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  30.07.2010 09h.40  
 

O Serra que assumiu as vozes das trevas e da intolerância

Pedro Porfírio (*)

 

Nessa, ele tem muito mais a perder, porque a direita sentimental já é anti-Dilma;

"Todo mundo sabe, até as árvores da floresta amazônica. Elas são as principais testemunhas de que as Farc se abrigam na Venezuela." - José Serra, em almoço com empresários do Grupo de Líderes Empresariais -Lide - a fina flor da plutocracia multinacional paulista. Serra no ninho da plutotocracia paulista com um discurso nostálgico, Meu Deus! Onde fui amarrar meu cavalo.

Sinceramente, esse Serra desses últimos dias me faz lembrar os torturadores que me submeteram a sevícias por 16 dias seguidos nos porões do Cenimar, na Ilha das Flores. É um Serra ao avesso do nosso tempo, alguém saído do sarcófago da intolerância, do atraso e da guerra fratricida que tanto prejuízo nos causou.

Sua insistência em atacar governantes que desagradam o império não vai lhe render um único voto a mais. Em compensação reacende os piores sentimentos obscurantistas que a aragem já varreu, reduzindo a ditadura paranóica a uma péssima lembrança, evitada até pelos que delas se serviram ou graças a ela aumentaram suas fortunas.

Esse discurso soa como filho temporão daqueles idos em que se matava, prendia e arrebentava pessoas que eram apontadas como "agentes de Moscou" forjados na guerra santa que precisava fabricar inimigos externos para justificar sua barbárie.

Primeiro, Serra cometeu o desatino de culpar o governo boliviano pelo consumo de drogas no Brasil. Ao querer atingir Evo Morales, o mais legítimo representante do povo boliviano, cuja integridade moral é reconhecida no mundo inteiro, o candidato do PSDB imaginou alcançar o Sr. Luiz Inácio e sua adversária por tabela.

Existem traficante porque existem compradores - Demonstrou, ao mesmo tempo, que subestima a inteligência do cidadão brasileiro. Nessa questão das drogas, ele preferiu um caminho diferente do seu líder, Fernando Henrique Cardoso, que abriu os olhos e hoje tem uma compreensão mais lúcida a respeito.

E vai mais além: desconhece a lógica mais cristalina: há traficantes porque há consumidores. E muitos desses compradores de cocaína vivem lá, em Ipanema e nos jardins da elite paulista, onde as festas mais badaladas não dispensam a "branquinha".

Tenta tapar o sol com a peneira. Desconhece a própria crise da família e todos os fatores que incrementam a proliferação das drogas.
Tenho quatro filhos - os mais novos de 22 e 18 anos - e nunca eles se deixaram seduzir por amigos cujos pais não lhes dedicam a atenção devida. Estes, então, nem cigarro põem na boca.

Todo mundo sabe que esse vício macabro atinge a muitas famílias. Pais desesperados correm atrás de bodes expiatórios e clamam por mais intervenção policial para resolver o que eles não conseguiram resolver. Esse é um grande drama que o Sr. José Serra, numa precipitada irresponsabilidade, debita ao presidente Evo Moraes - um delírio, que só pode ser entendido como uma agressão gratuita e insana.

Chávez como alvo para agradar ao império - Agora, resolveu alvejar o presidente Hugo Chávez, a quem apontou levianamente como uma "ameaça à paz na América Latina". E ofereceu a cobertura do seu manto aos belicistas da Colômbia, esta, sim, uma cabeça de ponte dos interesses norte-americanos, totalmente minada por três grandes bases instaladas em Malambo, Palanquero e Apiay (esta a 400 km de nossa fronteira) para assegurar a obediência vil dos países da América do Sul ao império decadente.

Serra decidiu seguir as pegadas do milionário Sebastián Piñera, que chegou à presidência do Chile numa aliança de direita (que agora, por pragmatismo, começa a renegar, negando-se a conceder indulto aos assassinos da ditadura de Pinochet, pedido pela Igreja católica de lá).

Ao invés de oferecer um projeto de avanço, uma alternativa para frente, o candidato oposicionista embarcou na parola da plutocracia paulista. Com vasta experiência, José Serra não pode alegar que desconhece a articulação dos norte-americanos para derrubar Chávez (como já tentaram em 2002) e que a Colômbia é peça chave nesse projeto, no qual o sistema internacional não quer passar pelos mesmos vexames sofridos ao longo dos últimos 50 anos, em suas quase 400 tentativas de assassinar Fidel Castro, invadir Cuba e acabar com a revolução.

Como nos velhos tempos - Essa história sobre o acolhimento de guerrilheiros das FARC pelo governo venezuelano não é nem um pouco diferente dos "informes" sobre a existência de armas químicas no Iraque, pretexto para a invasão do país árabe, amplamente desmascarado pelos fatos. Não é diferente também de outras montagens, como o incêndio do Reichstag, forjado por Hitler, em 1933, para assumir o poder na Alemanha e iniciar uma brutal perseguição política.

Contra uma política externa correta - Assessorado por algum primata, Serra ataca a política externa do sr. Luiz Inácio, reconheçamos, a forma mais lúcida de fortalecer o Brasil como nação soberana e assegurar ganhos excepcionais para o país.

Sob esse aspecto, só sendo um grande mau caráter, um asno ou um cego, ou as três coisas juntas, para negar o que significou a presença de Lula em todo o mundo: ele deve ter feito mais visitas a outros países do que todos os presidentes que o antecederam.

E isso foi altamente positivo, refletindo-se na afirmação do prestígio internacional do Brasil.

Serra está vestindo a carapuça da volta ao passado mais traumático, mais primário, ao reino da intolerância e da indústria da guerra fria, no que revela mais do que interesse eleitoral. É lícito imaginar que ele esteja agindo assim por por insegurança ou, o que é mais lamentável, por querer ganhar o apoio e a ajuda dos trilionários internacionais, que se consideram os donos do mundo.

Com esses pronunciamentos ao gosto da pior direita, ele vai acabar jogan do nas mãos de sua adversária as pessoas de opinião, as que não querem ver o país alinhado incondicionalmente ao sistema internacional e curtem uma política externa com identidade própria.

Nessa, ele vai ficar perdido no espaço da história, festejado somente pela meia dúzia de nostálgicos da ditadura. E não arrumará um voto sequer: a direita sentimental já está contra Dilma pelos seus arroubos juvenis.
E vai acabar alimentando o discurso amplamente difundido de que ele seria dos males o pior.

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