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No
dia 12 último, conversamos com o professor Manolo Pires,
Mestre em Engenharia Mecânica pelo Instituto Militar de
Engenhara, IME-RJ e Doutor em Engenharia Mecânica pela
UFRGS. Esse mineiro de Passa Vinte, filho de um
radiotelegrafista da Rede Ferroviária Federal, foi criado em
Barra Mansa, no Estado do Rio de Janeiro, onde estudou num
colégio de padres alemães. Depois disso, foi morar na
Capital onde cursou Engenharia Civil na Universidade Veiga
de Almeida. Em 1985, veio à São José dos Campos trabalhar
como engenheiro de estruturas na Embraer onde ficou por
cinco anos. Em 1990, resolveu se dedicar ao mundo acadêmico,
fez mestrado em 1994 e começou um Doutorado no ITA que não
completou por falta de bolsa,
conseguindo uma na Universidade Federal do Rio Grande do Sul
onde, em 2001 doutorou-se em Engenharia Mecânica.
Como foi o seu doutorado?
– A minha tese de doutorado foi na área de fenômenos de
transporte.
O que é
Fenômeno de Transporte?
– É uma ciência que estuda o transporte da quantidade de
movimento (ou momentum), transporte de calor e de
massa. Fenômenos de Transporte é uma disciplina que envolve
conceitos associados à Mecânica dos Fluidos, Termodinâmica e
Transmissão de Calor, comumente estudados por alunos de
engenharia e outros interessados.
E qual é a aplicação disso?
– Praticamente em todos os setores, principalmente na
indústria aeroespacial, foguetes, mísseis, motores,
refrigeração, petróleo etc. É uma ciência muito
envolvente com inúmeras aplicações, tudo no planeta se
relaciona com o fenômeno do transporte.
Como foi o seu começo na UNIVAP? –
Mandei meu currículo para o Diretor da Engenharia, Professor
Élcio Nogueira, que queria montar um laboratório e
precisava de uma pessoa com experiência - eu tinha. Em
fevereiro de 2002, fui contratado como bolsista em
regime de tempo integral para instrumentar e operar um Túnel
de Vento Hipersônico, no Laboratório de Aerodinâmica, da
Faculdade de Engenharia, Arquitetura e Urbanismo-FEAU da
UNIVAP. Na época, foi firmado um convenio entre a UNIVAP e o
Instituto de Estudos Avançados do Centro Técnico
Aeroespacial - IEAv/CTA, para que eu pudesse atuar como
colaborador naquele Instituto, durante 20 horas semanais, no período da manhã,
para adquirir os conhecimentos necessários
à implantação do túnel na UNIVAP.
Então
o projeto era muito importante?
– Muito mesmo - seria a primeira universidade da América
Latina a desenvolver um estudo de escoamento hipersônico.
Trata-se de um processo onde se utiliza uma velocidade
Mach 5 - cinco vezes superior a velocidade do som. Acima
disso, há uma dissociação e os gases formam praticamente um
plasma. É um estudo voltado à reentrada de naves espaciais
na atmosfera, somente realizado no Instituto de Estudos
Avançados, no CTA. O Professor Élcio contratou também o
Engenheiro Antonio Garcia Ramos para instrumentar e operar
esse Túnel, na UNIVAP. Foram feitos contatos com a NASA,
através do IAV. Estavam lá diversos professores, o Paulo Toro, o
coronel Marcos Minucci, tudo dentro da Faculdade de
Engenharia, Arquitetura e Urbanismo.
Como foi a montagem do laboratório?
- Quem começou a montar o laboratório, o sonho do
Élcio, na época já Pró-Reitor de Engenharia, foi eu, os materiais
eram excelentes, importados da Inglaterra. Montei tudo e coloquei
para funcionar.Traduzi e organizei mais de 60 apostilas com
imagens coloridas, na maior boa vontade. Chegamos até a
fazer uma pequena reportagem a respeito, e começamos a
sentir que o próprio diretor da FEAU, o Francisco Pinto
Barbosa, se posicionava contra o projeto colocando
empecilhos.
Como assim?
– Ele começou a nos desestabilizar depois que o Prof. Élcio
criou o Grupo de Ciências Térmicas, no IP&D, composto de
mais de quinze doutores de várias instituições de renome no
país (ITA, São Carlos, UFRJ, UFRS, UFPA), gente do mais alto
gabarito.
Com o
sucesso do projeto, que já repercutia nacional e
internacionalmente, o diretor da FEAU, Francisco Pinto
Barbosa, se aliou ao Professor Marcos Tadeu Tavares Pacheco,
diretor do Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento – IP&D –
para tentar impedir o trabalho do Dr. Élcio Nogueira.
Alegaram que o projeto do Túnel era perigoso, que nada tinha
haver com o curso de Engenharia Aeronáutica, que existiam
interesses particulares do Dr. Élcio, e que, em último caso,
deveria ser instalado no IP& D. Significava a paralisação e
a perda do que já fora feito, ou seja, teríamos que
recomeçar tudo em outro local.
Chegou a manter contato com o reitor Baptista Gargione?
Estive
numa reunião onde assisti o reitor bater no peito e
esbravejar: “Esta universidade é minha, quem manda aqui sou
eu, e faço o que eu quiser - o Túnel vai ficar no
Laboratório da FEAU.” Daí pra frente, acabou a prioridade, o
engenheiro responsável pela instalação do Túnel Hipersônico,
Antonio Garcia Ramos, foi demitido, as verbas foram cortadas
e os orçamentos engavetados.
Começaram as perseguições?
- Sim! Foi algo terrível! O diretor Francisco Pinto Barbosa
me atribuiu aulas que não faziam parte da minha área - como ensinar Saneamento na Engenharia sem
conhecer o assunto. Os discentes eram estimulados a
provocar os docentes para desestabilizá-los. Eu sei que vários
alunos foram orientados a se revoltar contra mim. Fizeram
listas para me tirar, alegando que não tinha capacidade.
Cheguei a ministrar aulas fora da minha especialidade em nove a dez disciplinas
diferentes, numa média de 25 a
30 horas em salas e ainda orientar os alunos. Foi algo
montado para me arrebentar.
Como conseguiu agüentar?
- Foram minando a minha resistência, ainda assim, fui o
último do meu grupo a ser demitido. Antes, saíram o
Professor Humberto Machado, o Marcos Pedra, a Professora
Heidi Korzenowski,
coordenadora do curso de Engenharia Aeronáutica, a
Ana Paula, coordenadora do Curso de Engenharia de Materiais
e
o Antonio Garcia Ramos. O Prof. Mariano e a esposa, Profa. Lucília Dantas, foram para
à Universidade de Pernambuco. Dessa maneira, desmantelaram o Curso de Mestrado em
Engenharia Mecânica.
Mas, qual seria o real interesse em acabar com o projeto?
– A alegação foi a de que éramos crias do Prof. Élcio, um doutor conceituado.
O
diretor da FEAU, Francisco Pinto Barbosa, só tinha um mestrado, alem
disso, era um cara ciumento, com muita vontade de destruir a todos
do Grupo de Ciências Térmicas e Mestrado em Engenharia
Mecânica. Para conseguir isso, utilizou-se de inúmeras
práticas malignas. Em quatro ou cinco anos conseguiu destruir o
Grupo de Engenharia Mecânica, com apoio da reitoria e do
Diretor do IP&D, Prof. Marcos Tadeu Tavares Pacheco.
E como reagia o Professor Élcio?
– Ele se esforçava muito, chegou a ir à Moscou e conseguiu
trazer de lá três doutores especialistas. Um deles ficou
conosco por um ano. No final, tínhamos que colocar dinheiro
do bolso para comprar peças para o motor a propelente
líquido para foguetes. Um dos russos, o Professor Ph.D.Vitor
Koldaev, fazia, ele próprio, as peças no torno.
E o que aconteceu com o Laboratório?
– Tudo que era solicitado à diretoria ou à reitoria era
negado, até o material de Pronto Socorro. Os computadores
foram retirados com todos os softwares, as apostilas que eu
tinha traduzido sumiram. Com todo o material retirado, o
Pinto Barbosa encheu o local com carteiras, transformando-o
em salas de aulas da Arquitetura.
E esse material foi para onde?
– Eu não sei - simplesmente todo o trabalho de Hércules
desenvolvido por mim, desapareceu. Como o diretor Francisco
Pinto Barbosa usava os mesmos termos do reitor: “Quem manda
aqui sou eu, faço o que eu quero”, acho que a
responsabilidade sobre o sumiço dos materiais é dele.
Quando deixou a UNIVAP?
– Fui demitido
no dia 30 de junho de 2005,
através da mesma maneira viciada, envolvendo os alunos, a
direção e a reitoria. Não foi só eu - aconteceu com outros
professores da Engenharia Mecânica e de Materiais. Tenho os
nomes de alguns alunos que poderíamos procurar e, quem sabe,
agora, se possa esclarecer várias coisas estranhas que
ocorreram durante aquele processo safado onde atribuíam
aulas fora da especialização dos professores, visando
desmoralizar e demitir os que estavam na lista negra - aconteceu com o próprio Professor Élcio Nogueira.
O que acha hoje da Universidade?
- Posso dizer que as pessoas trabalham com medo na Univap. O
risco de ser demitido de uma hora para outra é apavorante,
um professor especializado como eu não consegue trabalho
rapidamente, ou seja, não existe um mínimo de respeito pelo
ser humano ou por sua família.
E quanto a sua passagem pela ETEP?
- Por incrível que possa parecer, já demitido da UNIVAP, em
dezembro de 2006, fui contratado como docente pela Escola
Técnica Everardo Passos, a ETEP, de São José dos Campos.
Entretanto, não demorou e recebi um comunicado da direção
informando que a minha contratação havia sido cancelada, até
hoje não consegui entender os motivos. O espírito de
universidade, de pluralidade de opiniões nunca existiu. É um
regime totalitário, um clima de terror constante,
infelizmente convivi bastante com isso.
Onde trabalha hoje?
– Estou na Fifth Vision Technology, o diretor é o José
Raimundo dos Santos, um homem inteligente e íntegro. Na
verdade, ele é um inventor com várias patentes registradas,
trabalho com ele, dou apoio como pesquisador e engenheiro de
desenvolvimento.
Fale com o Professor Manolo Pires:
manoloneuzalucas@yahoo.com.br
Ninguém da direção da
UNIVAP quis se manifestar sobre as declarações do Professor
Manolo Pires. Com a palavra o reitor Baptista Garigione, o
Professor
Francisco Pinto Barbosa e o Professor Marcos Tadeu Tavares
Pacheco.
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(*) Acassio Costa é advogado
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acassio@vejosaojose.com.br |