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  07.12.2007 00h.10  
  Doutora é demitida da Univap  
A UNIVAP está desmontando o laboratório do Genoma.

Acassio Costa (*)

 

Quando a Professora Marina Pasetto Nóbrega, 63, reagiu ao fechamento do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento (IPD), na UNIVAP, assistiu o reitor Batista Gargione Filho bater no peito e esbravejar: “Esse instituto é meu, quem manda aqui sou eu.” A professora não é de suportar humilhação, ainda mais por ser uma doutora reconhecida mundialmente com mais de novecentas citações internacionais nos trabalhos

Marina Pasetto Nóbrega - Foto: Ricardo FariaNascida em Araraquara, no interior paulista, ela foi criada na Capital, no tradicional bairro do Ipiranga, onde a mãe era professora. Fez o curso primário numa escola pública, o ginásio no Colégio Maria Imaculada e Química Industrial no Colégio Oswaldo Cruz. Perdeu o exame no vestibular da USP em Química por causa de uma chuva, foi para Araraquara onde fez prova em segunda chamada, passou e mais tarde foi transferida para a USP. Bacharelou-se com licenciatura em Química, doutorou-se em Bioquímica pela USP e ingressou na área de Biologia Molecular, Genética e Genoma. A professora Marina nos recebeu em sua casa, na tarde do sábado dia 1, e nos contou um pouco sobre ela e sua passagem pela Universidade do Vale do Paraíba..

Porque a Química, Marina?                                                     Marina Pasetto Nóbrega - No começo gostei muito da química só depois é que fui para a área de Biologia Molecular e Bioquímica. A química é fundamental, fiz pelo Instituto de Química da USP.

Ficou na USP por quanto tempo?                                                   – De 1967 até 1997 na pesquisa e no ensino de 1989 a 1997. Tive problemas na Universidade quando defendi uma secretária que havia sido assediada sexualmente, em 1994. O meu caso foi extremamente discutido, foi para o Conselho Universitário onde fui vencedora em primeira instância, sofri retaliações por estar, como quase metade dos docentes da USP de então, em contrato precário.

Mas como veio parar em São José dos Campos?                            – Eu vim por causa do Isaias Raw que me indicou o professor Teixeira Jr. que foi do FUNBEC. Conheci a UNIVAP em 1998, me contrataram imediatamente na referência 11, dois anos depois me passaram para a 17 pela minha atividade nos dois anos anteriores. Naquele momento, a Instituição necessitava de professores doutores qualificados para aprovar cursos de pós-graduação (PG).

Como foi sua a vinda?                                                                  – Eu e o meu marido, o Prof. Francisco Nóbrega, transferimos da USP para cá um laboratório extremamente complexo, construído durante trinta anos de trabalho em Bioquímica e Biologia Molecular. A USP emprestou o laboratório à UNIVAP, um gesto bonito, pois a legislação permitia que a USP não deixasse sair nada. O nosso grupo já havia iniciado os trabalhos com o genoma da bactéria patogênica Xylella, um projeto que ficou famoso e que deu capa na revista científica Nature.

E a sua adaptação em São José dos Campos?                                – A cidade é maravilhosa, geograficamente bem situada, a 50 minutos da Capital, das praias e das montanhas... Deixei os meus filhos jovens em São Paulo e viemos trabalhar no Vale do Paraíba. Foi muito interessante e muito rico. Quando da nossa entrada, o reitor Gargione nos deu o suporte necessário. Acho que éramos uma grife que dava destaque à Universidade. Muitas notícias do projeto Genoma saiam nos jornais, recebemos prêmios do Governo. Entendo agora que fomos usados pela UNIVAP.

Como era o relacionamento com o reitor ?                                              - Nos primeiros anos, tínhamos contato apenas quando havia algum problema causado pelo Diretor do Instituto e o vice-reitor Teixeira Jr nos ajudava a no acesso ao reitor para solucionar o problema. Na maior parte do tempo ficávamos como estivéssemos num redoma, dando aulas, trabalhando na pesquisa e orientando alunos. O nosso laboratório era ponto de parada  para as comissões e personalidades que visitavam a UNIVAP. Como apareciam muitos grupos de alunos para nos visitar, e o laboratório é de nível de biossegurança 2, tivemos que montar uma estratégia para atender as visitas, uma apresentação virtual do laboratório, no saguão, em frente, para garantir a segurança das pessoas.

Marina Pasetto Nóbrega - Foto: Ricardo FariaQuando começaram os problemas?                             - Com o passar dos anos, o reitor foi aumentando os controles e a burocracia. A presença passou da lista assinada pelos docentes para um cartão eletrônico que devia ser registrado 4 vezes por dia, na entrada, na saída para almoço, no retorno e na saída final, com quatro horas exatas de trabalho. Depois, foi implantado um sistema de identificação digital, como se o IPD fosse um centro de pesquisa militar secreta.

Notamos que os nossos privilégios eram negados aos demais docentes. As aulas eram atribuídas sem discussão, com disciplinas fora da área de especialização dos docentes. A coordenação de cursos era imposta sem possibilidade de recusa e sem pagamento extra.  Isso nos incomodava bastante.

A promessa inicial que o reitor nos fez de que a UNIVAP seria uma universidade pequena mas de alta qualidade foi mentirosa.  Não gostava do trabalho noturno, sempre preocupado com supostas demandas trabalhistas. Economizava cortando a iluminação à noite em torno do IPD, achar o carro na saída era um problema.

O Nóbrega, meu marido, uma vez tropeçou numa guia e caiu. Reclamei e o Gargione me mandou trazer uma lanterna... Se trabalhava mais do que 8 horas tudo bem. Se faltassem alguns minutos vinha o desconto. Nunca entendeu que um chefe de pesquisa tem que fazer contatos fora, ir à USP em São Paulo ou em  Ribeirão Preto.

Como começou o ataque ao grupo do Genoma?                                     - Foi gradual, começou com a saída do Prof. Rafael Santos, que recusou ser diretor da Computação sem autonomia para fazer as reformas necessárias. Uma crise temporária, resolvida pela vinda, infelizmente curta, do Prof. Diógenes e tivemos que convencer novamente o reitor que era preciso contratar um bioinformata, desta vez, o mestre pela USP Luciano Bernardes.

Uma colaboradora, vinda da UNICAMP, a Dra. Luciana Paulino, geneticista, teve problemas imediatos ao recusar dar aula de metodologia da pesquisa para alunos de direito. O reitor nunca a perdoou e não lhe concedeu afastamento sem remuneração quando ela conseguiu um pós-doutoramento em Nova Iorque. 

Mais constrangimento era notar que nos atribuía cerca de 2 a 3 disciplinas por semestre, em nossa área de especialização, enquanto os demais recebiam 15 com mais de 20 horas aula semanais, algo incompatível para um pesquisador ativo, tornando impossível fazer um trabalho de bom nível e formar alunos capazes. Um relato crítico de um grupo avaliador da FAPESP foi trancado na gaveta pelo reitor e ninguém ficou sabendo das recomendações.

Manipulação e perseguição                                                          – Há indicações de que a administração estimula estudantes a provocar os docentes para os desestabilizar. Eu mesma fui parar no Procon quando um estudante bolsista achou que não deveria ser reprovado por haver pago o curso. Tenho critério de avaliação, não é só pagar, tem que saber para passar. De qualquer maneira, me aborreci. Tive que me entender com o Procon, mandar vários papéis etc.

E depois?                                                                                                         - As coisas foram ficando mais difíceis, apesar das muitas conversas com o Gargione. Aconteceu algo inusitado numa  instituição de nível superior: o aluno da UNIVAP, de graduação, pagante, não podia entrar no Instituto para assistir os seminários. Nem o cartaz de divulgação podia aparecer junto ao balcão de entrada. Tivemos que levar os seminários para fora do IPD.

Sempre gerenciei os seminários desde que entrei na Univap. Trouxemos para os alunos interessados de pós-graduação e de graduação muitos dos nossos maiores cientistas como Isaias Raw, Ricardo Brentani, Erney Camargo, Ohara Augusto, Paulo Arruda, Alexander Tzagoloff, Andrew Simpson, Fernando Reinach, Fernando Perez, Ladislau Dowbor, Eduardo Suplicy e tantos outros num total de mais de 150 palestras. Tive que manter os seminários na raça, já que o reitor parou de fornecer uma diária ao conferencista, tínhamos que tirar da nossa verba de pesquisa FAPESP.

Ele forneceu o transporte e depois apresentou a lista dos seminários por aí. Ouvi gente da FAPESP elogiar a UNIVAP pela qualidade dos conferencistas sem saber que a administração não dava condições para que alunos e professores participassem. Em geral eram os nossos alunos e bolsistas associados que enchiam parcialmente a sala com poucos externos da pós-graduação, e aqui e ali um docente.

Havia muita pressão contra a participação docente e contato conosco.  No início de 2006, fizemos contatos para sair da UNIVAP. Discordávamos da administração em aspectos muito importantes como o centralismo excessivo e ditatorial do reitor, o descaso com a graduação, a propaganda enganosa com a pós-graduação ("excelência sem limites").

Você disse que a gota d'água foi o fechamento do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento (IPD). Pode explicar melhor ?                - A partir de maio de 2006, a coisa começou a piorar rapidamente. Na 6a feira, dia 5 de maio, logo depois do almoço o reitor fechou o IPD para os colaboradores externos. Foi um caos, com várias dezenas deles barrados dos laboratórios mais ativos.

Tínhamos células sincronizadas a processar, trabalho de uma semana comprometido. Fui conversar e o Gargione esbravejou: “O Instituto é meu, faço o que eu quero.” Argumentei que não estava disputando a autoridade dele - estou dizendo que o senhor não tem o direito de destruir experimentos de mais de vinte dias e todo o trabalho de uma equipe -  que era dinheiro público, aí o Teixeira Jr. me puxou e me levou embora. A partir daí,  perdi totalmente a sincronia de trabalho no laboratório.

A desculpa foi o recadastramento, que poderia ser feito facilmente dando um prazo aos vários laboratórios. Para mostrar que não dava à mínima aos nossos argumentos, ainda mandou fechar o IPD nos dias 12/05, 22/05, 17/07 e 31/07, uma segunda-feira. Acabou liberando, mas a notícia já havia se espalhado e o pessoal não apareceu. Foi um espetáculo lamentável de autoritarismo, tão sem finalidade e contraproducente que imaginamos que havia algo de perturbação mental, muito comum após duas angioplastias. Curiosamente ninguém tinha coragem para dizer que ele estava errado, só nós do Genoma. Toda a cúpula à sua volta, inclusive o Prof. Teixeira Jr., o apoiava, algo assustador.

Habilmente ele minou a estabilidade do laboratório, passamos a recusar novos estudantes, alguns que estagiavam sentiram a pressão e se retiraram, trabalhar no Genoma ficou mal visto já que afrontávamos o todo poderoso reitor. Certos docentes da UNIVAP têm tanto medo que sequer aceitavam o convite para dar seminário na série que eu organizava para a PG em Ciências Biológicas.

No fim do primeiro semestre de 2006 ele acabou com nossa bioinformática ao demitir o Prof. Luciano Bernardes. Em seguida, dobrou a carga didática do Prof. Francisco Nóbrega. Em vez de responder ao pedido dele de cortar duas disciplinas, enviou um aviso de falta grave que poderia levar à demissão por justa causa.  No início de 2007 não aceitou manter a atribuição dos primeiros anos e o Dr. Nóbrega pediu para ficar em tempo parcial, só com pesquisa e pós-graduação.O reitor mandou instalar câmeras por todo o Instituto, uma delas voltada para a porta de entrada do Genoma. Isso fez com que os docentes que precisavam usar equipamentos desistissem ou enviassem estudantes, alguns docentes eram alertados a não conversar conosco.

E a demissão?                                                                             - Ele foi nos destruindo, e agora me colocou na rua. Na manhã do dia 13 de novembro, eu estava no laboratório quando o Maurício, chefe do departamento pessoal, chegou com uma folha onde estava escrito: “Estamos rescindindo o seu contrato a partir de já.” Eu perguntei: você está louco, o que eu faço com tudo isso aqui? Tive que telefonar para o meu advogado, e assinei o recebimento da demissão.

O Maurício me informou que eu estava sendo demitida sem aviso prévio. O mais estranho é que ele sabe que estamos indo para a UNESP, apenas aguardamos que as instalações do laboratório fiquem prontas. Não precisava gastar o dinheiro da UNIVAP. Talvez seja uma retaliação, pois não assinei o abaixo-assinado de auto elogio que ele mandou circular pela Universidade. Os que assinaram ficaram revoltados, mas não podiam correr o risco de contrariar o monarca absoluto e perder o emprego. Ao me despedir, me excluir pela força, desfere mais um golpe no atinge o laboratório.

E depois?                                                                                                         - Tudo aconteceu no dia 13 de novembro, o dia 15 foi feriado e tive que comunicar à FAPESP pois tenho projetos em andamento e tomar outras providências. Na quarta feira, dia 19, fui informada oralmente de que não poderia mais entrar no laboratório. Não recebi nada por escrito. 

Entrada proibida                                                                          - Apesar da proibição de acesso ao laboratório, ainda entrava no campus até que fui informada na portaria de baixo que estava proibida. Indaguei  de quem tinha partido a orientação e os funcionários me pediram que fosse à portaria central. Lá me confirmaram, só ignoravam de quem tinha sido a ordem. Ligaram para o prefeito da Universidade que disse não ter partido dele e sim da reitoria. Fui até lá e o Teixeira Jr. falou que nada tinha a ver, que era contra, pediu por favor para que não o envolvesse.

Durante o tempo, em torno de duas horas, permaneci no campus acompanhada sempre pelos guardas com motocicletas e nada da ordem por escrito. Precisava de pelo menos duas testemunhas para registrar a proibição e ninguém quis assinar. Estavam todos com muito medo. Tentei falar com algumas pessoas, mas nenhuma atendeu, os telefones estavam desligados ou haviam saído.Aí desisti e fui embora.

E agora?                                                                                     - Tentamos uma autorização de entrada para quem não tem vínculo com a universidade concedida para mais de 100 pessoas e ele não respondeu. Solicitei então a entrada por um dia para retirar objetos pessoais e documentos para trabalhar em casa e aguardamos.

Meus ultracongeladores armazenam clones do projeto genoma do câncer e genoma do fungo patogênico Paracoccidioides brasiliensis que é um patrimônio da comunidade científica, da humanidade, que foi transferido para a UNESP pela FAPESP. O laboratório é minha responsabilidade, alem disso, por um capricho autoritário, o meu e-mail institucional foi desconectado

Fale com a Dra. Marina Pasetto Nóbrega: maripnobrega@gmail.com

NA - Tentamos e não conseguimos fazer contato com o reitor Batista Gargione até o fechamento dessa edição - www.univap.br

4Saiba mais sobre as críticas à Univap

(*) Acassio Costa é advogado - acassio@vejosaojose.com.br


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