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  21.03.2008 00h.10  
  Ovelhas, mas nem tanto...                                               O reitor da Universidade do Vale do Paraíba – Univap - costuma falar para quem quiser ouvir: “Conheço o meu rebanho. Eu sou o dono, quem manda aqui sou eu”

Acassio Costa (*)

 

Ainda que a Instituição fosse dele, seria, apenas, uma demonstração de pequenez.

Paulo de Almeida alerta: “Temos de lutar contra os bárbaros, que pretendem destruir as nossas instituições democráticas pela via dos velhos arremedos de "poder popular" e de "democracia direta", que constituem um insulto à teoria e à prática da representação política; contra os que desejam limitar a liberdade de imprensa a pretexto de "responsabilidade social"; contra os que querem fazer a escola retroceder a tempos obscurantistas de explicações ingênuas e anti-científicas; contra os que aspiram a dividir o povo em categorias raciais estanques, sob escusa de redimir antigas injustiças; contra os que defendem privilégios inaceitáveis, como os do foro privilegiado para políticos de província e pensões milionárias para os que exerceram cargos públicos por escasso tempo. Temos que nos defender  dos agentes corruptores, muitos deles eleitos por nós mesmos para altos cargos nas instituições públicas e de representação política.”  Paulo Roberto de Almeida - www.pralmeida.org


Vicente Cioffi - Foto: Ricardo FariaNo último dia 19, falamos com o engenheiro Vicente Cioffi, 46, natural de Queluz, no Vale do Paraíba. Ex aluno da Univap, relatou alguns fatos da sua época de estudante na Faculdade de Engenharia e Arquitetura de São José dos Campos.

Como veio parar em São José? – A minha família morava em São Paulo e resolveu vir para cá em 1976. Meu pai era almoxarife numa construtora e minha mãe dona de casa. Continuamos na mesma casa, no bairro do São Dimas. Cheguei com 9 anos, estudei no Siqueira Afonso, no João Cursino e no Vieira Macedo. Fiz um curso técnico eletrônico na Etep e trabalhei na General Motors. Resolvi fazer engenharia, prestei vestibular, em 1987 e passei. As antigas Faculdades Integradas do Vale do Paraíba, mantidas pela Fundação Valeparaibana de Ensino funcionavam no prédio na rua Paraibuna com a Faculdade de Ciências Humanas e a Faculdade de Ciências Exatas e Tecnologia com a Faculdade de Engenharia Elétrica, Civil e Arquitetura.

Como era a faculdade naquele tempo? – Quando ingressei, vinha com uma militância política em São José, desde 1982. Passei a participar do Diretório Acadêmico preocupado com a situação da Faculdade onde o movimento estudantil era pequeno e disperso. O diretor era o Francisco Moral, dois anos depois assumiu o Luiz Antonio Pedrosa.

E o movimento estudantil? – Iniciamos uma participação através do Diretório Acadêmico das Ciências Exatas e Tecnologia, antigo D.A. de Engenharia e Arquitetura, um diretório atuante, tivemos um contato com o pessoal da área de humanas e acabamos organizando algo inédito, foi o melhor período do movimento estudantil, de 1987 a 1992. Conseguimos unir as faculdades com a criação do Diretório Central dos Estudantes o D.C.E. Henfil, mesmo tendo contra nós a direção autoritária do Baptista Gargione.

Como assim? – Na realidade, ele nos perseguiu muito, os que se mobilizavam eram acusados de comunistas e esquerdistas. Quando surgiu a CUT e o PT ele dizia que o pessoal era da Central ou do Partido dos Trabalhadores, eu nem era de nenhum deles e fui um dos acusados pelo Gargione. Foi uma forma dele tentar desmobilizar o movimento, jogar a direção contra os alunos, alguns diretórios recuaram como foi o caso da Faculdade de Direito. Mas tínhamos representantes dispostos a lutar pela qualidade do ensino e apontar os erros.

Qual era a qualidade do ensino? – Muito deficiente, principalmente na Engenharia, havia problemas com os laboratórios e condições precárias do prédio. Foram os próprios alunos que se reuniram e construíram o prédio novo com fundos angariados na cidade e junto ao Ministério da Educação que mandou vários laboratórios.

O Holanda, hoje professor de História, foi um dos estudantes batalhadores, o Moraes e o Adilson. A luta era por um ensino melhor e contra os aumentos das mensalidades feitos sempre pelo Gargione. Conseguimos algumas vitórias através de passeatas que chegaram a reunir 4 a 5 mil pessoas. Ainda assim a direção não recuava.

E daí? – Como o MEC não se posicionava quanto aos aumentos, começamos ir à Justiça através do Dr. Jaime Bustamante que se dispôs a nos apoiar. Em 1988, ingressamos com mais de duas mil ações contra o Baptista Gargione pelos aumentos irregulares das mensalidades – tivemos algumas vitórias, começamos a depositar em juízo, e isso obrigou a direção a recuar. Vários juizes e promotores davam aulas na Universidade e isso gerava suspeição.

Como foi a luta pela estadualização da Universidade? – Em primeiro, porque todos os recursos da Univap, incluindo prédios e o próprio terreno da Urbanova, vieram do poder público. Foram a prefeitura e o Governo Federal que fizeram as doações e nós entendemos que a Instituição deveria ser pública. Mas, se estadualizou só em Lorena e Bauru, a Univap ficou de fora, pela falta de unidade política na cidade.

Qual o problema de uma universidade pública? – Ela sempre trás formação de lideranças, muita tecnologia e desenvolvimento e isso não é interessante para as pessoas com mentalidade pequena que querem se manter nos cargos a qualquer custo.

De onde vinha a força do Gargione? – Ele tinha o poder político gerado pela distribuição de bolsas de estudo através de vereadores e outras pessoas. Ele chegou a ser secretário municipal. O prefeito da época, Joaquim Bevilacqua, exigiu que o Gargione fosse o interventor na Univap e tudo começou. Ele se manteve na direção à custa de muito autoritarismo e do sacrifício das pessoas, algo que perdura até hoje. Ele transformou tudo em números e faturamento: quanto mais gente e mais faturamento melhor, a qualidade do ensino que se dane.

A Univap nunca foi considerada uma boa universidade? – Exatamente, na época do governo Collor as universidades passaram a fazer tudo da maneira que queriam, os reajustes nas mensalidades foram absurdos, na casa dos 90 por cento. O Gargione não estava nem aí, não ouvia os alunos e nem aceitava negociar, mesmo com um greve que durou mais de 30 dias.

Chegaram a falar diretamente com ele? – Por muitas vezes, ele gritava, dava murros na mesa, falava em tom ameaçador, mas nunca nos intimidamos. Foram oito anos de lutas e sempre enfrentamos a direção. Vários colegas  foram sondados, alguns chegaram a ganhar bolsas de estudo, outros se afastaram. Chegaram a inventar que os alunos usavam drogas para denegrir e tentar desmobilizar o movimento estudantil. Ainda assim, conseguimos vencer na Justiça.

Como foi a invasão do D.C.E.? – Ela ocorreu em 1989, estávamos numa reunião na Associação Comercial com o presidente do D.A. da Engenharia, Gabriel Silva, justamente para discutir a estadualização da Univap. Depois desse evento, saímos nas férias de julho e a direção se aproveitou para mandar invadir o prédio do D.C.E. Entramos com uma ação judicial.

Eles demoliam o prédio e os alunos o reconstruíam à noite, eram mais de mil estudantes em ação. Eles, da direção, começaram a demolir o prédio com todo o material do D.A.dentro, livros de atas, documentos, móveis, biblioteca num total desrespeito. Nós reagimos, queimamos bonecos do Gargione, fizemos fotos, peitamos a direção durante um ano. O MEC foi obrigado a mandar representantes para as avaliações. As pressões e ameaças eram constantes, algumas pessoais feitas pelo diretor da faculdade de direito, o Pimentel. E a coisa rolou.

E o que aconteceu? – Foi algo absurdo. Em 1992, José Goldemberg se afastou do Ministério da Educação para coordenar a Eco 92. No lugar dele assumiu o Teixeira Junior que era secretário adjunto do Conselho Federal e foi dele a iniciativa de aprovar a Universidade do Vale do Paraíba. O mais engraçado é que ele se aposentou em seguida vindo a assumir uma reitoria na Univap, virou vice-reitor e vice presidente da FVE. É algo que precisa ser observado e analisado.

Como eram as perseguições? – No meu caso e de dois colegas, levamos seis anos para fazer o curso. As perseguições foram muitas. Para se ter uma idéia, o meu Trabalho de Graduação (TG) foi apresentado através de um Mandato de Segurança. O Gargione afirmou que jamais permitiria que eu apresentasse o meu TG. Eu e o Gabriel fomos ameaçados de sermos jubilados. Fomos obrigados a fazer um novo vestibular e passamos.

Perseguidos, vários colegas dos cursos técnicos foram obrigados a deixar os estudos em face da participação nos movimentos estudantis. Colegas, lamentavelmente, trocaram a militância por bolsas de estudo. Eu entrei com uma ação e a Faculdade foi obrigada a aceitar a minha apresentação de TG.

Chegaram a fazer as provas através de decisões judiciais? – Os alunos estavam depositando as mensalidades em juízo, havia uma decisão judicial que garantia a participação nas provas que a Faculdade insistia em não cumprir. Nós exigimos e chegamos a ter um problema sério com o professor Luiz Antonio Pedrosa a quem chegamos a dar voz de prisão. Falamos que ele deveria cumprir a Lei e ele se negou afirmando:”Isso pra mim não existe, vocês não irão fazer prova.”

Nós insistimos e ele continuou se negando, foi quando eu disse: “Então o senhor está preso, nós, enquanto cidadãos, estamos lhe dando voz de prisão e o senhor não irá sair daqui enquanto a polícia não chegar. Ficamos até as 22 horas, os advogados vieram, a polícia também e houve um acordo para a liberação do diretor desde que a Lei fosse obedecida. Na semana seguinte, os estudantes fizeram as provas. Deu capa de jornal, o diretor recebendo voz de prisão. Na formatura, ele não quis me cumprimentar e foi vaiado pelos presentes.

E quanto aos professores? – Perdemos muitos que se organizaram através de sindicatos e associações para discutir a qualidade do ensino. O Gargione demitiu todos. A professora Ana Maria foi muito perseguida.

Mesmo assim conseguiu se formar? – Eu me formei em 1993, colei grau em 1994, hoje trabalho na Fundação Cultural Cassiano Ricardo.

O que acha do Baptista Gargione? – Ele não mudou, sempre foi autoritário, grosseiro no trato com  as pessoas. Nunca respeitou a representação estudantil, sempre tentou atropelar e coptar. Não só ele, todos que gravitam em torno dele fazem o mesmo e devem ser responsabilizados judicialmente.

O que acha desse movimento que deseja o afastamento do Baptista Gargione da Univap? – Espero, sinceramente que aconteça. O movimento é muito maior, preocupado com o futuro da Universidade, com a qualidade do ensino e transparência nos atos da  Universidade. É impossível admitir que uma pessoa consiga ficar esse tempo todo, desde 1977, como presidente da mantenedora e reitor ao mesmo tempo. Isso não existe em nenhum lugar do mundo, só nos reinados e não é o nosso caso. A Univap é uma Universidade comunitária com  um Conselho onde a cidade tem participação. Por muitos anos recebeu verbas públicas e continua recebendo. É necessário que a sociedade exija a mudança.

Veja algumas matérias envolvendo a atual gestão da Univap: -Marcos Tadeu denuncia Univap - Contrato SPTrans/Univap - Mais denúncias contra a Univap - Frota fantasma da FVE/Univap - Univap terceirizou serviços - Estadão denuncia FVE - Kassab descarta Univap - Ônibus com Guiagem Magnética - A Câmara Municipal e o reitor - Gargione no olho da rua Igreja da Univap - Cristóvão convoca Gargione Conselheiros denunciam FVE - Oitiva no Ministério Público - Serra, Kassab e Gargione - Univap na Justiça - Ônibus Magnético e o MP - Câmara quer intimar reitor da Univap - Câmara quer investigar Univap - Polícia na Univap -OAB defende reitor da Univap - Entrevista Professor Francisco Nobrega - Editorial critica Univap - Explosão na Univap - Revolta na Univap - Nóbrega x Gargione -Nas entranhas da Univap - Mais um reitor na mira do MP - Pinheiro X Gargione - Mutirão contra"filantrópicas"- Mobilidade acadêmica - Professora reclama da Univap - Mobilidade acadêmica - Ônibus Magnético -Diploma ou medalha - Dossiê contra Gargione - Queixem-se ao bispo -Reunião na Apeoesp -Amigos da Educação - Eleição na Univap -Eleições contestadas - Pedido afastamento de Gargione - Engenharia Aeroespacial - Situações vexatórias - UNIVAP suspende pesquisas - Túnel Hipersônico - Boicote na Univap - Humilhação na Univap - Aviões não tripulados - Americano denuncia Gargione - Canizza acusa Gargione - Fisioterapeuta quer diploma - Gargione de novo - Darwin Bassi denuncia Garione - Univap para inglês ver - Pro reitor aciona Univap - Doutora é demitida da UNIVAP - Mec Avalia Univap - Perseguição na UNIVAP

(*) Acassio Costa é advogado - acassio@vejosaojose.com.br


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