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  16.01.2009 00h.10  
  Entrevista: Francisco Gorgonio da Nóbrega

Ricardo Faria (*)

 

É um dos mais respeitados cientistas brasileiros, ele e outros docentes foram demitidos da Universidade do Vale do Paraíba no mês passado por justa causa. O reitor Baptista Gargione Filho teria ficado indignado com um abaixo assinado que Nóbrega, outros professores e alunos encaminharam ao Ministério Público

No último dia 30 estivemos com o indignado Professor Nóbrega: “Atravessei a época de chumbo da ditadura, meu orientador Isaias RAw foi  banido da Academia, perdi uma irmã na resistência ao arbítrio, mas, ainda assim, nunca senti a opressão e o desmando que o reitor Gargione conseguiu impor na Universidade do Vale do Paraíba, em pleno século  21, nessa  importante São José dos Campos.

Foto: Ricardo FariaO reitor me demitiu, no dia seguinte, fechou o IPD e  me proibiu de
entrar no campus. Ele se apossou ilegalmente, em primeiro
lugar, de cerca de 40 anos de minha vida acadêmica, pois o meu
escritório está atulhado de documentos científicos que não pude retirar. Quando solicitei permissão para adentrar o Instituto com essa finalidade, escoltado, o prefeito do Campus, o Mineiro, disse que não "conseguia contato com a Dra. Maria Cristina " e todos sabemos que a Maria Cristina é o reitor.” Afirmou Nóbrega.

Professor Nóbrega, como realmente aconteceram os fatos? – Tudo começou um pouco antes, quando o Gargione destituiu o professor Marcos Tadeu da direção do IPD e lá colocou a Dra. Sandra Costa. Depois, demitiu dois professores do programa de engenharia biomédica, o Márcio Magini e o Balbim sem explicações. Tudo por decreto. Isso criou um clima de antipatia na Universidade.

O reitor pode agir assim? – Na eleição do coordenador do Programa de Engenharia Biomédica e Biomedicina os mais votados foram o Marcos Tadeu e o professor Munin, mesmo assim, não foram escolhidos, contrariando a regra da CAPES, Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal do Ensino Superior que credencia os cursos de mestrado e doutorado. É uma questão acadêmica que não permite interferência do reitor. Mas, na Univap, o Gargione criou essa de lista tríplice, coisa da cabeça dele, para poder escolher as pessoas.

E o pessoal da Univap aceita isso? - Foi a gota d´água, motivou 37 professores e alunos a assinar um abaixo assinado de apoio as denúncias feitas ao Ministério Público. A partir daí vieram as demissões e a interdição dos laboratórios.

O que acha das denúncias? - Se existem investigações, que sejam feitas com profundidade. Caso haja comprovação, o MP vai criar condições para sanear e refundar a Univap e sua mantenedora a Fundação Valeparaibana de Ensino, é o que o povo de São José e do Vale merece.

Que tipo de instituição é a Univap? – Ela é publica de origem, não pode ser privatizada como está acontecendo, dominada por interesses particulares.

Foto: Ricardo FariaO senhor foi demitido por justa causa? – Foi mais uma tentativa de intimidação, o reitor escolheu três, eu, o Marcos Tadeu e a Dra Magini para amedrontar os demais. A alegação foi a de que estaríamos denegrindo a Fundação. Uma acusação absolutamente ridícula, pois estamos tão somente preocupados com a Instituição e queremos que ela seja melhor. As críticas são dirigidas à gestão Gargione que está prejudicando a Entidade.

E o fechamento do Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento? – No dia seguinte as demissões, 19 de dezembro, ele decretou um recesso que não poderia atingir o IPD, porque lá são realizadas as pesquisas e tem que ter porteiro 24 horas.

Quais as pesquisas desenvolvidas lá? – Temos mais de 40 laboratórios funcionando, um monte de projetos científicos, muitos com recursos da Fapesp ou do CNPq. Existem programas com alunos fazendo teses, colaborações com universidades como a Unesp, Unicamp, com o ITA, com o INPE. Aquilo está sempre ativo. Nas férias os alunos de graduação costumam intensificar os trabalhos passando mais tempo no laboratório.

E como o reitor manda fechar tudo? – É o estilo dele, mostrar o máximo de autoritarismo. Ele deve ter ficado assustado com o fato de um grupo de dentro da Universidade ter assinado um manifesto apoiando o MP. Acho que ele imaginou que dando uma pancada dura amedrontaria os demais.

Algo ditatorial? – Nós não estamos numa ditadura, lá dentro parece um castelo medieval. O reitor se imagina um senhor feudal e quer baixar todas as regras, quer fazer daquilo um país independente. Essa é a idéia que tenho do Gargione. Ele não aceita que a Univap tenha que participar e respeitar a LDB, quer fazer a lei dele, uma anomalia muito estranha.

O que pode acontecer? – Com tudo trancado, o reitor põe em risco o equipamento. O guarda que circula em volta não tem as chaves. Se acontecer alguma emergência, ele tem que sair correndo e telefonar para o prefeito do campus, o Ronaldo, conhecido como Mineiro. Se ele estiver com o celular desligado ou tiver algum problema, ninguém falará com ele, o único que pode abrir o IPD. Essa é a situação insustentável foi criada pelo Gargione. É gravíssimo.

Quem é esse Ronaldo? – Me parece que era um trabalhador rural que veio de Minas Gerais, se fez amigo do Gargione e se deu bem, virou homem de confiança, fez curso de engenharia e hoje tem o diploma. De um simples auxiliar virou o prefeito do Campus Urbanova, falam que está muito bem de vida.

O que dizem entidades como a Capes, a Fapesp, o Finep, o IPQ e as outras? – Bem... Elas foram avisadas, inclusive sobre o Gargione ter tomado essas atitudes justamente no final do ano, na época das festas de Natal e Ano Novo. Vamos aguardar alguns dias e manter um novo contato. Vamos ver o que vai acontecer.

Pessoalmente como vê sua demissão por justa causa e tudo mais? – Já vi o reitor fazer coisas tão absurdas e tão contra o que considero correto que não me surpreendo. Acho que ele está se sentindo ameaçado e achou que não devia mais me tolerar. É isso.

O outro lado - Tentamos um contato com a direção da Univap. Fomos informados que o reitor somente falará após o pronunciamento do Ministério Público. Saiba mais

(*) Ricardo Faria – ricardo@vejosaojose.com.br
 


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