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Responda rápido: o que Baptista Gargione
Filho e Roque Júnior têm em comum?
De supetão, nada. Eles são separados pela
idade, pela cor, pela formação e pelo ramo de atividade: o
professor Baptista era reitor da Univap, a Universidade do
Vale do Paraíba, que tem frequentado a ribalta pública mais
por suas mazelas que por sua qualidade acadêmica; o
ex-zagueiro Roque Júnior, campeão do mundo pelo
Brasilem2002, é empresário do futebol, dono do Primeira
Camisa, time que deveria defender o futebol de São José nos
Jogos Abertos de Mogi das Cruzes.
Olhando perto surge um ponto em comum: em
maior ou menor grau, ambos frequentaram o noticiário dos
últimos dias cumprindo à risca o papel de espertalhões. De
longe, Gargione é campeão na categoria.
Crepúsculo?
Levado às cordas pelo Ministério Público, que
reduziu seu poder sobre a FVE-Univap, Gargione não
sossegou. Imortal como um vampiro dos velhos filmes de Bela
Lugosi e bem longe dos galãs da saga Crepúsculo, voltou a
atacar: nomeou sua filha Ana Lúcia como pró-reitora da
Integração e tentou contratar um advogado por R$ 120 mil,
que seria pago pela Univap, para contestar o novo estatuto
da FVE -- a peça construída pelo MP e pela sociedade para
resgatar a instituição dos desvios aos quais foi conduzida
pelo próprio Gargione.
Como pará-lo? Dispensando o colar de alho, a
água benta e os crucifixos, a FVE decidiu, enfim, afastá-lo
do cargo. Agora falta colocar sua gestão sob severa
investigação.
É bem mais eficaz que uma estaca no coração.
Dividida.
O caso de Roque é menos radical, mas é
preocupante.
Revelado pelo São José, o ex-zagueiro recebeu
dinheiro da Secretaria de Esportes para levar seu
Primeira Camisa aos Jogos Abertos. Recebeu, mas não foi.
O futebol de campo de São José perdeu por vexatório W.O. e a
cidade perdeu a chance de conquistar os Jogos após 42 anos.
Além do acordo não cumprido e do vexame, o
ponto central é: Roque devolveu os R$35 mil de verbas
públicas recebidos previamente?
Para ele, isso está fora de questão. Fácil
assim?
Vila
Rica.
Gargione e Roque se agarram a uma lei
imaginária para serem espertos: a Lei de Gérson,
imortalizada em comercial de TV pelo genial canhotinha da
seleção de 70, esse sim um craque. É a lei de quem gosta de
levar vantagem em tudo.
Agindo assim, no entanto, Gargione e Roque
atropelaram leis reais --um por abuso de poder, outro por
apropriação indébita de verba pública. Todo crime tem
castigo?
Esse dilema rendeu a Fiódor Dostoiévski um
romance crucial.
Mas a chave para entender esses espertalhões
está em outra obra dele, “Os Irmãos Karamazov’.
Depois do assassinato do pai, um dos irmãos,
Aliocha, diz: “Se Deus não existe, então não há crime nem
pecado.”
Tirando a fé e colocando a razão no lugar,
sem consciência social, tudo é permitido.
Gargione e Roque deram banana à sociedade. O
remédio é um só: a lei. Não a de Gérson, mas a real, feita
para defender a sociedade dos espertalhões.
Hélcio Costa
é editor-chefe de
OVALE
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