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A médica psiquiatra e
escritora Ana Beatriz Barbosa Silva foi entrevistada, na
noite da segunda feira 26/7, no Roda Viva, da TV Cultura,
programa apresentado por Heródoto Barbeiro.
Especializada em medicina do comportamento, Ana Beatriz
nasceu em 30 de março de 1966, no Rio de Janeiro. Fez
pós-gradução em psiquiatria e se dedicou ao estudo do
funcionamento do cérebro, transtornos e vários outros temas
ligados ao comportamento humano.
Além do trabalho clínico, é autora de sete livros, escreveu
sobre "mentes inquietas", "mentes e manias", "mentes
insaciáveis", "mentes com medo" e "mentes perigosas", sendo
este último tema de seus dois últimos trabalhos. Ambos
chamam a atenção para os tipos de violência que precisam ser
tratados como problema social.
O livro Mentes perigosas
- o psicopata mora ao lado - analisa que não existe apenas
uma raiz biológica na origem das psicopatias. Há também
fatores culturais que tornam os psicopatas frios, cruéis e
destituídos de compaixão, culpa ou remorso. Jornais e
revistas divulgam com frequência crimes hediondos onde pais
matam filhos, namorados sequestram e matam namoradas, casos
de pedofilia, corrupção, maltratos a crianças.
Durante entrevista ao Roda Viva, a médica Ana Beatriz falou
sobre a mente humana e os casos mais recentes que
estarreceram o país, como o envolvendo Bruno Fernandes,
goleiro afastado do Flamengo, e sua ex-amante Eliza Samudio,
e a morte da advogada Mércia Nakashima, que tem como
principal suspeito Mizael Bispo de Souza, seu ex-namorado.
Na bancada de entrevistadores estiveram Renato Lombardi
(comentarista da TV Record), Suzane G. Frutuoso (chefe de
reportagem do Diário de S. Paulo), Cláudia Collucci
(repórter de Saúde da Folha de S. Paulo e mestre em História
da Ciência pela PUC São Paulo) e Ivan Martins (editor
executivo da Revista Época).
TV CULTURA
Coincidindo com a tragédia
do assassinato da jovem Eloá Cristina Pimentel pelo
ex-namorado Lindemberg Alves, Ana Beatriz deu entrevista ao
Estadão
e à
revista Época. -
Impressionou a estimativa de que 4% da população é
psicopata.
Para comparar, fui dar uma
olhada na Internet, e descobri que a incidência de ter um
filho com Sindrome de Dawn é de 1/1000, ou 0,1% na faixa
mais jovem de pais e mães. Ou seja, a probabilidade de se
encontrar alguém com Psicopatia é bem maior do que alguém
com Sindrome de Down.
Uma característica
importante do psicopata é o fato dele não conseguir sentir
empatia, se colocar no lugar da outra pessoa. No livro ela
deixa claro que nem todo psicopata é um assassino. Mas. sem
dúvida. é uma pessoa de convívio difícil.
Lembrei-me de várias
pessoas difíceis com quem convivi ao longo da vida, e talvez
esta anomalia no cérebro explique algumas reações estranhas
de falta de empatia, de rigidez emocional. Talvez isso me
ajude a entender melhor as pessoas, e a me proteger das
manipulações.
“Psicopatas não sentem compaixão”
A psiquiatra, autora de
Mentes Perigosas, diz que o ato de Lindemberg revela uma
personalidade psicopática
por Martha Mendonça
O mal existe e não tem
cura. É o que afirma a psiquiatra carioca Ana Beatriz
Barbosa Silva, que acaba de lançar Mentes Perigosas: o
Psicopata Mora ao Lado. No livro, ela afirma que psicopatas
nascem com um funcionamento cerebral que não permite conexão
com os outros seres humanos – e por isso agem sem limites.
Ana Beatriz diz ainda que é um equívoco relacionar
psicopatas apenas com pessoas capazes de atos violentos ou
assassinatos em série. “Eles são 4% da população e podem ser
qualquer pessoa: um colega de trabalho, o marido ou um
filho”.
Quem é Ana Beatriz
Barbosa Silva -
Carioca, 42 anos, psiquiatra pós-graduada pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro
O que faz
- É diretora das clínicas Medicina do Comportamento, no Rio
e em São Paulo, onde atende pacientes e supervisiona
tratamentos
O que publicou - Mentes Inquietas, Mentes & Manias, Mentes
Insaciáveis: Anorexia, Bulimia e Compulsão Alimentar e
Mentes com Medo: da Compreensão à Superação
ÉPOCA – O que é um
psicopata? - Ana
Beatriz Barbosa Silva – Antes dessa definição, é preciso
saber o seguinte: a maldade existe. Nós, latinos, afetivos,
passionais, temos dificuldade de admitir que existem pessoas
más. Psico quer dizer mente; pathos, doença. Mas o psicopata
não é um doente mental da forma como nós o entendemos. O
doente mental é o psicótico, que sofre com delírios,
alucinações e não tem ciência do que faz. Vive uma realidade
paralela. Se matar, terá atenuantes. O psicopata sabe
exatamente o que está fazendo. Ele tem um transtorno de
personalidade. É um estado de ser no qual existe um excesso
de razão e ausência de emoção. Ele sabe o que faz, com quem
e por quê. Mas não tem empatia, a capacidade de se pôr no
lugar do outro.
Qual é a natureza da
psicopatia? Os psicopatas nascem assim?
– Os psicopatas nascem com um cérebro diferente. Os seres
humanos têm o chamado sistema límbico, a estrutura cerebral
responsável por nossas emoções. É uma espécie de central
emocional, o coração da mente. Em 2000, dois brasileiros, o
neurologista Ricardo Oliveira e o neurorradiologista Jorge
Moll, descobriram a prova definitiva dessa diferença da
mente psicopata, por meio da chamada ressonância magnética
funcional, que mostra como o cérebro funciona de acordo com
diferentes atividades. Nesse exame, mostraram imagens boas
(belezas naturais, cenas de alegria) e outras chocantes
(morte, sangue, violência, crianças maltratadas). Nas
pessoas normais, o sistema límbico reagia de forma diversa.
Nos psicopatas, não há diferença. O sistema límbico dessas
pessoas não funciona. O pôr do sol ou uma criança sendo
espancada geram as mesmas reações. Da mesma forma, não há
repercussão no corpo. Eles não têm taquicardia, não suam de
nervoso. Por isso passam tranqüilamente num detector de
mentiras.
Há muitos psicopatas
no mundo? – Mais do
que se imagina. Cerca de quatro em cada cem pessoas, segundo
as estatísticas americanas. Mais homens do que mulheres.
Todos têm em comum a ausência do sentimento em relação às
outras pessoas. Não conseguem se colocar no lugar do outro,
daí agirem de forma fria e sem arrependimentos. O que
caracteriza o psicopata não é o nível do crime, mas a forma
como ele o comete, a predisposição para planejar e executar
sem nenhum sentimento em relação à vítima.
Como saber se estamos
convivendo com um psicopata?
– Não é tão fácil detectá-los, especialmente quando temos
alguma ligação afetiva com eles. Maridos que espancam suas
esposas, por exemplo: as estatísticas mostram que 25% são
psicopatas, e grande parte delas não aceita a verdade. Mas
há algumas características básicas entre eles: falam muito
de si mesmos, mentem e não se constrangem quando
descobertos, têm postura arrogante e intimidadora por um
lado, mas são charmosos e sedutores por outro. Costumam
contar histórias tristes, em que são heróis e generosos.
Manipulam as pessoas por meio de elogios desmedidos. Se
tiver de começar a desconfiar de alguém, desconfie dos
bajuladores excessivos. Chefes também podem ser psicopatas –
o que costuma se manifestar pelo assédio moral aos
funcionários. Um dado interessante é que eles não sentem
compaixão, pena, remorso. Mas sabem, cognitivamente, o que é
ter esses sentimentos. Daí representarem tão bem – e às
vezes exageradamente – a vítima.
E a verdadeira vítima
quem é? – Quase
sempre pessoas generosas, em especial aquelas que não
acreditam no mal e costumam tentar justificar as atitudes de
todo mundo.
Um assassino pode não
ser psicopata e um psicopata pode jamais matar?
– Sim, isso é muito importante. É um equívoco pensar que
apenas assassinos seriais são psicopatas, e um dos objetivos
de meu livro é justamente este: mostrar que a psicopatia não
está ligada apenas ao homicídio. Existem assassinos
passionais que jamais matariam novamente. Um exemplo é a
mulher que matou o estuprador do filho dela de 4 anos. Ela
nada tem de psicopata. Ao contrário, apesar da violência, o
crime dela pode ser compreensível para muitas mães. Ao passo
que um psicopata pode nunca ter a necessidade de assassinar,
resolvendo suas questões matando vidas afetivas e
financeiras, prejudicando pessoas de forma irreversível, mas
sem matá-las. Na população carcerária, segundo pesquisas
feitas no Canadá e nos Estados Unidos, há de 20% a 25% de
psicopatas.
Seu livro comenta o
assassinato da atriz Daniella Perez. É um caso clássico de
psicopatia? – O
caso tem características que levam a esse diagnóstico.
Guilherme de Pádua premeditou a morte da vítima, a atraiu
para o crime e horas depois foi prestar solidariedade à mãe
da moça.
Como você
classificaria Lindemberg Fernandes Alves, que seqüestrou e
assassinou a ex-namorada Eloá? Ele seria um psicopata?
– O ato é de uma personalidade psicopática. Ele usou a razão
para dominar os reféns e controlar tudo em volta. Atirou na
multidão e disse que era o “príncipe do gueto”, “o cara”.
Deu entrevistas por telefone, conseguiu que uma das reféns
voltasse ao cativeiro. No fim, com a invasão da polícia, não
hesitou em atirar nas duas. Ele começou a namorar a Eloá
quando ela tinha 12 anos. Certamente a tratava como
propriedade, não admitindo perder esse controle.
VIRGILIO FREIRE
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