Nessa, ele tem muito mais a perder, porque a direita
sentimental já é anti-Dilma;
"Todo mundo sabe, até as árvores da floresta amazônica. Elas
são as principais testemunhas de que as Farc se abrigam na
Venezuela." - José Serra, em almoço com empresários do Grupo
de Líderes Empresariais -Lide - a fina flor da plutocracia
multinacional paulista. Serra no ninho da plutotocracia
paulista com um discurso nostálgico, Meu Deus! Onde fui
amarrar meu cavalo.
Sinceramente, esse Serra desses últimos dias me faz
lembrar os torturadores que me submeteram a sevícias por 16
dias seguidos nos porões do Cenimar, na Ilha das Flores. É
um Serra ao avesso do nosso tempo, alguém saído do sarcófago
da intolerância, do atraso e da guerra fratricida que tanto
prejuízo nos causou.
Sua insistência em atacar governantes que desagradam o
império não vai lhe render um único voto a mais. Em
compensação reacende os piores sentimentos obscurantistas
que a aragem já varreu, reduzindo a ditadura paranóica a uma
péssima lembrança, evitada até pelos que delas se serviram
ou graças a ela aumentaram suas fortunas.
Esse discurso soa como filho temporão daqueles idos em
que se matava, prendia e arrebentava pessoas que eram
apontadas como "agentes de Moscou" forjados na guerra santa
que precisava fabricar inimigos externos para justificar sua
barbárie.
Primeiro, Serra cometeu o desatino de culpar o governo
boliviano pelo consumo de drogas no Brasil. Ao querer
atingir Evo Morales, o mais legítimo representante do povo
boliviano, cuja integridade moral é reconhecida no mundo
inteiro, o candidato do PSDB imaginou alcançar o Sr. Luiz
Inácio e sua adversária por tabela.
Existem traficante porque existem compradores -
Demonstrou, ao mesmo tempo, que subestima a inteligência do
cidadão brasileiro. Nessa questão das drogas, ele preferiu
um caminho diferente do seu líder, Fernando Henrique
Cardoso, que abriu os olhos e hoje tem uma compreensão mais
lúcida a respeito.
E vai mais além: desconhece a lógica mais cristalina: há
traficantes porque há consumidores. E muitos desses
compradores de cocaína vivem lá, em Ipanema e nos jardins da
elite paulista, onde as festas mais badaladas não dispensam
a "branquinha".
Tenta tapar o sol com a peneira. Desconhece a própria
crise da família e todos os fatores que incrementam a
proliferação das drogas.
Tenho quatro filhos - os mais novos de 22 e 18 anos - e
nunca eles se deixaram seduzir por amigos cujos pais não
lhes dedicam a atenção devida. Estes, então, nem cigarro
põem na boca.
Todo mundo sabe que esse vício macabro atinge a muitas
famílias. Pais desesperados correm atrás de bodes
expiatórios e clamam por mais intervenção policial para
resolver o que eles não conseguiram resolver. Esse é um
grande drama que o Sr. José Serra, numa precipitada
irresponsabilidade, debita ao presidente Evo Moraes - um
delírio, que só pode ser entendido como uma agressão
gratuita e insana.
Chávez como alvo para agradar ao império - Agora,
resolveu alvejar o presidente Hugo Chávez, a quem apontou
levianamente como uma "ameaça à paz na América Latina". E
ofereceu a cobertura do seu manto aos belicistas da
Colômbia, esta, sim, uma cabeça de ponte dos interesses
norte-americanos, totalmente minada por três grandes bases
instaladas em Malambo, Palanquero e Apiay (esta a 400 km de
nossa fronteira) para assegurar a obediência vil dos países
da América do Sul ao império decadente.
Serra decidiu seguir as pegadas do milionário Sebastián
Piñera, que chegou à presidência do Chile numa aliança de
direita (que agora, por pragmatismo, começa a renegar,
negando-se a conceder indulto aos assassinos da ditadura de
Pinochet, pedido pela Igreja católica de lá).
Ao invés de oferecer um projeto de avanço, uma
alternativa para frente, o candidato oposicionista embarcou
na parola da plutocracia paulista. Com vasta experiência,
José Serra não pode alegar que desconhece a articulação dos
norte-americanos para derrubar Chávez (como já tentaram em
2002) e que a Colômbia é peça chave nesse projeto, no qual o
sistema internacional não quer passar pelos mesmos vexames
sofridos ao longo dos últimos 50 anos, em suas quase 400
tentativas de assassinar Fidel Castro, invadir Cuba e acabar
com a revolução.
Como nos velhos tempos - Essa história sobre o
acolhimento de guerrilheiros das FARC pelo governo
venezuelano não é nem um pouco diferente dos "informes"
sobre a existência de armas químicas no Iraque, pretexto
para a invasão do país árabe, amplamente desmascarado pelos
fatos. Não é diferente também de outras montagens, como o
incêndio do Reichstag, forjado por Hitler, em 1933, para
assumir o poder na Alemanha e iniciar uma brutal perseguição
política.
Contra uma política externa correta - Assessorado
por algum primata, Serra ataca a política externa do sr.
Luiz Inácio, reconheçamos, a forma mais lúcida de fortalecer
o Brasil como nação soberana e assegurar ganhos excepcionais
para o país.
Sob esse aspecto, só sendo um grande mau caráter, um asno
ou um cego, ou as três coisas juntas, para negar o que
significou a presença de Lula em todo o mundo: ele deve ter
feito mais visitas a outros países do que todos os
presidentes que o antecederam.
E isso foi altamente positivo, refletindo-se na afirmação
do prestígio internacional do Brasil.
Serra está vestindo a carapuça da volta ao passado mais
traumático, mais primário, ao reino da intolerância e da
indústria da guerra fria, no que revela mais do que
interesse eleitoral. É lícito imaginar que ele esteja agindo
assim por por insegurança ou, o que é mais lamentável, por
querer ganhar o apoio e a ajuda dos trilionários
internacionais, que se consideram os donos do mundo.
Com esses pronunciamentos ao gosto da pior direita, ele
vai acabar jogan do nas mãos de sua adversária as pessoas de
opinião, as que não querem ver o país alinhado
incondicionalmente ao sistema internacional e curtem uma
política externa com identidade própria.
Nessa, ele vai ficar perdido no espaço da história,
festejado somente pela meia dúzia de nostálgicos da
ditadura. E não arrumará um voto sequer: a direita
sentimental já está contra Dilma pelos seus arroubos
juvenis.
E vai acabar alimentando o discurso amplamente difundido de
que ele seria dos males o pior.