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HELOÍSA HELVÉCIA
editora do Vitrine
Recomeça a corrida maluca
às academias. Como em toda véspera de verão, as salas de
musculação incham, as aulas de bike bombam. E sobe o índice
de sarados machucados.
Ali, onde se busca saúde,
são fabricadas também --com cinturas de pilão e barrigas de
tanquinho-- contusões, dores, doenças que incapacitam.
Não há estatística
associando uma artrose precoce ao abuso de "leg press". Nem
a mesa de cirurgia de hoje à mesa romana de ontem (aparelho
em que a vítima, de bruços, chuta o ar com a barra de ferro
nos tornozelos). Mas há ortopedistas, fisioterapeutas e
professores de olho nessas relações. Eles identificam uma
epidemia de lesões causadas pelo tipo de treino praticado na
maioria das 10 mil academias do país (somadas também as
informais).
"As características
genéticas de cada um não são respeitadas nesses treinos",
diz a fisioterapeuta Mônica Gianotti, especializada em
medicina do comportamento pela Unifesp (Universidade Federal
de São Paulo). "Os professores não sabem identificar sinais
patológicos nem a má postura nos aparelhos. O resultado são
mais distúrbios musculoesqueléticos."
O que a fisioterapeuta vê
na clínica o economista Rafael Biral sente na carne.
Acostumado a correr, jogar bola e passar duas horas na
academia, parou tudo depois de uma lesão no quadril, que se
tornou crônica.
Não foi só o quadril.
Antes, Rafael, 29, já tinha rompido o tendão do ombro por
estresse, quer dizer: não por trauma, e sim pelo esforço
feito num mesmo lugar do corpo por longo período. Ou, em
português claro: pela violência repetida de um exercício que
ou era contra-indicado, ou feito errado.
A dor estava lá fazia
tempo, mas o economista seguia treinando. Até que operou.
"Meu ombro não ficou cem por cento. Fui o maior culpado."
Depois do castigo de dois
anos parado, Rafael diz ter descoberto uma fisioterapia
"diferente" e outro jeito de se exercitar. "Mudei o estilo.
Freqüentei academias grandes e pequenas. Em todas, a
orientação era ruim. São espaços da estética, a saúde não é
considerada."
É, academia não é mesmo um
"ambiente cuidador", comenta Alexandre Blass, atual
treinador de Rafael. Mestre em esporte de alto rendimento,
Blass aponta a distância entre a universidade e o comércio
de fitness como uma das causas dessas falhas: "A
complexidade da atividade física exige mais conhecimento.
Academias até têm médico, fisioterapeuta, educador. Mas não
integram essas áreas".
Integrado ao fisioterapeuta
Marcelo Semiatzh, Blass trabalha na preparação de quem
corre, ou treina, e quer melhorar seu desempenho sem elevar
o risco de lesão. A metodologia da dupla é desenvolver a
percepção e a coordenação da pessoa, reeducando sua postura.
Semiatzh diz que a faixa
etária do público de academia vem aumentando e que, se é bom
que mais gente saia do sedentarismo, nem todos estão
preparados para tudo. Especializado em reeducação postural,
o fisioterapeuta diz que, em vez de tanta puxação de ferro e
aulas "energéticas", o ideal seria treinar a pessoa a
suportar o peso do corpo e a elevar a eficiência nos gestos
do dia-a-dia.
Pesadelos de salto alto
Ao deixar a vida
sedentária, dez anos atrás, a empresária Priscilla
Todeschini, 39, partiu para musculação, spinning e esteira.
"Aí entrei nessa de correr." Com a meta da maratona de 2000
em Nova York, ela aumentou o ritmo. Teve contratura na
panturrilha direita. Depois, rompeu o músculo sóleo, na
panturrilha esquerda. "Vivi nove anos com dores incríveis.
Acordava como se tivesse dormido de salto alto." Também teve
fratura por estresse na perna direita. "Hoje, com a
consciência que tenho, acho sala de musculação um terror.
Ninguém sabe que aparelho fazer, como sentar. A orientação
dada é generalizada."
A empresária, mesmo com
dores, não desistiu de correr. Passou por equipes
profissionais até conhecer, na academia, um professor que
fazia um trabalho específico em corrida e pesquisava dor e
prevenção de lesão. "Aprendi a entender meu corpo. Deixei de
fazer uma série de exercícios, mas corro o mesmo que antes.
A diferença é que não tenho dor nenhuma."
O treinador de Priscilla,
Luiz Fernando Alves, passou por sete academias. Formado em
esporte e pós-graduado em biomecânica, fisiologia,
traumatologia e reabilitação pela USP, ele critica o sistema
da avaliação pro forma, que impera: "Não existe uma análise
postural capaz de guiar a orientação na esteira, bicicleta
ou musculação. A avaliação física nunca oferece informações
para uma conduta preventiva, que deve ser observada em
academias".
Para esse professor, cuja
linha de trabalho é a correção sistemática de movimentos e o
despertar da percepção do corpo, alguns simples ajustes
biomecânicos, tanto nas aulas coletivas como nos treinos
individuais, poderiam evitar dores. "Mas o profissional de
educação física não é preparado para ler o corpo do aluno e
vetar exercícios que vão exacerbar os desequilíbrios
existentes", diz.
O que "pega" mais
Hoje, segundo Luiz
Fernando, os cursos de atualização em biomecânica ensinam
qual exercício "pega" mais o músculo "X" ou "Y". "Você
aprende que aquele movimento vai ativar mais o peitoral ou o
glúteo, mas a custo de quê? Preserva articulação? Protege
ligamentos? Nada disso é visto na faculdade. O disseminado,
hoje, é o que "pega" mais. Se está "pegando", está bom",
ironiza.
O que "pegou" para o médico
infectologista Décio Diamente, 50, foi ombro. E joelho. Ele
freqüentava academia de forma intermitente, como a maioria
dos 5% de brasileiros matriculados. "Fazia, parava, fazia,
parava. Parava por questões profissionais, ou por lesões",
diz.
O médico começou por
recomendação, para fortalecer clavícula e escápula. "Mas
acabei entrando no sistema massificado: máquinas, esteira.
Quando percebia, estava com dor." O problema virou crônico.
Teve tendinite com bursite no ombro (inflamação no tendão
com a doença reumática que inflama as bursas, cavidades que
contêm o líquido sinovial). "Doía muito e dói ainda."
Pior foi o joelho esquerdo,
que "abriu o bico" aos poucos. Culminou com ruptura de
menisco, neste ano. Operou em maio e, desde então, faz
fisioterapia e treinamento especial.
"Eu não associava as lesões
aos treinos. Mas, no caso do joelho, estava na esteira
quando senti uma dor aguda muito forte. Até ali, não passava
pela cabeça que aquilo estivesse me prejudicando. Aqueles
aparelhos foram criados para o fisiculturismo, quando o
objetivo de gente como eu é, sim, ter definição muscular,
mas sem pretensão de Mister Universo." Hoje, Décio não
treina sem supervisão. "Não adianta ficar solto na academia.
Eu não pedia ajuda. Erro meu."
Não buscar orientação na
atividade física "é o erro mais comum", diz o ortopedista
Rene Abdalla, co-autor do livro "Lesões nos Esportes" e
coordenador do Centro de Traumatologia Esportiva da Unifesp.
"Agora, todo mundo quer se recuperar rápido do inverno, e os
excessos no peso e na bike podem desencadear lesões." Ele
diz que o spinning responde por mais de 50% das queixas de
dor em joelhos.
Outras fontes potenciais de
machucados são a esteira e as aulas de body jump, segundo a
reumatologista Fernanda Lima, coordenadora do ambulatório de
medicina esportiva e reumatologia da USP. Mas até o
alongamento, que em geral é visto como preventivo, pode
prejudicar se a postura certa não for observada, lembra o
treinador Luiz Fernando Alves.
Então, qual a alternativa à
malhação camicase? "O aluno deve buscar avaliação física
séria e checar se a academia dá suporte", diz Fernanda Lima.
O melhor é evitar o treino
massificado, diz a médica Laíra Campello, especializada em
medicina esportiva pela Unifesp. "A pesquisa da academia
deve ir além de preço e localização. A pessoa deve checar se
há acompanhamento na evolução do treino e qual a política de
admissão de pessoal."
A falta de qualificação
profissional "aumenta significativamente o risco de lesões",
diz o professor universitário de educação física Alfredo
Cesar Antunes, doutorando pela Universidade Estadual de
Campinas. Autor de duas pesquisas sobre o perfil de
instrutores de academias, Antunes mostrou que a maioria não
possuía contrato de trabalho e disputava mercado com
não-graduados.
Outra conclusão de seu
estudo é a de que o mercado valoriza a aparência e juventude
do instrutor, não a experiência e a formação. "Muita ação
precisa ser feita tanto pelos cursos de preparação quanto
pelos conselhos de educação física", diz.
"Ainda existe muita
informalidade em academias", concorda Claudio José
Albuquerque e Silva, médico especializado em medicina
esportiva e presidente da Acad (Associação Brasileira das
Academias). "O ramo de fitness é novo no país, tem menos de
20 anos. Nesse período, não tem havido adequações da
graduação à realidade. Os currículos têm foco no passado."
Culpa da cebola
Mas, segundo o presidente
da Acad, "grande parte das lesões ocorre pela própria
irregularidade dos clientes na frequência". Só 5% da
população freqüenta academias, na estimativa da associação.
E é a minoria dessa minoria que mantém uma prática regular.
"Existe um vai-e-volta imenso. Os clientes querem ganhar
massa muscular e perder peso rápido, não querem trabalho de
longo prazo. Aí vem o exagero."
Era mesmo exagerada, no
início da carreira, a corredora Conceição de Maria Carvalho
Oliveira, 32, segundo lugar no ranking de corrida de rua da
Confederação Brasileira de Atletismo. "Não sabia meus
limites, extrapolava." Antes de cair nas mãos certas, ela
diz que colecionou "contusões sérias". Mesmo não sendo fã de
academia, a atleta a freqüentava, antes de provas: "Como não
tinha conhecimento, eu era uma dor só, sofria com joelhos e
lombar. Queriam que eu virasse uma mala de músculos". Hoje,
diz que sabe se policiar para não passar da medida.
"Descobri um treino mais profundo e não quis mais saber de
academia."
O que não a livra --nem
ninguém-- de machucado. Sua primeira vitória do ano, duas
semanas atrás, veio depois de 40 dias parada, o tempo de
curar uma fratura no pé esquerdo. Aconteceu na feira: a
campeã deslizou numa casca de cebola.
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(*)
Gabriela Esteves Pereira Mori - gabizinhamori@yahoo.com.br |