O próximo 13 é dele, uma
sexta-feira. A boca começa a travar, com certo amargo. Penso
que não sou só eu que não gosto nadica de nada de
agosto, embora dê tantas rimas. Virou lenda como mês do
cachorro louco, embora a gente saiba que muita coisa ruim
acontece em todos os meses do ano.
Mas agosto ficou famoso; por
que rima com desgosto, esgoto? Também dá ansiedade e
angústia em quem já começa a ver o ano virando, pré-Passado.
Aqui tivemos presidente que
renunciou, presidente que se matou. Já aconteceram muitas
coisas estranhas em agosto, o que nos faz mesmo ficar com o
rabo e a barba de molho. Por sua vez os romanos não gostavam
do mês de agosto porque acreditavam na existência de um
dragão enorme, horrível, que, cuspindo fogo pelas narinas,
passeava no céu durante todo o oitavo mês do calendário
gregoriano.
O agouro de agosto é
fabuloso, e garante até que assombrações, as almas do outro
mundo que, entre gemidos e o arrastar de correntes balançam
as redes dos que dormem após um longo dia de trabalho,
costumam aparecer, pedindo missa, querendo rezas, no mês que
é o mês do frio e da ventania. Horrível, mesmo.
Tem quem se desmobilize completamente em agosto. Não faz
nada, não marca nada, não assina nada. Pior que em tempos de
Copa do Mundo, de paradeira, e que - olhem - a deste
ano ainda não passou, por conta justa e certamente dessas
tantas dúvidas agostinianas. Dizem que não é mês bom nem
para casar. Eu acrescentaria outros meses para dizer que,
realmente, isso não é bom. Casamentos e separações têm todos
os dias e meses do ano. Agosto leva a fama? Já na Alemanha,
vejam só, agosto é o mês predileto das noivinhas.
Surpreendente.
Na Argentina, andei sabendo, não é aconselhável nem
lavar a cabeça durante todo o mês de agosto. Quem lava a
cabeça em agosto está chamando a morte. Deus me livre, eu
que detesto cabelos sujos todos os dias do ano! Todos os
cabelos e pelos? Sem uma aguinha, um sabãozinho? Abominável.
Por aqui - nos nossos recantos de país maravilha - chegaram
muito fortes as lendas portuguesas dos colonizadores do
pedaço e eles não eram - e não são - bem chegados no gosto
de agosto, nem com azeite. Mas o que será que tem de
verdadeiro nisso, além de, especialmente, ter dia do Soldado
e do Advogado? E o dia 24 de agosto ser o Dia das Sogras?
Que tal 24 de agosto ser o dia em que o Diabo anda solto,
fazendo as suas? Sabia? 24 de agosto é o dia de todos os
Exus nos candomblés brasileiros.
Chego a achar que eles sobem,
sim, mas é para o bem de nos proteger dessa emanação toda.
Vamos nos concentrar: agosto, vai, passa logo! Passa logo,
agosto! Sinistro. Tenebroso. Nervoso.
Dizem que nós, os brasileiros, somos otimistas por natureza.
Tenho percebido que isso vem mudando, e que as pessoas andam
temendo até os próximos comerciais, quanto mais os minutos
seguintes; quanto mais os dias e meses! A coisa anda tão
rápida que muda de hora em hora, do bom para o ruim,
vice-versa e versa-vice, que até os vices andam cheios de
pitacos e frases de efeito. Emocionante.
O nosso problema é a imprevisibilidade. E como a gente não
acredita em bruxas, mas elas existem, também não acreditamos
em pesquisas, nem em projeções. Aliás, cá entre nós, não
acreditamos é em mais nada. Uma coisa, beleza, que
faz bem hoje pode ser execrada amanhã, veneno. Insistimos,
sim, porque, quem sabe? É torpedão, loteria todo
dia. Agora até loja de amostra grátis tem. Quem
diria! E nem assim a gente acredita. Afinal, quando a
esmola é muita, até o santo desconfia. Estarrecedor.
E não há santo, vidente, cartomante, quiromante, nem
adivinho, espertalhão sobrenatural, pai-mãe-avô ou avó
de santo. Palma da mão, borra do café, búzios, bola de
cristal, cartas, bacia cheia de água ou copo de sessão
espírita. Não há curandeiro. Nem charlatão. Ninguém mais é
capaz de peitar o que será do amanhã, sob pena de
acertar até sem querer. Ninguém é doido.
Este ano não será diferente. Só pior. Tem eleições
indefinidas. Tem Seleção indefinida. Tem situação mundial
esquisita, lá longe e aqui perto. E como agosto se alastrou
de vez, tem óleo na praia, fora acidentes bem fatais, muitos
crimes passionais e tragédias climáticas. Fora doenças
esquisitas e metamorfoses ambulantes.
E eles, todos, os
líderes, sem soluções, só com promessas. Têm, inclusive,
entre eles, uns meio malucos aparecendo, e se criando, já
ano após ano. Coisa que já vimos acontecer e que não dá
certo; perigosas, justamente porque movimentam as massas. Às
vezes umas contra outras. Temos bomba? Não temos? Adivinhe
em que mês houve os ataques de Hiroshima e
Nagasaki? Desolador.
Queria mesmo era ter o dom de antever, de prever. Já
publiquei, há tempos, sob o pseudônimo Yazoddarah,
coisas que poderiam até ser relances da intuição que uso
para tudo na vida. À época, caprichava: estudava tudo o que
podia, fuçava, prestava atenção, e saíam umas coisas legais,
em geral sobre astrologia. Até hoje, pelo menos nessa área,
uso esses estudos quando observo algumas coisas. Sei, por
exemplo, reconhecer alguém do signo de Escorpião
passando lá do outro lado da rua. Depois conto para vocês
exatamente qual é o ponto.
Mas saber de agosto, sinto muito. Sei não.
São Paulo, agosto, perto
da Augusta.
Marli Gonçalves é jornalista, gosta de gostos e de
agostos, desde que sem desgostos. Aproveita para lembrar
que, em compensação, a 2ª Grande Guerra acabou em agosto. E
que tudo pode ser lido ao contrário. Foi em agostos que nos
livramos de dois presidentes bagulhos... .
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