?
- Chegamos a ter 11 mil alunos na graduação, quando sai
restavam aproximadamente 8
mil, o número caia assustadoramente e
respondi por escrito à
pro-reitora de assuntos estudantis
quais seriam os motivos. Na verdade, quem faz o nome
da Instituição são os professores e os alunos, eles estão
descontentes apesar das comissões enviadas pelo Mec
aprovarem os cursos, a não ser fisioterapia e matemática,
que tiveram que ser reavaliados.
Quanto aos professores, temos gente excelente, porém, o
reitor atribui aulas sem atentar para a área de
especialização do docente como relata o Prof. Rodrigo
Martins, e isso desmotiva o professor e prejudica a
qualidade dos cursos.
Nesses
dias 13, 14 e 15, sem alunos e com poucas atividades a UNIVAP
recebe uma Comissão de Avaliação do MEC. Uma comissão do Mec
nessas circunstâncias, não é estranho?
– Pode acontecer, mas dessa vez é uma situação particular,
trata-se de uma Comissão de Avaliação Institucional, ou
seja, para avaliar a Instituição como um todo, os
professores e alunos deveriam estar presentes para falar à
respeito da Universidade.
O vice
reitor, Professor Teixeira Jr. veio do MEC, alguma relação? - Não posso garantir nada, ele fez o
doutorado na UNITAU, é ex-prefeito da USP, foi ministro
interino, está com 89/90 anos e continua trabalhando. Na
verdade é
um esteio do reitor e segura muita coisa.
Quando
deixou a UNIVAP?
– Saí em novembro de 2006. À medida que as coisas foram
acontecendo fui percebendo que a Instituição não era aquilo
que havia prometido para diversas pessoas trazidas
e que haviam sido admitidas na Instituição. O filho do
reitor, por exemplo, deveria dar aulas no período noturno,
só que havia um funcionário, o João Vitor, que fazia isso
por ele em Jacareí.
Eu
denunciei a irregularidade com fotos do João Vitor atuando
como professor, ele é funcionário
não docente e trabalha com o Luiz Antonio Gargione,
filho do reitor. Em 2002, o Professor Luiz Eduardo Cardoso,
um dos genros do reitor, dava
aulas de química e foi denunciado pelos alunos da Engenharia
Biomédica à reitoria. O reitor encaminhou a queixa dos
alunos à pró-reitoria de graduação. Levei o problema ao
Conselho Superior, do qual o Professor Luiz Eduardo era
membro na época, e os alunos tiveram a carga de aula
reposta, com direito a outro professor para a disciplina.
Isto, evidentemente, nunca foi perdoado. O Professor Luiz
Eduardo Cardoso foi reprovado pela banca de tese de
doutorado na USP e freqüenta atualmente o doutorado na UNIVAP.
E sobre o
diploma de mestrado do filho do Gargione?
– O Luiz Antonio Gargione foi enviado à Universidade de
Berkeley, nos Estados Unidos, para fazer um mestrado na área
de engenharia civil depois de não haver conseguido realizar
isso na USP, foi para os EUA e fez o mestrado
numa outra instituição que não tem o renome internacional
de Berkeley.
A verdade
é que temos mestrados de altíssima qualidade no Brasil e
nenhuma agência de fomento encaminha alguém para fazer
mestrado fora, ainda assim o filho do reitor viajou às
custas da UNIVAP para Berkeley, acabou não indo para lá e
sim para outra instituição, a San Jose State University. Eu
não recebi nenhuma notificação a respeito, mas ele trouxe um diploma de
mestrado que não foi aprovado pela Unicamp que é a
responsável pela validação, o motivo foi a ausência de uma
dissertação.
Posteriormente descobrimos que
um trabalho que o Luiz Antonio disse ter feito nos Estados
Unidos é, na verdade, um plágio de um trabalho do ex-aluno
Dimer Costa Júnior, de graduação da faculdade de
Engenharia, Arquitetura e Urbanismo, de 1995, da própria UNIVAP, sem nenhuma citação. O caso foi encaminhado ao
Ministério Público e ao Ministério
da Educação.
Existem
mais denúncias sobre irregularidades cometidas pelos
parentes do Gargione?
– Tem sim, e muitas, do filho, da filha, do genro. A
cantina, a copiadora, desvios de materiais da
Universidade para o sítio do reitor em São Francisco Xavier.
Tudo que foi denunciado está documentado e foi enviado ao
Ministério Público.
O que
acha da atuação do Ministério Público?
- A promotora Ana Cristina Iorlatti Chami, que não mais se
encontra em São José dos Campos, rejeitou a nossa
representação e determinou o arquivamento com algumas
ressalvas como: “seja evitada a prática de seleção de
empresas pertencentes a parentes até 3º grau dos dirigentes
da Fundação para a prestação de serviços; que sejam
realizadas as eleições com atenção ao sigilo de votos,
evitando-se a identificação dos eleitores por meio da
caligrafia”.
Entretanto, no mesmo dia em que
estava sendo determinado o arquivamento, entramos com novas
denúncias, assinado por mim e mais três ex-docentes e
ex-coordenadores de curso, relacionado com o processo de
eleição da UNIVAP.
Além disso, posteriormente, o Dr.
Hélio Bicudo encaminhou petição demonstrando o vício nas
eleições e outros desacertos ao Conselho do Ministério
Público do Estado de São Paulo, onde se encontra
aberto procedimento para diligencias a partir de maio desse
ano. Espero que o Ministério Público investigue e denuncie
os fatos à Justiça com pedido de afastamento do reitor, do
vice-reitor e de todos os envolvidos nas falcatruas.
O senhor
acredita que se faça Justiça?
-
O esquema
montado pelo Batista Gargione Filho cresceu, ficou muito
poderoso, tornou-se capaz de aliciar, coagir, retaliar e
amedrontar. Isso não significa que não possa cair e colocar
muita gente numa péssima situação perante a Lei, inclusive
seus familiares e também para todos os que foram
coniventes. Aliás, temos
conhecimento de que já estão tomando depoimentos de pessoas
envolvidas no processo de denúncia mencionado anteriormente.
Fale com o Professor Élcio Nogueira:
professor_elcio@yahoo.com.br
NB -
Por várias vezes tentamos um contato com o reitor da UNIVAP,
Batista Gargione Filho, e não tivemos retorno -
www.univap.br . Ao que parece
o reitor tem conhecimento das publicações, ficando a
critério dele se posicionar. Para isso, basta atender a
nossa reportagem.
Saiba
mais:
Doutora é demitida da UNIVAP -
Perseguição na UNIVAP
(*) Acassio Costa é advogado
-
acassio@vejosaojose.com.br |