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Dia
Internacional da Mulher é coisa séria. A gente devia fazer é
um minuto de silêncio. Não queremos esse bombardeio de
bobagens, flores, bombons, textos edificantes de autoajuda,
sugestões de presente. Para isso tem Natal, Dia das Mães,
segundas, terças, quartas, quintas, sextas e fins de semana.
Queremos respeito. Queremos ter orgulho de nós e de todas as
nossas mulheres. Queremos a verdade.
Começou. Vem
de todos os lados. De um dia, ou melhor, de um mês para
outro, a mulher entra na ordem do dia, quase mais que no
Carnaval, quando o importante é ter peito e bunda, e sacudir
os dois. Já recebi toda sorte de mensagens comerciais,
estéticas e chatas sobre o Dia da Mulher, de gente achando e
fazendo que é um dia igual a qualquer outro desses
comerciais.
Juro: recebi
um e-mail que falava de uma promoção de viagem só para
mulheres, para Las Vegas. Um trecho dizia algo
parecido com isso : "O presente para a sua mulher que ela
retribuirá na volta". O roteiro inclui idas aos
cabeleireiros, shows de strippers, passeios de limusine,
bebida. Só não deixou claro se vai ter comida. Mulher gosta
de ser bem.
Ou seja, o presente para a mulher é se ver livre dela por
alguns dias. E, da parte dela, ganhar e saber o que o mundo
livre pode lhe proporcionar longe dos olhos dos fiascos de
seus maridos.
Não vou ser a primeira, graças, a afirmar isso, mas preciso
repetir. Mulher que é mulher sabe que é mais do que toda
essa turba insiste em pechar. Mulher tem cabeça, não é
bacalhau nem camarão, embora algumas estejam se vendendo por
quilo. Mulher que é mulher sabe o quanto tudo é difícil e
ainda - ainda, ainda,ainda! - tão cheio de
preconceitos e proibições.
Mulher que é
mulher sabe ou pelo menos deveria saber que o Dia da Mulher
é uma data política, que marca nossos primeiros gritos para
o mundo: Quero votar! Quero dar! Quero ter prazer! Quero
trabalhar! Eu posso, você também! Não se submeta!
E sabe que é data para lembrar de continuar gritando, o que
ainda faremos por muito tempo: Eu posso! Eu sei! Eu tenho
que ganhar igual! Não sou prisioneira! Eu posso!
Já estou até vendo as declarações de certas pessoas,
mulheres, sim, mas mulheres a quem não foi dado o dom de
perceber isso fora de vontades e horários eleitorais, que
fazem de tudo uma grande massa das massas pelas massas.
Uma coisa é
uma coisa. Outra coisa é vestir a capa e o gestual da rudez
masculina. A mulher não é mais mulher ou mais legal porque
trabalha hoje como caminhoneira, lixeira, porque pula de
paraquedas, porque manda e desmanda, o cacete a quatro, ou
porque pode ser ministra, presidente, chanceler ou ditadora.
Chega de
espanto. Isso é normal. Mulher é gente, na geral. E o que
gente faz a mulher pode fazer. Só que antes não deixavam a
gente fazer algumas dessas coisas, nem quando precisávamos.
Quem não sabia que era assim é que fica espantado hoje em
ver as "rachas", "rachadas" - entre outros apelidos tão
carinhosos como porcos espinhos- em cima de ondas altas, no
topo das montanhas, manipulando células, mandando ver.
A mulher precisou. Sair para trabalhar, criar, pintar e
bordar, além de cozinhar. Ter o filho que queria, sem vir
junto o penduricalho que o inocula. A mulher quis ser ouvida
com sua linguagem e visão particular, mostrar sua cara ao
mundo.
Cara que fica
na cabeça, que pensa, antes de ser bonita ou feia.Sem essa
de Marte e Vênus. Somos todos terráqueos. Apenas alguns bem
mais atrasados que outros, que ainda jogam pedra, mutilam
clitóris, e impõem véus e suplícios. Como os muitos
brasileiros que ainda subjugam meninas-crianças, que matam e
envenenam, que roubam a estima e a confiança das que
encontram pelo caminho, e agora na internet.
Somos diferentes, sim. Não há dúvida. Nem melhores ou
piores. Diferentes, de uma diferença que deve ser
aproveitada, expandida, comemorada. Vemos as cores e a vida
de forma diversa e mais rica. A força que não temos pode
aparecer do nada quando precisamos, mais ainda se for para
defender o que e quem for nosso. Ainda não tomamos Viagra ou
similares.
Uma música, um
toque, uma poesia, nos eleva, de graça. Sofremos,choramos,
batemos os pés, mexemos as mãos e jogamos os cabelos como só
nós sabemos. Que nos desculpem os travestis e etc. Mas
igual, igual que nem, não dá para ser. Nem com a
operação de corte e "embutimento". Nosso andar é rebolado,
nosso pescoço mais fino, nosso cheiro é atraente, nossas
roupas, sapatos e bolsas mais legais. Uma calcinha, por mais
barata que seja, é mais legal do que uma cueca.
Nossa voz pode ser fina. Mas sabe engrossar.
Nossas mãos podem ter calos, mas as unhas estarão pintadas.
E, mesmo que curtas, podem fazer um estrago.
Do nosso peito sai leite. Vertemos sangue.
Somos a vida. Mas a violência ainda nos oprime.
São Paulo, marcadas pelo
dia 8 março de 1857, quando muitas ficaram no chão de uma
fábrica, e somente reconhecidas em 1975.
Marli Gonçalves, jornalista. Feminista desde criancinha.
O endereço é
www.twitter.com/MarliGo
Marli Gonçalves é
jornalista -
marli@brickmann.com.br -
marligo@uol.com.br
Desde muito cedo precisou se defender sozinha, e sempre se
meteu em encrencas. Porque dá um Cadillac último tipo para
não brigar, mas uma frota deles para sair girando em hélice
quando provocada, para não deixar barato. E não suporta ser
pressionada; nem tocada, se autorização não tiver sido dada.
Também não gosta que toquem suas coisas. Materiais, claro!
marligo@uol.com.br -
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www.brickmann.com.br |