Redes de ONGs fazem
balanço e preparam ofensiva para Rio+20
por Vicente Cioffi
Lideranças do movimento
socioambientalista brasileiro se reúnem
em Porto Alegre para iniciar um balanço
dessas duas décadas de atuação das
principais redes de ONGs no país. Houve
consensos, como a análise de que o
trabalho é prejudicado pela falta de
recursos financeiros. Outro problema é a
desarticulação política, provocada por
questões como a não renovação da
militância ambientalista ou a
banalização do discurso verde.
por
Maurício Thuswohl
Porto
Alegre
– Há 20 anos, um encontro no Rio de
Janeiro colocou frente a frente - em
alguns casos, pela primeira vez -
militantes de organizações
ambientalistas de todos os cantos do
Brasil. Atendendo ao chamado para
participar e tentar influenciar a Cúpula
da Terra, evento da ONU que entrou para
a história como Rio-92, essas
organizações compartilharam experiências
e conhecimentos e iniciaram alianças que
contribuíram para os vários anos de
efervescência que se seguiram, na
política ambiental brasileira. Na
Rio-92, foram criadas ou consolidadas
importantes redes de atuação por bioma,
como a Rede de ONGs da Mata Atlântica (RMA),
o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA) e a
Rede de ONGs do Cerrado, entre outras,
além do Fórum Brasileiro de ONGs e
Movimentos Sociais pelo Meio Ambiente (FBOMS).
No Fórum Social Temático 2012, que
acontece em Porto Alegre, diversas
lideranças do movimento
socioambientalista brasileiro se
reuniram na quarta-feira (25) para
iniciar um balanço dessas duas décadas
de atuação das principais redes de ONGs
no país. Alguns pontos de vista foram
consensuais, como a análise de que a
falta de recursos financeiros prejudica
a atuação das redes e das organizações -
a maioria delas, pequenas - que as
compõem. Outro problema é a
desarticulação política, provocada em
parte por questões como a não renovação
da militância ambientalista ou a
banalização (no mau sentido) do discurso
verde entre a juventude e a sociedade em
geral.
Outro consenso foi a percepção de que a
Conferência da ONU sobre Desenvolvimento
Sustentável (Rio+20), que acontecerá em
junho no Rio de Janeiro, será um momento
de retomada do vigor das lutas
ambientais no Brasil. Por isso, foi
decidido que as principais redes - que
voltarão a se reunir no FST, desta vez
em painel público, na quinta-feira (27)
- organizarão seminários regionais de
base em todo o Brasil, até o início de
abril. O objetivo é chegar a um acúmulo
político e organizacional suficiente
para uma intervenção forte e unificada
das redes durante a Cúpula dos Povos e a
Rio+20.
“A ideia é que, a partir das
experiências que essas redes
consolidaram nos últimos dez, quinze ou
vinte anos na busca da convivência dos
seres humanos com seus territórios, a
gente consiga articular um conjunto de
demandas e posições tanto na Cúpula dos
Povos quanto no evento oficial”, afirma
Rubens Born, integrante da coordenação
do FBOMS e da direção da ONG Vitae
Civilis.
Integrante da coordenação da RMA e do
Grupo Ambientalista da Bahia (Gambá),
Renato Cunha diz que os principais
desafios para as organizações que
militam pela Mata Atlântica são a
melhoria da gestão e a criação de novas
Unidades de Conservação: “Há algum
tempo, a criação de uma série de novas
UCs em diversos Estados do bioma está
sendo proposta ao Ministério do Meio
Ambiente, mas a resposta do ministério,
assim como dos governos estaduais, está
sendo fraquíssima”.
“Saldo negativo”
- Cunha ressalta que o governo de Dilma
Rousseff, passado um ano, “está com
saldo negativo” no que concerne às
Unidades de Conservação: “O atual
governo não criou sequer uma UC, mas
`descriou’ uma”, diz. O ambientalista
também critica a qualidade da
fiscalização na Mata Atlântica: “A coisa
ficou complicada com essa lei, aprovada
no Senado, sobre a regulamentação do
artigo 23 da Constituição. O Ibama perde
o seu potencial de fiscalização”,
lamenta.
Dirigente da Rede Cerrado, Renato Araújo
afirma que, além de ser hoje o bioma
brasileiro que mais sofre pressão, o
Cerrado enfrenta como principal problema
a viabilização do acesso das populações
locais ao território: “Isso acontece
tanto no que diz respeito à reforma
agrária, pois o território é muito
grande e existem muitos agricultores sem
terra, quanto no que diz respeito às
terras indígenas que vivem sob constante
pressão”, diz. Um desafio apontado por
Araújo é adotar no Cerrado a estratégia
de “conservação pelo uso”, com o
objetivo de dar viabilidade econômica
aos produtos oriundos da enorme
biodiversidade do bioma e que ainda não
têm mercado consolidado.
Integração
- Criada há doze anos, a rede de ONGs
Articulação no Semi-Árido Brasileiro
(ASA) tem uma base composta por cerca de
três mil organizações nos estados da
Região Nordeste e em Minas Gerais.
Coordenadora da rede, Marilene Souza,
mais conhecida como Leninha, lembrou as
bem sucedidas experiências de
aproveitamento de água da chuva feitas
na região para defender que ações
concretas como esta sejam compartilhadas
pelas redes até a Rio+20: “Temos que
pensar o desenvolvimento a partir das
populações locais”, diz.
Rubens Born fala sobre as expectativas
do movimento: “Enquanto redes temáticas,
nós conseguimos vitórias expressivas,
mas nossa reunião aqui em Porto Alegre
pretende mostrar que somente essas redes
não vão fazer a diferença no futuro, se
nós não conseguirmos superar nossa
fragmentação. Cada peça é importante,
mas precisamos ver como elas se integram
melhor para o bem-estar da
sustentabilidade nacional”, disse. CARTA
MAIOR
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19452
Vicente de Moraes Cioffi – Engenheiro
especializado em meio ambiente. Membro da
coordenação do Fórum Permanente em Defesa da
Vida e Núcleo Regional do Plano Diretor
Participativo -
vicentecioffi@gmail.com
4EM
DEFESA DA VIDA
Lideranças do movimento socioambientalista brasileiro se reúnem em Porto Alegre para iniciar um balanço dessas duas décadas de atuação das principais redes de ONGs no país. Houve consensos, como a análise de que o trabalho é prejudicado pela falta de recursos financeiros. Outro problema é a desarticulação política, provocada por questões como a não renovação da militância ambientalista ou a banalização do discurso verde.
por Maurício Thuswohl
Porto Alegre – Há 20 anos, um encontro no Rio de Janeiro colocou frente a frente - em alguns casos, pela primeira vez - militantes de organizações ambientalistas de todos os cantos do Brasil. Atendendo ao chamado para participar e tentar influenciar a Cúpula da Terra, evento da ONU que entrou para a história como Rio-92, essas organizações compartilharam experiências e conhecimentos e iniciaram alianças que contribuíram para os vários anos de efervescência que se seguiram, na política ambiental brasileira. Na Rio-92, foram criadas ou consolidadas importantes redes de atuação por bioma, como a Rede de ONGs da Mata Atlântica (RMA), o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA) e a Rede de ONGs do Cerrado, entre outras, além do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais pelo Meio Ambiente (FBOMS).
No Fórum Social Temático 2012, que acontece em Porto Alegre, diversas lideranças do movimento socioambientalista brasileiro se reuniram na quarta-feira (25) para iniciar um balanço dessas duas décadas de atuação das principais redes de ONGs no país. Alguns pontos de vista foram consensuais, como a análise de que a falta de recursos financeiros prejudica a atuação das redes e das organizações - a maioria delas, pequenas - que as compõem. Outro problema é a desarticulação política, provocada em parte por questões como a não renovação da militância ambientalista ou a banalização (no mau sentido) do discurso verde entre a juventude e a sociedade em geral.
Outro consenso foi a percepção de que a Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que acontecerá em junho no Rio de Janeiro, será um momento de retomada do vigor das lutas ambientais no Brasil. Por isso, foi decidido que as principais redes - que voltarão a se reunir no FST, desta vez em painel público, na quinta-feira (27) - organizarão seminários regionais de base em todo o Brasil, até o início de abril. O objetivo é chegar a um acúmulo político e organizacional suficiente para uma intervenção forte e unificada das redes durante a Cúpula dos Povos e a Rio+20.
“A ideia é que, a partir das experiências que essas redes consolidaram nos últimos dez, quinze ou vinte anos na busca da convivência dos seres humanos com seus territórios, a gente consiga articular um conjunto de demandas e posições tanto na Cúpula dos Povos quanto no evento oficial”, afirma Rubens Born, integrante da coordenação do FBOMS e da direção da ONG Vitae Civilis.
Integrante da coordenação da RMA e do Grupo Ambientalista da Bahia (Gambá), Renato Cunha diz que os principais desafios para as organizações que militam pela Mata Atlântica são a melhoria da gestão e a criação de novas Unidades de Conservação: “Há algum tempo, a criação de uma série de novas UCs em diversos Estados do bioma está sendo proposta ao Ministério do Meio Ambiente, mas a resposta do ministério, assim como dos governos estaduais, está sendo fraquíssima”.
“Saldo negativo” - Cunha ressalta que o governo de Dilma Rousseff, passado um ano, “está com saldo negativo” no que concerne às Unidades de Conservação: “O atual governo não criou sequer uma UC, mas `descriou’ uma”, diz. O ambientalista também critica a qualidade da fiscalização na Mata Atlântica: “A coisa ficou complicada com essa lei, aprovada no Senado, sobre a regulamentação do artigo 23 da Constituição. O Ibama perde o seu potencial de fiscalização”, lamenta.
Dirigente da Rede Cerrado, Renato Araújo afirma que, além de ser hoje o bioma brasileiro que mais sofre pressão, o Cerrado enfrenta como principal problema a viabilização do acesso das populações locais ao território: “Isso acontece tanto no que diz respeito à reforma agrária, pois o território é muito grande e existem muitos agricultores sem terra, quanto no que diz respeito às terras indígenas que vivem sob constante pressão”, diz. Um desafio apontado por Araújo é adotar no Cerrado a estratégia de “conservação pelo uso”, com o objetivo de dar viabilidade econômica aos produtos oriundos da enorme biodiversidade do bioma e que ainda não têm mercado consolidado.
Integração - Criada há doze anos, a rede de ONGs Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA) tem uma base composta por cerca de três mil organizações nos estados da Região Nordeste e em Minas Gerais. Coordenadora da rede, Marilene Souza, mais conhecida como Leninha, lembrou as bem sucedidas experiências de aproveitamento de água da chuva feitas na região para defender que ações concretas como esta sejam compartilhadas pelas redes até a Rio+20: “Temos que pensar o desenvolvimento a partir das populações locais”, diz.
Rubens Born fala sobre as expectativas do movimento: “Enquanto redes temáticas, nós conseguimos vitórias expressivas, mas nossa reunião aqui em Porto Alegre pretende mostrar que somente essas redes não vão fazer a diferença no futuro, se nós não conseguirmos superar nossa fragmentação. Cada peça é importante, mas precisamos ver como elas se integram melhor para o bem-estar da sustentabilidade nacional”, disse. CARTA MAIOR http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19452
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Vicente de Moraes Cioffi – Engenheiro especializado em meio ambiente. Membro da coordenação do Fórum Permanente em Defesa da Vida e Núcleo Regional do Plano Diretor Participativo - vicentecioffi@gmail.com 4EM DEFESA DA VIDA