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  30.10.2011  23h.30  
  Professores falam sobre a gestão Baptista Gargione na FVE/Univap

 

 
por O Vale  

Me recusei a ensinar assunto que não conhecia. A resposta dele: "vai lá e dá qualquer coisa"

Darwin Bassi Doutor em Ciências

1. Como o senhor avalia a situação atual da FVE/Univap, com a aprovação do novo estatuto da Fundação Valeparaibana de Ensino? - O processo não se esgota com a aprovação do novo estatuto da FVE. Já havia antes uma dissonância entre o estatuto da FVE e o da Univap. O próximo passo para que o sistema FVE/Univap se consolide dentro de princípios democráticos é a elaboração de um novo estatuto para a Universidade e esse não passa pela Promotoria de Fundações, mas deve ter o aval do MEC.

2. O senhor concorda ou discorda da análise de que a aprovação do estatuto representa o fim da era Gargione na instituição? - A era Gargione não se encerra com a aprovação do novo estatuto. Só teremos um céu azul na instituição quando todos os resquícios da ditadura que ela sofreu forem eliminados. Isso só ocorrerá com a demissão de elementos improdutivos e altamente remunerados como familiares, apadrinhados e assessores instalados em Brasília.

3. A aprovação do estatuto sepulta os eventuais erros da gestão Gargione? - A aprovação do estatuto não é um processo transitado em julgado e que possa inocentar o dirigente pelos seus malfeitos. O processo contra as irregularidades ocorridas, e denunciadas, a enorme quantidade de dinheiro mal empregado e outros desvios de conduta, que a Promotoria deveria ter aprofundado e não o fez, deve continuar. A sociedade joseense não deve se espelhar no que ocorre em Brasília, onde o afastamento de ministros é uma pá de cal sobre a roubalheira que lá ocorre.

4. Que herança Baptista Gargione deixa na instituição? - Um campus bonito cheio de prédios caros para mostrar aos fiscais do MEC nas raras visitas que êles fazem. O conteúdo educacional é pífio e precisa ser totalmente reformulado. O "sistema Univap de ensino" tão propalado pelo próprio reitor é fraco. Basta mencionar que em anos recentes, na avaliação do MEC, os colégios da Univap ocuparam os últimos lugares entre os colégios particulares de São José dos Campos. A alocação de aulas aos docentes tem sido feita sem o menor critério. Isto pode ser visto pela alocação de aulas de judô a um doutor em engenharia mecânica e a outro doutor em biologia. Ou no meu caso particular, doutor em física, aulas de bioestatística para alunos de biologia e educação física. Quando me recusei a ensinar assunto que não conhecia a resposta dele foi: "você vai lá e dá qualquer coisa para os alunos, agora o problema é seu". Como sempre fui um professor responsável contratei com meu dinheiro dois professores especialistas na matéria para que os alunos pudessem terminar o ano letivo. Depois disso pedí demissão.

5. Na sua opinião, qual o futuro da Univap e como a instituição vai caminhar para ele? - O futuro da Univap ainda pode ser brilhante e foi com isso em mente que, ao me aposentar do ITA, aceitei o convite para ir trabalhar lá. É preciso que haja uma administração comprometida com a educação. Que sejam selecionados bons professores, com programas de ensino atualizados, laboratórios montados com bons equipamentos e acima de tudo aplicar na remuneração do pessoal a tabela de qualificação e remuneração, muito boa por sinal, mas que tem valido até aqui apenas para os familiares e apaniguados. Contratações e demissões de docentes só podem ser feitas com a aprovação do Consêlho, conforme determina a Lei de Diretrizes e Bases da Educação.

Darwin Bassi
Bacharel e Licenciado em Física pela Universidade de São Paulo (1953).
Mestre em Ciências (física) pela Universidade de Pittsburgh, USA (l962).
Doutor em Ciências pelo Instituto de Química da USP (1973).
Duas vezes chefe do Departamento de Física do ITA.
Chefe da Divisão de Ensino Fundamental do ITA.
Diretor da FEG-UNESP (1976-1980).
Presidente do Conselho de Curadores da VUNESP (1980-1982).
Pró-Reitor de Pós-Graduação da UNIVAP (1994-1996).
Diretor do Instituto de Ciências Biológicas da UNIVAP (1997-1998).

'A simples aprovação do Estatuto não é a solução definitiva'

Elcio Nogueira Doutor em Engenharia Mecânica

1. Como o senhor avalia a situação atual da FVE/Univap, com a aprovação do novo estatuto da Fundação Valeparaibana de Ensino? - Considero que a aprovação do Estatuto, que desconheço o completo teor, representa uma luz no final do túnel. Entretanto, não passa de um paliativo e uma forma de tentar encobrir a omissão do poder público e das autoridades em geral com as grandes arbitrariedades promovidas pelo senhor Baptista Gargione Filho e seus auxiliares mais próximos, que sempre contaram com o apoio e a anuência do, até então, poderoso chefe. O Estatuto, o Plano de Carreira Docente, da UNIVAP original, que o Gargione desfigurou, é um dos maiores avanços ocorridos dentro de uma instituição privada deste país. Equivale a um Estatuto, e um Plano de Carreira, de uma Instituição Pública de alto nível, sem os vícios e mazelas da mesma. Não será, entretanto, a alteração de um Estatuto que corrigirá os rumos da UNIVAP , mesmo que se retorne ao original, pois as posições de comando e a influência dos membros que lá ficaram, em sua grande maioria, vai continuar, independente de votação. O corpo docente de alto nível que existiu, em um determinado momento na UNIVAP, já não mais lá se encontra. Não se destrói uma equipe de alto nível sem pagar um alto preço. O preço será o tempo necessário para readquirir a credibilidade. Temo que a UNIVAP tenha perdido o bonde da história, e a comunidade Joseense, e do Vale Paraíba, tenha perdido a oportunidade de ter uma Universidade privada de altíssimo nível, como aquela universidade americana, nas devidas proporções, que o Professor Antônio Teixeira Junior citou em artigo de hoje, onde tenta elevar o nome de quem destruiu o embrião do que ele mesmo cita como exemplo.

2. O senhor concorda ou discorda da análise de que a aprovação do estatuto representa o fim da era Gargione na instituição? - Minha resposta, ampla, acima, demonstra que discordo de que a simples aprovação do Estatuto não é a solução definitiva para se permitir um rumo desejado e necessário à UNIVAP. Sem uma intervenção, e atuação de pessoas externas com experiência acadêmica, científica e administrativa, a influência do Gargione deverá continuar. Veja a declaração do atual Presidente da Fundação, em seu Jornal, de que o Gargione deixa um patrimônio invejável, como se isto não fosse sua obrigação como gestor. Nada se compara a categórica e maquiavélica destruição de grupos de pesquisa, perseguições pessoais a professores de altíssimo nível, e a completa anulação de inúmeros projetos que estavam decolando em promissores rumos.

3. A aprovação do estatuto sepulta os eventuais erros da gestão Gargione? - O final de minha resposta acima demonstra de que discordo, pois o mal que o Professor Baptista Gargione filho causou a indivíduos, cidade, comunidade e sociedade em geral é algo muito nefasto e não pode ser encoberto por uma atitude paliativa como a simples aprovação de um Estatuto. Se for para escolher um Estatuto, fico com o original, aprovado pela comissão de altíssimo nível, do qual fez parte o digníssimo Professor Darwin Bassi, e que o Gargione fez questão de, aprovado a Universidade e criado condições para que se pudesse dizer que os salários eram pagos em dia, desfigurar e criar bases para manter-se absoluto e todo poderoso.

4. Que herança Baptista Gargione deixa na instituição? - A herança é a pior imaginável: deixa a impressão de que é possível efetuar todos os tipos de arbitrariedades e desmandos sem sofrer penalidades. Enaltece a cultura da impunidade, que deve ser combatida pelos que acreditam em um país melhor, mais justo e cada vez mais próximo de um ideal de sociedade eticamente avançada. Não há prédios e construções que substituam pessoas de alto nível intelectual e realmente comprometidas com a educação e com a sociedade, e não apenas para com os seus próprios propósitos e benefícios.

5. Na sua opinião, qual o futuro da Univap e como a instituição vai caminhar para ele? - O que idealizo como futuro da UNIVAP, e como irá caminhar para esta idealização, depende de ser ter ou não erradicada a influência funesta do Baptista Gargione Filho. A UNIVAP tem a sorte de se encontrar em um local privilegiado neste país de tantas diferenças. Encontra-se no berço da tecnologia, dos institutos de pesquisa e desenvolvimento, encrustada no eixo Rio-São Paulo, dentro do vale mais promissor de nosso país e conta com um contingente de pessoas de alta qualificação. Com intervenção, e severo acompanhamento da sociedade civil comprometida com o bem estar da comunidade, e com a correta utilização dos recursos, a UNIVAP tem tudo para voltar a decolar e voltar a sonhar com o seu propósito original: ser uma verdadeira academia de Ensino, Pesquisa e Extensão.

Elcio Nogueira
Professor Integral no Centro Universitário de Volta Redonda - UNIFOA.
Possui Graduação em Física pela Universidade Federal de São Carlos - UFSCar (1981), Especialização em Ciências Térmicas pela Universidade Federal de Viçosa - UFV (1985), Mestrado em Engenharia Mecânica (ênfase em Energia) pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica - ITA (1988), Doutorado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ/COPPE (1993) e Pós-Doutorado na Universidade de Miami - USA (1995).
Finalizou o Curso de Especialização em Gestão e Liderança Universitária pela Organização Universitária Interamericana - OUI, com estágios na Argentina e México. Atua na área de Engenharia Mecânica, com ênfase nos seguintes temas: Métodos matemáticos e computacionais, escoamento bifásico anular, escoamento hipersônico, transferência de calor e massa. Têm experiência na área de gestão educacional e interação Universidade-Empresa.

'O exercício do poder pode ser maléfico na construção de uma sociedade'

Renato Amaro Zângaro, Prof. Dr. Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Unicastelo

1. Como o senhor avalia a situação atual da FVE/Univap, com a aprovação do novo estatuto da Fundação Valeparaibana de Ensino? - O novo estatuto resgata o que deveria ter sido estabelecido na aprovação da Universidade em 1992, pois, como estamos tratando neste caso de uma Universidade Comunitária (temos no país 3 tipos de instituições universitárias: as públicas, as comunitárias e as particulares), a maior participação da comunidade nos seus rumos, bem como a alternância dos seus dirigentes máximos é de fundamental importância para a vitalidade de uma instituição que tem como missão maior a formação de cidadãos e cidadãs “éticos e responsáveis”.

2. O senhor concorda ou discorda da análise de que a aprovação do estatuto representa o fim da era Gargione na instituição? - É importante frisar que desde sua fundação na década de 50, a FVE gozou de grande prestígio acadêmico, inclusive quando Gargione assumiu no final da década de 70. A administração do Gargione teve maior repercussão nas décadas de 80 e 90, quando, qualquer administrador escolar conseguia excelentes resultados financeiros, mesmo à custa da perda da qualidade acadêmica como pode ser observado no presente caso. O ocaso da referida administração iniciou-se de fato em 2002, quando inúmeros adventos relacionados a educação nacional exigiam uma gestão mais dinâmica por parte das instituições de ensino do país, fato esse impossível de ser alcançado pela Univap haja vista a centralização praticada pelo seu administrador. A aprovação do novo estatuto induz a um corte abrupto na condução da presente política institucional, resgatando a história da instituição e dando início a um novo ciclo.

3. A aprovação do estatuto sepulta os eventuais erros da gestão Gargione? - É importante enfatizar que o Gargione nunca exerceu de fato o papel de Reitor, sua visão sempre foi a de um administrador e por isso o mal causado na qualidade de ensino da instituição em todos esses anos é irreparável. Alguns exemplos disso são: coordenadores obrigados a fazer malabarismos pela falta de contratação de professores em pleno ano letivo, corte de aulas pós 22 horas para economizar adicional noturno de professores, ingerência nas atribuições de aulas de todos os professores atropelando coordenadores e diretores, atribuição de disciplinas a professores sem formação específica na área, etc. Todos esses desmandos tiveram forte impacto na qualidade de ensino com conseqüência no desempenho institucional, fazendo com que a Univap tivesse uma redução de mais de 6000 alunos na última década.

4. Que herança Baptista Gargione deixa na instituição? - Gargione foi nomeado como interventor da FVE em fins dos anos 70 pelo prefeito de São José dos Campos da época, Joaquim Bevilacqua. Fez da intervenção sua vida profissional por 30 anos e somente outra intervenção foi capaz de tirá-lo do poder, desta vez o ministério público, lento, porém eficaz.
No quesito material deixou prédios como herança, porém visitem uma instituição de ensino em período de férias e terão a exata dimensão do valor destes prédios. No quesito exemplo de vida, o legado do Gargione é grandioso, pois nos brindou com inúmeros modelos de como o exercício do poder institucional pode ser maléfico na construção de uma sociedade.

5. Na sua opinião, qual o futuro da Univap e como a instituição vai caminhar para ele? - Da mesma forma com que o Brasil teve que reconstruir e consolidar suas instituições após 2 décadas de totalitarismo passando por inúmeras crises políticas, sociais e financeiras, a FVE-UNIVAP passará por graves instabilidades até reencontrar seu novo rumo, o que só acontecerá quando todos os atores “institucionais e comunitários” ocuparem seu espaço e exercerem seus direitos e deveres “exorcizando o medo da espreita do cão”.
A FVE-UNIVAP cuja fundação remonta aos idos de 1954 é a mais tradicional instituição de ensino de São José dos Campos e seguramente com o apoio de toda a sociedade vai resgatar seu objetivo maior que é formação sem tutela de cidadãos e cidadãs, os quais possam livremente definir seus próprios rumos e os deste país.

Renato Amaro Zângaro, Prof. Dr.
É atualmente Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Unicastelo.
Formado em Engenharia Elétrica -FVE-UNIVAP, São José dos Campos, S.P.
Mestrado e Doutorado pela Université des Sciences et Techniques du Languedoc, Montpellier, França.
Pós-Doutorado, pelo Massachusetts Institute of Technology, MIT, Cambridge-USA.
Atuou entre os anos de 1991 e 2008 na Univap, tendo ocupado no período as seguintes funções: professor, pesquisador, coordenador de curso, Diretor da Faculdade de Ciências da Saúde, Pró-Reitor de Graduação e Pró-Reitor de Cooperação Internacional. Ocupava esta última função quando pediu demissão em 2008, por discordar de ações do Gargione
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