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IARA BIDERMAN
colaboração para a Folha de S.Paulo
Crianças que passam muitas
horas ininterruptas em frente ao computador têm quase o
dobro de chances de desenvolver miopia. A conclusão é de um
estudo com 360 crianças de nove a 13 anos, realizado pelo
oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, do Instituto Penido
Burnier, de Campinas (SP).
No estudo, a porcentagem de
miopia verificada entre as crianças que passavam longas
horas sem desgrudar os olhos do monitor foi de 21%. A
prevalência geral no Brasil, nessa faixa etária, é cerca de
12%. A miopia é um erro de refração da luz no olho, que faz
com que a focalização da imagem ocorra na frente da retina,
deixando as imagens mais distantes desfocadas.
Segundo Queiroz Neto, suas
causas podem ser genéticas ou ambientais. Entre estas, o
esforço visual para enxergar de perto pode acomodar o
sistema de focalização neste sentido, criando a chamada
miopia acomodativa.
A dificuldade para enxergar
de longe pode durar meses e, se os hábitos persistirem,
tornar-se um mal permanente, afirma o oftalmologista. Ele
acredita que a miopia acomodativa seja a explicação para o
maior número de míopes entre os viciados em computador e
videogames.
"Há um aumento dos casos de
miopia em todas as faixas etárias, mas tenho notado um
aumento significativo em crianças. Claro que hoje temos
recursos tecnológicos que favorecem o diagnóstico, mas acho
que não é só por isso. Nunca a população começou a usar a
visão de perto tão cedo quanto nas últimas décadas", afirma
Queiroz Neto.
Aumento mundial -
Paulo Augusto de Arruda Mello, coordenador da comissão de
ensino do CBO (Conselho Brasileiro de Oftalmologia) e
professor de oftalmologia da Unifesp (Universidade Federal
de São Paulo), diz que estudos mundiais apontam que a
população de míopes duplicou nos últimos 20 anos. Embora os
números confirmem o crescimento, as causas não têm
comprovação estabelecida. "O que temos são hipóteses, mas
nada pôde ser comprovado em estudos controlados, que são
muito difíceis de serem realizados nesses casos", diz.
Ele enumera as três
principais hipóteses para o aumento do número de míopes:
"Uma é o maior envolvimento da população com atividades que
exigem focalização de perto; outra é a influência genética,
pois se acredita que o gene da miopia é dominante;
finalmente, também especula-se que agentes externos, como
alimentos e medicamentos, podem estar contribuindo para o o
crescimento dos casos."
Apesar de os estudos feitos
até hoje não serem conclusivos, Hamilton Moreira, presidente
do CBO, acredita que a hipótese de o esforço visual de perto
favorecer o desenvolvimento da miopia faz sentido
cientificamente. "Há alguns dados que levam a crer que
diminuir o esforço visual de perto pode diminuir a
intensidade da manifestação da miopia. Por exemplo, um
estudo feito com crianças utilizou um colírio para evitar a
acomodação do olho [para enxergar perto] e reduziu a
progressão da miopia em relação ao grupo de crianças que
utilizou placebo."
Infelizmente, efeitos
colaterais da substância utilizada, como causar dilatação da
pupila, não permitem que ela seja utilizada para tratamento
da miopia. "Mas o caminho é esse: procurar uma forma de
tratar a miopia clinicamente bloqueando a acomodação por
meio de substâncias que tenham esse efeito com o mínimo de
efeitos colaterais indesejável", acredita Moreira.
Controle de risco -
"Quando o olho está em fase de desenvolvimento é mais
vulnerável à acomodação que pode aumentar o tamanho do olho
e causar uma miopia irreversível", diz Mauro Campos,
professor da Unifesp e editor dos "Arquivos Brasileiros de
Oftalmologia", do CBO.
Para Campos, a questão não
é apenas o computador, mas o número de horas que as
crianças, principalmente em centros urbanos, passam em
atividades que exigem só a visão de perto. "A alfabetização
precoce, a substituição de brincadeiras de rua, ao ar livre
e com horizonte mais amplo, por atividades em locais
fechados, além dos monitores de computador, favorecem o
esforço visual de perto. Tudo isso pode fazer com que o
distúrbio da visão apareça com o passar do tempo ou, se a
criança já tem predisposição, fazer com que a miopia se
desenvolva em maior grau."
Uma vez instalada a miopia,
é muito difícil fazê-la regredir de forma significativa,
segundo Campos. No entanto, Queiroz Neto, do Instituto
Penido Burnier, acredita que, até a idade de dez a 12 anos,
o poder de acomodação do olho é maior. "Se forem tomadas
medidas para diminuir a intensidade e a freqüência do
esforço visual de perto é possível controlar o
desenvolvimento da miopia nessas crianças, se outros
fatores, de causas não ambientais, não estiverem
envolvidos", afirma.
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(*)
Mauricio Lagreca -
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