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18.06.2010 00h.15 |
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Jornalista, procura-se
Procura-se jornalista que devote suas energias à busca da
verdade e não dos holofotes. |
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por Washington Araújo, do Observatório da Imprensa |
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Que saiba distinguir a
diferença entre o personagem que é noticia e aquele que
transmite a notícia, que seja tão arejado a ponto de
compreender que a luz é boa não importa em que lâmpada
brilhe.
Procura-se jornalista que esteja sempre prestes a levar
consigo um telescópio para o olho esquerdo e um microscópio
para o olho direito de forma a ver a realidade sobre ângulos
variados e apto a celebrar que a grande beleza da vida está
no entendimento da rica diversidade humana.
Procura-se jornalista que seja especialista em cultura
geral, que escreva sobre o que entende e saiba o exato
tamanho de sua ignorância sobre o assunto que pretende
abordar, que saiba fazer o artesanato dos fatos, ideias e
palavras, sem deixar pontas soltas nem fios desencapados.
Procura-se jornalista que saiba distinguir entre liberdade
de expressão, de impressão, de pressão; que veja sua
atividade não como o Quarto Poder, mas sim como um serviço
essencial à vida organizada da sociedade, como um espelho do
mundo dotado de visão e fala.
Equação biquadrada - Procura-se jornalista
que seja generoso no uso dos substantivos e parcimonioso no
uso dos adjetivos, que em caso de dúvida não ultrapasse o
sinal vermelho da ética e do bom senso e que concorde que a
ética do jornalista é a mesma do marceneiro.
Procura-se jornalista que se sinta indignado e denuncie a
quem de direito qualquer empresário ou político, artista ou
profissional liberal que lhe acene ou lhe ofereça qualquer
vantagem financeira em troca da publicação de notícia
favorável aos seus negócios, à sua carreira ou à sua área de
atuação político-partidária.
Procura-se jornalista que, em confronto com as forças da
natureza, testemunha ocular de eventos catastróficos,
ocupe-se em ajudar a salvar uma ou mais vidas, em socorrer e
amparar feridos, e que seja sábio o suficiente para deixar
de lado obrigações contratuais imediatas como a observância
de data-limite para envio de matéria, tomada de fotos
específicas e que nunca pergunte a quem se encontra com a
vida por um fio "como você está se sentindo?"
Procura-se jornalista que tenha uma visão muito apurada do
que é justiça, ética, liberdade, democracia, equidade,
bem-estar social, distribuição de renda, mobilidade social,
inclusão social, inclusão digital, inclusão étnico-racial e
que tenha uma sede de conhecimento insaciável, sempre se
atualizando sobre o estado da arte no mundo.
Procura-se jornalista que não resenhe livro sem antes tê-lo
lido, não critique filme a que não tenha assistido e não
elogie álbum sem antes ter escutado todas as músicas, que se
orgulhe mais dos livros que leu do que dos livros que
escreveu e que saiba declamar "Navio Negreiro", de Castro
Alves, cortar com a mão direita, equação biquadrada de
segundo grau, fração e saiba conjugar o verbo "resfolegar".
Matérias arredias - Procura-se jornalista
que não se submeta a qualquer forma de pressão, seja
ideológica ou econômica e que se apresente de hora em hora
ante o tribunal de sua consciência, o único dotado de
poderes para julgá-lo de maneira equânime.
Procura-se jornalista que seja tão bom na crítica quanto na
autocrítica, que entenda tanto da Ilíada de Homero como do
efeito-estufa, que entenda causas e efeitos das crises
econômicas mundiais de 1929 e de 2009, que esteja bem
familiarizado com índices e siglas como IDH (Índice de
Desenvolvimento Humano), FIB (Felicidade Interna Bruta), PIB
(Produto Interno Bruto), Índice de Gini, Dow Jones, Nasdaq.
Procura-se jornalista que possua senso crítico, conhecimento
do idioma, latitude de ação, humildade para conferir e
voltar a conferir suas anotações antes de enviar seu texto
para publicação.
Procura-se jornalista que respeite os direitos do leitor,
não rotule sua opinião como informação, trate a informação
de maneira imparcial sem exigir credenciais ideológicas e
que considere muito natural ouvir o outro lado,
principalmente quando se tratar de assunto que diga respeito
também à honorabilidade de personagens enfocados.
Procura-se jornalista que cultive a independência de
pensamento, que não deseje ser mais realista que o rei, mais
católico que o papa, que respeite a linha editorial de quem
lhe propicia o emprego, mas que não que renuncie à condição
de ser pensante e esteja confortável tantas vezes quantas
forem necessárias para ser voto vencido em uma discussão
editorial.
Procura-se jornalista que apenas numa vista d´olhos saiba
diferenciar entre um escândalo real de corrupção e um
escândalo pré-fabricado de corrupção, que não empreste seu
nome a reportagens tão arredias à verdade dos fatos como os
morcegos são à claridade do dia.
Pior tragédia - Procura-se jornalista que
entenda a toponímia de São Luiz do Paraitinga, Berlim e
Caruaru, que compreenda que as cidades têm alma, que são
mais que meras aglomerações humanas, e que possa fazer ampla
exposição sobre o que são hidrônimos, limnônimos,
talassônimos, orônimos e corônimos.
Procura-se jornalista que entenda tanto de Fernando Pessoa
quanto de Umberto Eco, que conheça amiúde as biografias e o
pensamento vivo de Winston Churchill e Boris Pasternak, Rui
Barbosa e Cláudio Abramo, que compreenda que a História é a
também o relato encadeado da vida dos grandes homens.
Procura-se jornalista que conheça em profundidade o que é um
linotipo e uma gralha, um tipógrafo e um scanner, um
prefácio e um posfácio, prolegômenos, uma composição bem
feita, um hipertexto e uma nota de rodapé, uma orelha e um
texto indicativo, a gramatura do papel que se tem na mão e a
marca d´água, a folha de rosto e o que significa 1.844
terabytes.
Procura-se jornalista bastante familiarizado com a
Declaração Universal dos Direitos Humanos, que saiba
relacionar seus artigos com a crítica de políticas públicas
para a população urbana e rural, para brancos e negros,
índios e ciganos, meninos nas creches e meninos de rua,
católicos e evangélicos, judeus, muçulmanos e bahá´ís,
budistas e hindus, seguidores do candomblé e do Santo Daime,
espíritas e ateus.
Procura-se jornalista que entenda, de uma vez por todas, que
a pior tragédia na vida de um ser humano é aquilo que morre
dentro dele enquanto ele ainda está vivo.
Envolverde/Observatório
da Imprensa
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