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10.10.2008 00h.01 |
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A
farra financeira consensuada pelas elites
Enquanto a mídia corporativa brasileira fala em crise,
há décadas ativistas e intelectuais denunciam o caráter
explorador do sistema financeiro. De um lado, especuladores
e banqueiros alimentam-se da desordem mundial da
globalização financeira. Do outro, trabalhadores em todo o
planeta arcam com custos da “economia de cassino” dos EUA...
Gustavo Barreto (*) |
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Como
resultado de um intenso bombardeio midiático, me peguei
diversas vezes classificando os recentes acontecimentos no
sistema financeiro global como uma “crise”. Trata-se, no
entanto – de forma muito evidente, inclusive –, de um
conhecido processo estudado e identificado há décadas
por gente como o economista brasileiro Celso Furtado.
O noticiário econômico acerca deste processo de falências e
estatizações que ora ocorre nos EUA segue um padrão
jornalístico já há algum tempo observado. As estatísticas
são lançadas em função de uma dominação das elites sobre o
aparelho de Estado, realidade que é presente no Brasil, de
fato, porém de forma muito mais evidente nos Estados Unidos,
como veremos a seguir.
Conforme destacou o jornalista Bernardo Kucinski [01]
analisando o cenário brasileiro, “divulgam quanto cresceu o
PIB (Produto Interno Bruto), porque esse dado é importante
para o empresariado. Mas a participação do salário na renda
nacional parou de ser divulgada há anos, desde que caiu
abaixo de níveis civilizados (...) Divulgam-se
detalhadamente os itens de pauta das exportações, mas não os
detalhes de gastos com royalties e patentes. Seu
conhecimento geraria uma atitude crítica em relação à
renumeração dos capitais financeiros”. E alerta: “Quase tudo
pode ser provado em economia, manipulando-se estatísticas”.
O sociólogo Luiz Gonzaga Belluzzo tratou de lembrar que o
neoliberalismo, ao contrário do que diz a propaganda
oficial, nunca desejou o “Estado mínimo”, pois precisa de
Estados nacionais fortes para utilizar o poder político e
fiscal destes, com o objetivo de fortalecer os respectivos
sistemas empresariais (incluindo os mercados financeiros e
de capitais). O propósito é o de ganhar espaço na arena
global. “Nessa toada, as reformas [ditas neoliberais, dos
anos 70] atropelaram as instituições destinadas a garantir a
segurança econômica e social da maioria assalariada ou
dependente”,avalia Belluzzo. E conclui: “O Estado não saiu
de cena, apenas mudou de agenda” [02].
Até mesmo no Brasil, durante a onda de privatizações e
entreguismo dos oito anos do Governo FHC, foi observado
durante o seminário da Rede de Economia Global (REGGEN) de
2003 que, ao contrário do que muitos propunham, os dados
mostravam que o investimento público cresceu, porém foi –
conforme denuncia Belluzzo – direcionado para a “iniciativa
privada” [03].
O próprio termo “iniciativa privada” é contraditório, pois,
como veremos, muitas vezes a iniciativa é do Estado,
com dinheiro público, e o setor privado se apropria destes
recursos por meio de ações fraudulentas e lesivas aos cofres
públicos. Vide, entre outros inúmeros casos, a privatização
da ex-estatal brasileira Vale do Rio Doce, que opera
no setor de extração de recursos naturais, centralmente
estratégico para o país.
Contradições negligenciadas
O noticiário da mídia corporativa procura fixar os atuais
acontecimentos a poucos tópicos, sem discutir a seriedade e
complexidade do problema, como, por exemplo, a falta de
controle do sistema financeiro. O analista político Noam
Chomsky aponta há décadas as contradições de um sistema
fadado ao fracasso: “Uma instituição privada tem um
objetivo: maximizar os lucros e minimizar as condições
humanas. Porque isso maximiza os lucros. Isso é o que eles
perseguem. Eles não poderiam perseguir nada além disso. Se o
sistema é minimamente competitivo, eles precisam fazer isso.
É a natureza do sistema (...) Haverá bastante dinheiro do
contribuinte entrando nos fundos para não deixar que seus
lucros caiam” [04].
É preciso um esforço para não considerar como custos apenas
os gastos feitos diretamente pelo governo num contexto de
“crise” – tal como a proposta de gastar US$ 700 bilhões na
compra de títulos “podres”. Há muitos outros custos que são
vendidos como grandes benefícios do capitalismo moderno.
Mais
Nada a temer a não ser o
correr da luta.
(*) Gustavo Barreto –
gb@ufrj.br
- (21) 8141-3313
(*) Gustavo Barreto é editor da imprensa alternativa e odeia
hipocrisia. Coordenador da Revista Consciência.Net, colabora
com meios como
Fazendo Media (editoria de Internacional), Revista
Viração e Núcleo Piratininga de Comunicação. Integrante do
Movimento Humanista –
www.consciencia.net |
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