Quem
acha que vai atingir Dilma ou qualquer combatente da
ditadura pelo expediente da divulgação de suas fichas no
DOI-CODI vai acabar prestando serviço a eles.Meu
cérebro comprometido com as melhores intenções vive às
turras com o cotidiano. Pode até ser que tenha uma tendência
para a perplexidade.
Mas também estou convencido de que isso é
positivo e só me ocorre pela leitura rigorosa dos fatos.
Digo isso já meio sem forças ante a tragédia visível que a
estupidez forja já na antevéspera de mais uma decisão
sucessória. Pelo andar da carruagem, queiramos ou não,
teremos uma mulher na Presidência da República.
Dilma Rousseff poderá ser eleita já no
primeiro turno.
Para isso, não precisa nem fazer campanha. Antes, pelo
contrário. Basta deixar que os desnorteados próceres da
oposição e os órfãos da ditadura se juntem no mesmo palanque
para esbravejarem carcomidos impropérios, ainda subprodutos
do lixo autoritário, espargidos nos porões assassinos do
DOI-CODI, tentando exprimir ranços amargos à semelhança do
solitário alemão, nostálgico dos tempos do nazismo.
Sinceramente, parceiros, não há nada mais
deprimente do que esse discurso retrógrado e repugnante, que
tenta alcançar a candidata do Sr. Luiz Inácio, por sua
atuação no combate ao regime militar ilegal, usurpador, que
tanto nos infelicitou, ao promover a destruição da liberdade
e a estagnação do pensamento e das idéias.
Ficar dizendo que a jovem Dilma pegou em
armas para enfrentar a ditadura militar todo poderosa,
entreguista, corrupta, obscurantista, soa aos mais sensatos
- que não são poucos - como uma recomendação positiva, um
chamado ao conhecimento do punhado de bravos que trocou a
tranquilidade de suas vidas resolvidas, futuros promissores,
pelo risco do confronto desigual com forças armadas
envenenadas e perfiladas na histeria macabra ao gosto do
grande império norte-americano.
Tantos quanto os heróis da resistência ao
nazifascismo, como os guerreiros de Nelson Mandela, os que
se expuseram no combate aos sinistros aparatos da ditadura
militar brasileira são vistos e serão sempre lembrados como
aqueles que tiveram coragem e convicção para trocarem suas
juventudes pelo restabelecimento do regime de direito e até
pela eventualidade da construção de uma sociedade mais
justa, demonizada naqueles idos tenebrosos, idos de que se
envergonham até alguns dos seus protagonistas, como a mesma
mídia cúmplice de então, que agora cospe no prato que comeu.
Pela lógica desses epítetos, foram
terroristas e como tal devem ser amaldiçoados os maquis da
França, os partisans da Itália e todos os grupos de
resistência que recorreram às armas e à sabotagem para
enfraquecer os arrogantes soldados do III Reich e executaram
o ditador Benito Mussolini, contribuindo decisivamente para
a vitória dos aliados, encabeçados pela Inglaterra, União
Soviética e Estados Unidos.
É uma pavorosa indignidade apelar para a
"ficha policial" de alguém que pagou caro por não aceitar a
ditadura que rasgou a Constituição de 1946, derrubou o
presidente constitucional, matou opositores em seus porões
de torturas e sevícias, esmagou as liberdades, cassou e
baniu da vida pública meio mundo, inclusive alguns dos seus
aliados, como Carlos Lacerda e Ademar de Barros.
Indignidade cega e burra, diga-se. Porque
pensa que consegue com isso criar embaraços para uma
candidata que enfrenta as urnas pela primeira vez, logo na
disputa do maior cargo republicano.
Eu, pessoalmente, estou enojado com esses
e-mails canalhas que pretendem atingir a candidata
situacionista com a divulgação da sua ficha juvenil. Quem
faz isso ainda não acordou do pesadelo de 20 anos em que a
"verdade" era monopólio dos esbirros da ditadura, que caiu
de podre, quando já não merecia o apoio nem dos seus
subalternos.
É gente intolerante, nostálgica dos tempos em que o povo
vivia sob o terror de um regime que prendia e arrebentava,
que reprimia, calava, massacrava e se dedicava com esmero à
pior das corrupções, a imposta e conservada pelo medo e pelo
silêncio.
Só espero que ainda haja o mínimo de lucidez
e maturidade nas oposições, até porque em suas fileiras há
muitos que também resistiram aos verdugos, a começar pelo
governador José Serra, ex-presidente da UNE, que viveu
longos anos no exílio. Se querem ser competitivos, livrem-se
desses imbecis nocivos e dispensáveis. Fujam de qualquer
identificação com essa tentativa torpe de natureza
inquisitorial.
Essa campanha presidencial é tema sério e
tem eixos mais decisivos e mais razoáveis: é neles que devem
se debruçar os contendores.
Porque, insisto, é muito mais limpa a ficha de quem se
insurgiu contra a ditadura, não importa como - e é aos
insurgentes que devemos em grande parte o direito de falar e
escrever hoje sem medo de ir em cana - do que a folha
corrida dos alcaguetes, financiadores e colaboradores do
aparato criminoso montado nos porões da repressão
ensandecida.
Era só isso que queria dizer hoje.
Para que não prosperem sem a repulsa da sociedade pensante e
atuante essas peças urdidas pelos fariseus de fancaria, que
ainda não desistiram de serem os cavaleiros das trevas.
E sofrem coléricos com o fim do arbítrio tétrico dos tanques
e das baionetas.
Serra também era "perigoso subversivo"
José
Serra também era fichado na ditadura como subversivo. E
agora?