Cada vez mais estarrecido vejo a que ponto está chegando a Policia Civil, cada vez mais vilipendiada como Instituição, os seus integrantes cada vez mais encurralados.
O policial civil não pode sequer manifestar livremente a sua opinião e isso contraria a Constituição Federal. Com tristeza não enxergo uma solução a curto prazo por medo de alguns que reconheço justificado e, por outros, por estarem satisfeitos com as posições que ocupam.
Pois, não querem de maneira alguma perder as cadeiras em que estão aboletados, não se preocupando com a grande massa dos policiais civis, principalmente os operacionais.
Infelizmente para eles, o mundo gira em torno de seu próprio umbigo.
O caso mais claro é o do Delegado Conde Guerra que continuarei a chamar de Delegado pois entendo que sua demissão foi no mínimo uma criminosa vergonha.
Hoje os elegados de Policia temem a Policia Militar por ser ela a preferida do Secretário, parecendo que nada a atinge coberta pelo manto da impunidade, podendo cometer as maiores atrocidades.
Relembrarei aqui dois casos, um que assisti e outro em que fui partícipe: Há muitos anos atrás quando ainda existia o DEGRAN, instalado no Parque Dom Pedro, a Policia Militar conduziu à presença do Delegado de Plantão quatro indivíduos presos em flagrante por roubo, a autoridade imediatamente iniciou o flagrante.
Depois de algum tempo começou um burburinho entre os policiais militares, o oficial PM foi chamado, conversou com seus subordinados e se retirou imediatamente.
Após uns 40 minutos ouviu-se um tropel no Distrito e eis que adentra a sala do delegado, o próprio Comandante Geral da Policia Militar, o Coronel João Batista Torres de Melo, que em altos brados passa a ameaçar os policiais civis de prendê-los em flagrante.
Indagado pelo temeroso delegado sobre o que estava acontecendo, respondeu: "Como é que se prende 4 bandidos e o senhor só faz um flagrante?"
Senhores, foi um custo fazê-lo entender que embora fossem quatro os indiciados, o crime era único, não podendo autuar-se cada um separadamente.
Depois de muito custo, mas ainda inconformado ele disse: "é por isso que essa coisa não anda, a PM prende e a Civil não faz nada, é um absurdo!".
Virou as costas e saiu como tinha entrado, sem cumprimentar ninguém, somente confabulando com o oficial da Policia Militar.
No segundo caso, sou eu próprio o ator, no dia 17 de abril de 1980, estava em minha casa em Mogi das Cruzes quando ela foi invadida por policiais militares, fui colocado numa viatura da ROTA sob o comando do então Tenente Conte Lopes e conduzido para o DOPS em São Paulo.
Lá chegando fui apresentado à autoridade Doutor Gustavo Pantaleão, estando também na sala o Delegado Zildo José Heleodoro.
O Tenente disse ao Doutor Pantaleão: "trouxe-lhe um flagrante!" Imediatamente respondeu-lhe o Doutor Pantaleão, - "Tenente, aqui quem decide se é flagrante ou não sou eu o Delegado de Policia e, já me convenci de que não é caso para flagrante. Nenhum crime foi cometido contra a ordem política e o senhor pode se retirar".
Começaram então a sair, ficando na sala o Doutor Pantaleão, Doutor Zildo e eu, e eis que volta um policial militar inexperiente que indaga ao Doutor Pantaleão: - "Doutor, o que faço com o auto de resistência a prisão?".
Assoberbado o Doutor Pantaleão disse-lhe "Jogue fora esta porcaria".
Percebendo alguma coisa de errado, o Doutor Zildo imediatamente interveio e disse:"me dê aqui, talvez com isso, a gente possa fazer o flagrante que seu tenente quer".
Para estarrecimento de ambos constava no auto que "o suspeito João Carlos Alkimin Barbosa, encontrado na rua Iracema Brasil de Siqueira, 642, na Vila Oliveira, na cidade de Mogi das Cruzes, foi abordado pelos componentes da guarnição passando a atirar contra a viatura quando foi baleado e ao ser socorrido morreu".
Talvez os senhores indaguem porque não me mataram no local e eu conto; - ao ser tirado de casa e colocado na viatura já encapuzado, por obra Divina passou pelo local o então Juiz da 1ª Vara Criminal de Mogi das Cruzes, Doutor Walter Cruz Swesson, que ao ter me reconhecido disse aos policiais militares que era Juiz de Direito, “estou vendo que o detido se encontra integro, sem nenhuma marca e espero que continue assim".
Talvez tenha sido esse o motivo pelo
qual não ter sido executado.
Para aqueles que não se lembram foi
no mesmo dia em que o ex Presidente
da Republica Luis Inácio Lula da
Silva foi preso no ABC e ficamos em
celas contiguas, durante 17 dias.
Isso demonstra que se não fosse a
coincidência de um magistrado ter
passado na hora e os delegados de
policia fazerem valer suas
autoridades talvez eu não estivesse
aqui hoje.
Quero deixar claro que nada tenho
contra a Policia Militar, minha
mulher foi advogada do Centro Social
dos Cabos e Soldados durante 14 anos
e tenho grandes e bons amigos na
Instituição.
Somente não aceito o comportamento do Secretário Ferreira Pinto que tenta destruir a Policia Civil, não sei por quais motivos escolhe alguns policiais civis para descarregar sua ira.
Vejam o caso do Conde Guerra e outros que pagam um preço muito alto por sua independência profissional e pessoal.
Portanto, espero que o Poder Judiciário dê uma resposta à altura, reintegrando aqueles que, como o Conde Guerra, foram criminosamente demitidos.
E quero deixar claro também que cada vez que vou ao Tribunal de Justiça comento a ignomínia sofrida pelo Conde Guerra na esperança que alguns me escutem.
João Alkimin é radialista – showtime.radio@hotmail.com - RÁDIO
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