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  24.07.2009 20h.15  
  A linda missão de incluir

Luciane Maria Molina Barbosa (*)

 

Lindiane do Nascimento, 25 anos, formada em Letras (2002-2005 Faculdade Unificada Campo-grandense FEUC) poderia ser uma profissional, que por sua trajetória acadêmica, estivesse "escondida" por trás dos muros de alguma Instituição de Ensino.

Leitura pelas mãos pelo Sistema BraillePorém, seu empenho e dedicação nos mostra que o compromisso com uma Educação de Qualidade vai além do que podemos imaginar. Lindiane, preocupada com os rumos da Educação Inclusiva, se capacitou e foi "escolhida" para a missão de ensinar àqueles que, cujos olhos não conseguem contemplar o vasto universo do conhecimento.

Mesmo possuindo visão, seu trabalho consiste em levar aos cegos, o encantamento dos pontos em relevo sob os dedos e todas as possibilidades de acesso à informação. Abaixo, conversei com Lindiane para conhecermos um pouco mais sobre sua história.

Luciane: Conte um pouco sobre você e sua trajetória acadêmica -Lindiane: Sou professora, formada em Letras (Port/Esp) e especializada em Educação Inclusiva. Trabalhei com crianças em classes regulares do primeiro segmento do Ensino Fundamental e com adultos em Classes Supletivas com o ensino de Língua Portuguesa e atualmente leciono aulas de Sistema Braille e informática na Reabilitação do Instituto Benjamin Constant. Persevero por uma sociedade que seja realmente inclusiva.

Sabemos que sua "escolha" pela Educação Inclusiva não teve como base o "modismo" das atuais tendências educacionais, o que te motivou a buscar essa linha pedagógica? - Acredito que a educação é essencial para a formação de um cidadão pleno. Trabalhar com pessoas que possuem alguma deficiência é provar esta afirmação, pois a busca desta formação por eles está em maior evidencia desde momento que iniciam a luta por seus direitos, desfazem preconceitos e encontram seu espaço na sociedade através da capacidade.

Quais os trabalhos desenvolvidos por você enquanto professora de Deficientes visuais? - Acredito que tenho ainda muito que aprender, possuo projetos em desenvolvimento, ainda nada concreto. Mas considero que propagar a importância da educação é um trabalho permanente e contínuo que busco realizar através dos alunos, família...

Você consegue quantificar a importância da reabilitação para o deficiente visual? Quais os sonhos, os anseios desses educandos ao iniciar o processo? - Afirmar a qualidade de vida que o reabilitando adquire com o processo da reabilitação, talvez sim, mas quantificar a importância é um valor subjetivo do aluno. Uma vez que a reabilitação atende grupos de pessoas com anseios distintos. Mas pode-se afirmar que todos eles possuem um desejo em comum, a busca da independência.

Qual foi a maior lição durante seu trabalho com reabilitação de deficientes visuais? Existe alguma história que mais lhe marcou como profissional? - Trabalhando com a reabilitação, pude perceber que a vida não termina e sim surge uma nova maneira de viver quando se torna cego. No ano de 2007 tive o prazer de ser professora de um aluno cego, cadeirante, não alfabetizado e órfão, morava em uma Instituição. Características possíveis para uma pessoa

se tornar infeliz com a vida que recebera, porém este reabilitando possuía uma força de vontade de vencer muito grande. Lembro-me até hoje a emoção que nos tomou conta quando ele pela primeira vez conseguiu escrever seu nome em Braille. Posso considerar que esta foi a maior lição de amor a vida que eu presenciei. 

Com relação ao Braille; você como vidente acredita que o código em relevo criado por Louis Braille há quase dois séculos ainda representa a liberdade intelectual para as pessoas com alguma dificuldade visual? - Sim, a perda da comunicação escrita para uma pessoa que se torna cega é angustiante, pois não envolve somente a perda da independência, mas também a reserva pessoal, deixa ele de anotar números de telefones, cartas pessoais, extratos bancários... O Sistema Braille se torna restaurador destas ações permitindo ao cidadão cego exercer sua função na sociedade com independência e reserva pessoal. 

Como foi para você aprender o Braille, já que possui visão? - Para mim que possuo visão acredito que o ensino do Sistema Braille tenha sido muito mais fácil que para um reabilitando, uma vez que o vidente obtém o contato com o Sistema através da visão e o cego através dos dedos.Muitas das vezes o reabilitando não consegue de imediato obter a percepção dos pontos com os dedos, ação conseguida para quem consegue visualizar através da visão. Porém na primeira vez que tive contato com o Sistema Braille, acreditei que não seria possível compreender “aqueles pontinhos”, porém durante as aulas fui desmistificando o conceito inicial e foi muito fácil entender como funciona o Sistema Braille.

Deixe uma mensagem aos nossos leitores - O cidadão cego ou de Baixa Visão, possui uma limitação sensorial, a visão. Tal limitação não o exime de exercer função na sociedade e não o torna menos incapaz.  Transformar a sociedade em uma sociedade inclusiva deve começar por nós mesmos, não esperando o outro fazer aquilo que nós mesmos podemos fazer.

(*) Luciane Maria Molina Barbosa é pedagoga; atua com Inclusão Escolar e capacitação de profissionais em Grafia Braille em Lorena e Guaratinguetá, SP  - braillu@uol.com.br ou lindinascimento@hotmail.com - www.braillu.com - blog


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