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O
reitor Batista Gargione Filho (foto) vem sendo acusado de
nepotismo, autoritarismo e de se perpetuar no comando da
Univap com apoio de um sofisticado esquema
político-religioso com ramificações na prefeitura, no Estado
e na própria União. Com medo de represálias, professores e
funcionários preferem não comentar o assunto. O direito de
defesa está assegurado ao reitor.
O
carioca Rodrigo Álvaro Brandão Lopes Martins, 37, (foto)
chegou à São José dos Campos, SP, no começo de 2000,
contratado como professor em regime de dedicação exclusiva
pela Univap. Deu o máximo de si e acredita ter prestado
excelentes serviços. Insatisfeito e até sentindo-se ofendido
pela direção, o professor deixou o emprego e luta por seus
direitos na Justiça. No último dia 25, Rodrigo nos contou um
pouco dos maus bocados vividos e porque está acionando
judicialmente a Entidade dirigida por Batista Gargione.
Como
foi a sua vida antes de vir para São José dos Campos?
– Me graduei em Ciências Biológicas pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro, fiz o mestrado em Farmacologia
pela Faculdade de Medicina da Unicamp, o doutorado na área
de Biologia Molecular, na Fundação Oswaldo Cruz e o pós
doutorado na Universidade de São Paulo. Fui convidado por um
colega para dar aulas na Univap e constituir o meu
laboratório de pesquisas, cheguei em janeiro de 2000,
Como
foi a sua contratação?
– O procedimento foi no gabinete do reitor que disse a mim e
a dois outros que a Universidade tinha um procedimento de
contratar os doutores, independente da experiência, na
referência 11, a inicial do professor doutor. Foi, por assim
dizer, o meu primeiro emprego formal.
Por
quanto tempo ficou no emprego?
– Permaneci até o início de 2005. Nesse período tive a
oportunidade de ser coordenador de curso. Quando o de
Fisioterapia teve um conceito baixo (E) do MEC, fui
convidado para assumir a coordenação para reestruturar o
curso e fosse submetido a uma nova avaliação pelo MEC. Isso
aconteceu em 2001, eu já tinha um ano e meio de casa. Assumi
a função e consegui sucesso.
Quais
as suas publicações?
– São de vários tipos e temas na minha linha de pesquisas.
Já havia trabalhado com pesquisas cardio vasculares, de
regulação de pressão arterial, experimentos com animais etc.
Na Univap, comecei a trabalhar na área de aplicação de laser
em medicina, desde o tratamento de doenças reumatológicas,
doenças crônicas e dolorosas. São pesquisas referendadas
internacionalmente. Tanto que faço parte da diretoria
científica da Sociedade Mundial de Laser Terapia. Todos os
anos vou à Noruega fazer parte dos trabalhos.
Como
foi a sua convivência com a administração da Univap?
– Eu convivi bastante, e tive até uma grande surpresa ao
preparar os documentos para a visita do MEC, o acesso a um
livreto com os planos de carreira da Univap que eu e a
maioria dos docentes não conhecíamos.
O que
pode dizer sobre isso?
– Na verdade, no plano de carreira do docente que é
registrado no MEC e no Sindicato, a carreira do professor
doutor deve ter início na referência 15 e eu havia
ingressado na 11. Fiquei bastante chateado, trabalhar por
quase quatro anos numa referência bem abaixo a que fazia jus
por ter doutorado, pós doutorado, ser um pesquisador com
projeto aprovado na Fapesp com publicações de alto nível
científico.
Na
realidade, eu havia sido enquadrado, de acordo com o plano
de carreira, simplesmente como mestre, fiz uma reclamação e
constatei que tinha colegas sem pós doutoramento que eram
uma referência acima da minha, 16, 17 etc. Até docentes que
haviam sido alunos meus no mestrado eram referência 20, de
professor titular, sem concluir o mestrado. E eu continuava
na 11 inicial. Isso me revoltou. Um pesquisador de carreira
ser enquadrado abaixo da titulação e capacidade e ver
professor sem qualificação na sua frente, magoa muito.
Principalmente por ter participado, entre os dez primeiros,
da lista dos mais produtivos da universidade. Mesmo assim
não fui agraciado com uma promoção no nível funcional.
Você
falou sobre outros aborrecimentos, pode citar alguns?
– A minha especialidade é na área de farmacologia e muitas
vezes tive que dar aulas de várias disciplinas fora da minha
especialidade. Para o professor é muito ruim, expõe o
profissional à uma situação onde ele não se sente a vontade.
Mas,
isso pode, é correto?
– Uma vez ocorreu o absurdo de me atribuírem aulas de
matemática, me movimentei e consegui que me tirassem. Já
imaginou um biólogo com pós doutorado dando aulas de
matemática. Sei que vários professores eram obrigados a se
submeter a isso.
E
ainda por cima se acidentou na Univap?
– Eu tive um acidente de trabalho na Univap. Veja só, mesmo
sendo um biólogo com pós doutorado, como pratico Judô, me
foram atribuídas aulas desse esporte. Cheguei a organizar um
projeto que envolvia equipes esportivas na Univap, o Rúgbi
tinha como técnico o professor Maurício, técnico da seleção
brasileira que foi meu aluno de mestrado. A equipe chegou
ser campeã universitária. Era um programa amplo com várias
equipes. Sou apaixonado pelo Judô, mas não sou faixa preta e
não posso dar aulas.
Mas,
por conta do projeto, me foram atribuídas as aulas, apesar
de ter informado às coordenadoras que não tinha condições de
ser professor e que deveriam contratar um alguém habilitado,
o que foi negado. Eu tive que dar aulas de Judô com alguns
auxiliares que não ganhavam nada. Depois de um mês, sofri um
acidente durante uma das aulas, sofri uma torção no joelho
com rompimento dos ligamentos e do menisco, com trauma muito
doloroso.
Na
ocasião, não havia atendimento médico e fui dirigindo o
carro até o pronto atendimento. Tive que fazer uma cirurgia
para a colocação de fios de titânio, parafusos e placa no
joelho. Continuo com uma lesão degenerativa de cartilagens
que não tinha antes, perdi parte dos movimentos do joelho e
sinto dores constantes. Isso faz parte de minha reclamação
trabalhista. Apesar de obrigado, eu jamais poderia estar
dando aulas de Judô, não sou formado em Educação Física e
nem tenho faixa preta de Judô. Esse é um dos absurdos que
acontece na Univap.
Na sua
opinião como deveria funcionar a Universidade?
– É preciso valorizar as pessoas. Acho que numa universidade
o mais importante são os recursos humanos, o que tem de mais
valioso são os cérebros. Uma lista de demissões faz a pessoa
trabalhar insegura, com receio de chegar no fim do ano e ser
demitido por ter falado alguma coisa, por ter feito alguma
crítica ou por não ter aceito uma atribuição de aulas fora
da especialidade. O espírito de universidade, de pluralidade
de opiniões não existe. É um regime totalitário, um clima de
terror constante. Vi e vivi muito disso.
Então
as pessoas trabalham com medo?
- É isso aí, sempre tive dedicação exclusiva à Univap. Nunca
tive outro emprego enquanto estava lá. Fica complicado,
casado, pai de família com dois ou três filhos a pessoa se
sente acuada. Falar alguma coisa e, de repente ser demitido
por causa disso.
A
Univap não é privada e tem até um Conselho Deliberativo,
como vê a universidade funcionar dessa maneira?
– No caso do nível funcional, algumas vezes solicitei por
escrito a minha reclassificação e nunca fui atendido.
Aconteciam coisas estranhas. Nas eleições, por exemplo, ao
invés de marcar com um xis, era preciso escrever o nome do
escolhido o que possibilita a identificação do voto.
Como
num jogo de cartas marcadas?
– O que eu posso dizer é que na Univap as pessoas trabalham
com medo. No meu caso, vim para São José, comprei casa e me
estabeleci com a família. O risco de ser demitido de uma
hora para outra é apavorante. Um professor altamente
qualificado como eu não consegue trabalho de uma hora para
outra, em qualquer lugar. Os concursos nas universidades
públicas são raros e difíceis.
Cheguei a ter dar aulas em nove a dez disciplinas
diferentes, fora da minha especialidade, uma média de 25 a
30 horas em salas de aulas e ainda orientar alunos, manter
um laboratório de pesquisas sujeito a auditorias da Fapesp,
do Tribunal de Contas como responsável pelo projeto. Por
várias vezes tive que pedir adiamentos de relatórios de
prestações de contas à Fapesp, porque não conseguia fazer.
Ficava de manhã, de tarde e de noite na Universidade. Tinha
dia que, uma hora antes da aula, não sabia o que ia dar.
Depois que entrei para a USP, o meu nível de estresse
diminuiu muito.
E não
reclamava?
– Claro que sim, uma vez fiz uma carta ao meu diretor
dizendo que não tinha condições de dar dez disciplinas
diferentes, mais o laboratório de pesquisas e alunos de pós
graduação. A resposta, também por escrito, foi a de que,
infelizmente, a situação era essa, caso de que não
concordasse deveria me expressar por escrito para que a
reitoria tomasse as providências, tudo num tom ameaçador. Eu
sabia que a não concordância normalmente culminaria em
demissão.
Quando
saiu da Univap?
– Em 2004 prestei um concurso de nível bem alto na USP com
concorrentes vindos do Canadá e dos Estados Unidos e fui
aprovado em primeiro lugar. Acho que demonstra mérito e
capacitação, algo que a Univap não reconheceu quando me
manteve em referências abaixo do meu nível funcional. Hoje
sou docente em tempo integral e pesquisador no Instituto de
Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo,
considerada uma das melhores do mundo.
Vários
docentes já ingressaram com ações judiciais contra a Univap?
– Grande parte dos docentes acabam tendo algum tipo de
reclamação porque acontece muita coisa de errado na Univap
do ponto de vista trabalhista. Muitos docentes querem sair
de lá, mesmo para ganhar um pouco menos.
Então
é um clima de terror?
– Isso mesmo, para se ter uma noção, depois que entrei na
Justiça eu praticamente perdi os amigos que tinha na Univap.
As pessoas não respondem os e-mails com medo das
represálias, uma simples conversa pode causar problemas.
Alguns colegas me disseram que, infelizmente, não poderiam
ter colaboração científica comigo. Alguns, inclusive, foram
advertidos para não manter trabalhos comigo em razão dos
processos. Não posso culpá-los, sei exatamente o que
acontece na Univap.
Alguém
que
passou dos 40 anos com alto nível de titulação não consegue
um emprego de uma hora para outra, daí que o medo da
demissão ser enorme.
As
pessoas são dispensadas por telegrama?
- Quando chega o telegrama avisando para passar no
departamento pessoal, você é simplesmente um número. Não são
levados em conta os anos de trabalho. Basta ver o caso do
professor Camargo, que foi do ITA, um profissional altamente
qualificado em matemática que lecionou por mais de 20 anos
contribuindo com a Universidade, e foi até amigo pessoal do
reitor. Ele simplesmente recebeu um telegrama informando que
os serviços dele não eram mais necessários. Não houve
satisfações nem a mínima consideração.
Consideração com o ser humano não existe?
– Na Univap os recursos humanos são desprezados. Se
valoriza muito mais o tijolo e o concreto, os vidros
espelhados, os prédios bonitos. A Univap tem um enorme
orçamento anual, coisa de setenta milhões maior do que muita
cidade brasileira. Com isso, poderia ser um centro de
excelência internacional e não é. Porque os cérebros não são
valorizados. Sinceramente tenho esperança que aconteça uma
reviravolta na Univap, que ela passe a ter uma administração
que merece. Tem muita gente boa nela capaz de fazer isso.
Não podemos mais aceitar que pesquisadores de alto nível
trabalhem com medo, isso contraria o espírito universitário.
E
sobre o caso do professor Élcio Nogueira que foi pro reitor
da Univap?
- Acho que seria uma boa procurar e escutar o professor
Élcio, ele apresentou um dossiê enorme ao Ministério Público
a respeito do funcionamento da Univap. Foi até solicitada a
interferência do senador Eduardo Suplicy. A opinião pública
não tem conhecimento dos momentos absurdos por que passaram
e passam os funcionários da Univap onde muita coisa tem que
ser averiguada.
E
daqui para frente o que pretende?
– Moro em Jacareí e vou continuar na USP. Mantenho
colaborações em diversos países. Dentro da Universidade de
São Paulo, temos um grupo de trabalho muito bom. Tentamos
mostrar os efeitos benéficos das terapias com laser e que
esse tipo de tratamento seja aceito pelo SUS, seria muito
importante e uma grande economia para o Sistema.
Fale com o professor Rodrigo Martins: rmartins@icb.usp.br
A
Univap
A
Universidade do Vale do Paraíba – UNIVAP - é mantida pela
Fundação Valeparaibana de Ensino - FVE, com sede na Praça
Cândido Dias Castejón, nº 116, na cidade de São José dos
Campos-SP, instituição jurídica de direito privado,
comunitária, filantrópica e sem finalidade lucrativa,
instituída por escritura pública de 24 de agosto de 1963,
lavrada no Cartório do 1º Ofício de Notas e Anexos da
Comarca de São José dos Campos-SP, às folhas 93vº/96vº, do
livro 275, inscrita no Ministério da Fazenda sob o CGC nº
60.191.244/0001-20.
www.univap.br
NA
- Continuamos tentando um contado com o
reitor Batista Gargione para que se pronuncie a respeito das
críticas a ele dirigidas.
(*) Acassio Costa é advogado
-
acassio@vejosaojose.com.br |