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  29.11.2007 10h.40  
  Perseguição na Univap
Não é de hoje que a Universidade do Vale do Paraíba se vê envolvida em reclamações trabalhistas e ações judiciais.

Acassio Costa (*)

 

O reitor Batista Gargione Filho (foto) vem sendo acusado de nepotismo, autoritarismo e de se perpetuar no comando da Univap com apoio de um sofisticado esquema político-religioso com ramificações na prefeitura, no Estado e na própria União. Com medo de represálias, professores e funcionários preferem não comentar o assunto. O direito de defesa está assegurado ao reitor.

Rodrigo Martins - Foto: Ricardo FariaO carioca Rodrigo Álvaro Brandão Lopes Martins, 37, (foto) chegou à São José dos Campos, SP, no começo de 2000, contratado como professor em regime de dedicação exclusiva pela Univap. Deu o máximo de si e acredita ter prestado excelentes serviços. Insatisfeito e até sentindo-se ofendido pela direção, o professor  deixou o emprego e luta por seus direitos na Justiça. No último dia 25, Rodrigo nos contou um pouco dos maus bocados vividos e porque está acionando judicialmente a Entidade dirigida por Batista Gargione.

Como foi a sua vida antes de vir para São José dos Campos?          – Me graduei em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, fiz o mestrado em Farmacologia pela Faculdade de Medicina da Unicamp, o doutorado na área de Biologia Molecular, na Fundação Oswaldo Cruz e o pós doutorado na Universidade de São Paulo. Fui convidado por um colega para dar aulas na Univap e constituir o meu laboratório de pesquisas,  cheguei em janeiro de 2000,

Como foi a sua contratação?                                                        – O procedimento foi no gabinete do reitor que disse a mim e a dois outros que a Universidade tinha um procedimento de contratar os doutores, independente da experiência, na referência 11, a inicial do professor doutor. Foi, por assim dizer, o meu primeiro emprego formal.

Por quanto tempo ficou no emprego?                                            – Permaneci até o início de 2005. Nesse período tive a oportunidade de ser coordenador de curso. Quando o de Fisioterapia teve um conceito baixo (E) do MEC,  fui convidado para assumir a coordenação para reestruturar o curso e fosse submetido a uma nova avaliação pelo MEC. Isso aconteceu em 2001, eu já tinha um ano e meio de casa. Assumi a função e consegui sucesso.

Quais as suas publicações?                                                          – São de vários tipos e temas na minha linha de pesquisas. Já havia trabalhado com pesquisas cardio vasculares, de regulação de pressão arterial, experimentos com animais etc. Na Univap, comecei a trabalhar na área de aplicação de laser em medicina, desde o tratamento de doenças reumatológicas, doenças crônicas e dolorosas. São pesquisas referendadas internacionalmente. Tanto que faço parte da diretoria científica da Sociedade Mundial de Laser Terapia. Todos os anos vou à Noruega fazer parte dos trabalhos. 

Como foi a sua convivência com a administração da Univap?          – Eu convivi bastante, e tive até uma grande surpresa ao preparar os documentos para a visita do MEC, o acesso a um livreto com os planos de carreira da Univap que eu e a maioria dos docentes não conhecíamos.

O que pode dizer sobre isso?                                                        – Na verdade, no plano de carreira do docente que é registrado no MEC e no Sindicato, a carreira do professor doutor deve ter início na referência 15 e eu havia ingressado na 11. Fiquei bastante chateado, trabalhar por quase quatro anos numa referência bem abaixo a que fazia jus por ter doutorado, pós doutorado, ser um pesquisador com projeto aprovado na Fapesp com publicações de alto nível científico.

Na realidade, eu havia sido enquadrado, de acordo com o plano de carreira, simplesmente como mestre, fiz uma reclamação e constatei que tinha colegas sem pós doutoramento que eram uma referência acima da minha, 16, 17 etc. Até docentes que haviam sido alunos meus no mestrado eram referência 20, de professor titular, sem concluir o mestrado. E eu continuava na 11 inicial. Isso me revoltou. Um pesquisador de carreira ser enquadrado abaixo da titulação e capacidade e ver professor sem qualificação na sua frente, magoa muito. Principalmente por ter participado, entre os dez primeiros, da lista dos mais produtivos da universidade. Mesmo assim não fui agraciado com uma promoção no nível funcional.

Você falou sobre outros aborrecimentos, pode citar alguns?           – A minha especialidade é na área de farmacologia e muitas vezes tive que dar aulas de várias disciplinas fora da minha especialidade. Para o professor é muito ruim, expõe o profissional à uma situação onde ele não se sente a vontade.

Mas, isso pode, é correto?                                                            – Uma vez ocorreu o absurdo de me atribuírem aulas de matemática, me movimentei e consegui que me tirassem. Já imaginou um biólogo com pós doutorado dando aulas de matemática. Sei que vários professores eram obrigados  a se submeter a isso.

E ainda por cima se acidentou na Univap?                                      – Eu tive um acidente de trabalho na Univap. Veja só, mesmo sendo um biólogo com pós doutorado, como pratico Judô, me foram atribuídas aulas desse esporte. Cheguei a organizar um projeto que envolvia equipes esportivas na Univap, o Rúgbi tinha como técnico o professor Maurício, técnico da seleção brasileira que foi meu aluno de mestrado. A equipe chegou ser campeã universitária. Era um programa amplo com várias equipes. Sou apaixonado pelo Judô, mas não sou faixa preta e não posso dar aulas.

Mas, por conta do projeto, me foram atribuídas as aulas, apesar de ter informado às coordenadoras que não tinha condições de ser professor e que deveriam contratar um alguém habilitado, o que foi negado. Eu tive que dar aulas de Judô com alguns auxiliares que não ganhavam nada. Depois de um mês, sofri um acidente durante uma das aulas, sofri uma torção no joelho com rompimento dos ligamentos e do menisco, com trauma muito doloroso.

Na ocasião, não havia atendimento médico e fui dirigindo o carro até o pronto atendimento. Tive que fazer uma cirurgia para a colocação de fios de titânio, parafusos e placa no joelho. Continuo com uma lesão degenerativa de cartilagens que não tinha antes, perdi parte dos movimentos do joelho e sinto dores constantes. Isso faz parte de minha reclamação trabalhista. Apesar de obrigado, eu jamais poderia estar dando aulas de Judô, não sou formado em Educação Física e nem tenho faixa preta de Judô. Esse é um dos absurdos que acontece na Univap.

Na sua opinião como deveria funcionar a Universidade?                  – É preciso valorizar as pessoas. Acho que numa universidade o mais importante são os recursos humanos, o que tem de mais valioso são os cérebros. Uma lista de demissões faz a pessoa trabalhar insegura, com receio de chegar no fim do ano e ser demitido por ter falado alguma coisa, por ter feito alguma crítica ou por não ter aceito uma atribuição de aulas fora da especialidade. O espírito de universidade, de pluralidade de opiniões não existe. É um regime totalitário, um clima de terror constante. Vi e vivi muito disso.

Então as pessoas trabalham com medo?                                       - É isso aí, sempre tive dedicação exclusiva à Univap. Nunca tive outro emprego enquanto estava lá. Fica complicado, casado, pai de família com dois ou três filhos a pessoa se sente acuada. Falar alguma coisa e, de repente ser demitido por causa disso.

A Univap não é privada e tem até um Conselho Deliberativo, como vê a universidade funcionar dessa maneira?                                  – No caso do nível funcional, algumas vezes solicitei por escrito a minha reclassificação e nunca fui atendido. Aconteciam coisas estranhas. Nas eleições, por exemplo, ao invés de marcar com um xis, era preciso escrever o nome do escolhido o que possibilita a identificação do voto.

Como num jogo de cartas marcadas?                                            – O que eu posso dizer é que na Univap as pessoas trabalham com medo. No meu caso, vim para São José, comprei casa e me estabeleci com a família. O risco de ser demitido de uma hora para outra é apavorante. Um professor altamente qualificado como eu não consegue trabalho de uma hora para outra, em qualquer lugar. Os concursos nas universidades públicas são raros e difíceis.

Cheguei a ter dar aulas em nove a dez disciplinas diferentes, fora da minha especialidade, uma média de 25 a 30 horas em salas de aulas e ainda orientar alunos, manter um laboratório de pesquisas sujeito a auditorias da Fapesp, do Tribunal de Contas como responsável pelo projeto. Por várias vezes tive que pedir adiamentos de relatórios de prestações de contas à Fapesp, porque não conseguia fazer. Ficava de manhã, de tarde e de noite na Universidade. Tinha dia que, uma hora antes da aula, não sabia o que ia dar. Depois que entrei para a USP, o meu nível de estresse diminuiu muito.

E não reclamava?                                                                        – Claro que sim, uma vez fiz uma carta ao meu diretor dizendo que não tinha condições de dar dez disciplinas diferentes, mais o laboratório de pesquisas e alunos de pós graduação. A resposta, também por escrito, foi a de que, infelizmente, a situação era essa, caso de que não concordasse deveria  me expressar por escrito para que a reitoria tomasse as providências, tudo num tom ameaçador. Eu sabia que a não concordância normalmente culminaria em demissão.

Quando saiu da Univap?                                                               – Em 2004 prestei um concurso de nível bem alto na USP com concorrentes vindos do Canadá e dos Estados Unidos e fui aprovado em primeiro lugar. Acho que demonstra mérito e capacitação, algo que a Univap não reconheceu quando me manteve em referências abaixo do meu nível funcional. Hoje sou docente em tempo integral e pesquisador no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, considerada uma das melhores do mundo.

Vários docentes já ingressaram com ações judiciais contra a Univap?                                                                                      – Grande parte dos docentes acabam tendo algum tipo de reclamação porque acontece muita coisa de errado na Univap do ponto de vista trabalhista. Muitos docentes querem sair de lá, mesmo para ganhar um pouco menos.

Então é um clima de terror?                                                          – Isso mesmo, para se ter uma noção, depois que entrei na Justiça eu praticamente perdi os amigos que tinha na Univap. As pessoas não respondem os e-mails com medo das represálias, uma simples conversa pode causar problemas. Alguns colegas me disseram que, infelizmente, não poderiam ter colaboração científica comigo. Alguns, inclusive, foram advertidos para não manter trabalhos comigo em razão dos processos. Não posso culpá-los, sei exatamente o que acontece na Univap. Alguém que passou dos 40 anos com alto nível de titulação não consegue um emprego de uma hora para outra, daí que o medo da demissão ser enorme.

As pessoas são dispensadas por telegrama?                                  - Quando chega o telegrama avisando para passar no departamento pessoal, você é simplesmente um número. Não são levados em conta os anos de trabalho. Basta ver o caso do professor Camargo, que foi do ITA, um profissional altamente qualificado em matemática que lecionou por mais de 20 anos contribuindo com a Universidade, e foi até amigo pessoal do reitor. Ele simplesmente recebeu um telegrama informando que os serviços dele não eram mais necessários. Não houve satisfações nem a mínima consideração.

Consideração com o ser humano não existe?                                 – Na Univap os recursos humanos são desprezados.  Se valoriza muito mais o tijolo e o concreto, os vidros espelhados, os prédios bonitos. A Univap tem um enorme orçamento anual, coisa de setenta milhões maior do que muita cidade brasileira. Com isso, poderia ser um centro de excelência internacional e não é. Porque os cérebros não são valorizados. Sinceramente tenho esperança que aconteça uma reviravolta na Univap, que ela passe a ter uma administração que merece. Tem muita gente boa nela capaz de fazer isso. Não podemos mais aceitar que pesquisadores de alto nível trabalhem com medo, isso contraria o espírito universitário.

E sobre o caso do professor Élcio Nogueira que foi pro reitor da Univap?                                                                                      - Acho que seria uma boa procurar e escutar o professor Élcio, ele apresentou um dossiê enorme ao Ministério Público a respeito do funcionamento da Univap. Foi até solicitada a interferência do senador Eduardo Suplicy. A opinião pública não tem conhecimento dos momentos absurdos por que passaram e passam os funcionários da Univap onde muita coisa tem que ser averiguada.

E daqui para frente o que pretende?                                              – Moro em Jacareí e vou continuar na USP. Mantenho colaborações em diversos países. Dentro da Universidade de São Paulo, temos um grupo de trabalho muito bom. Tentamos mostrar os efeitos benéficos das terapias com laser e que esse tipo de tratamento seja aceito pelo SUS, seria muito importante e uma grande economia para o Sistema.

Fale com o professor Rodrigo Martins: rmartins@icb.usp.br

A Univap

A Universidade do Vale do Paraíba – UNIVAP - é mantida pela Fundação Valeparaibana de Ensino - FVE, com sede na Praça Cândido Dias Castejón, nº 116, na cidade de São José dos Campos-SP, instituição jurídica de direito privado, comunitária, filantrópica e sem finalidade lucrativa, instituída por escritura pública de 24 de agosto de 1963, lavrada no Cartório do 1º Ofício de Notas e Anexos da Comarca de São José dos Campos-SP, às folhas 93vº/96vº, do livro 275, inscrita no Ministério da Fazenda sob o CGC nº 60.191.244/0001-20. www.univap.br

NA - Continuamos tentando um contado com o reitor Batista Gargione para que se pronuncie a respeito das críticas a ele dirigidas.

(*) Acassio Costa é advogado - acassio@vejosaojose.com.br


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