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Quando
a Professora Marina Pasetto Nóbrega, 63, reagiu ao
fechamento do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento (IPD),
na UNIVAP, assistiu o reitor Batista Gargione Filho bater no
peito e esbravejar: “Esse instituto é meu, quem manda aqui
sou eu.” A professora não é de suportar humilhação, ainda
mais por ser uma doutora reconhecida mundialmente com mais
de novecentas citações internacionais nos trabalhos
Nascida
em Araraquara, no interior paulista, ela foi criada na
Capital, no tradicional bairro do Ipiranga, onde a mãe era
professora. Fez o curso primário numa escola pública, o
ginásio no Colégio Maria Imaculada e Química Industrial no
Colégio Oswaldo Cruz. Perdeu o exame no vestibular da USP em
Química por causa de uma chuva, foi para Araraquara onde fez
prova em segunda chamada, passou e mais tarde foi
transferida para a USP. Bacharelou-se com licenciatura em
Química, doutorou-se em Bioquímica pela USP e ingressou na
área de Biologia Molecular, Genética e Genoma. A professora
Marina nos recebeu em sua casa, na tarde do sábado dia 1, e
nos contou um pouco sobre ela e sua passagem pela
Universidade do Vale do Paraíba..
Porque
a Química, Marina?
Marina
Pasetto Nóbrega - No começo gostei muito da química só
depois é que fui para a área de Biologia Molecular e
Bioquímica. A química é fundamental, fiz pelo Instituto de
Química da USP.
Ficou
na USP por quanto tempo?
– De 1967 até 1997 na pesquisa e no ensino de 1989 a 1997.
Tive problemas na Universidade quando defendi uma secretária
que havia sido assediada sexualmente, em 1994. O meu caso
foi extremamente discutido, foi para o Conselho
Universitário onde fui vencedora em primeira instância,
sofri retaliações por estar, como quase metade dos docentes
da USP de então, em contrato precário.
Mas
como veio parar em São José dos Campos?
– Eu vim por causa do Isaias Raw que me indicou o professor
Teixeira Jr. que foi do FUNBEC. Conheci a UNIVAP em 1998, me
contrataram imediatamente na referência 11, dois anos depois
me passaram para a 17 pela minha atividade nos dois anos
anteriores. Naquele momento, a Instituição necessitava de
professores doutores qualificados para aprovar cursos de
pós-graduação (PG).
Como
foi sua a vinda?
– Eu e o meu marido, o Prof. Francisco Nóbrega, transferimos
da USP para cá um laboratório extremamente complexo,
construído durante trinta anos de trabalho em Bioquímica e
Biologia Molecular. A USP emprestou o laboratório à UNIVAP,
um gesto bonito, pois a legislação permitia que a USP não
deixasse sair nada. O nosso grupo já havia iniciado os
trabalhos com o genoma da bactéria patogênica Xylella, um
projeto que ficou famoso e que deu capa na revista
científica Nature.
E a
sua adaptação em São José dos Campos?
– A cidade é maravilhosa, geograficamente bem situada, a 50
minutos da Capital, das praias e das montanhas... Deixei os
meus filhos jovens em São Paulo e viemos trabalhar no Vale
do Paraíba. Foi muito interessante e muito rico. Quando da
nossa entrada, o reitor Gargione nos deu o suporte
necessário. Acho que éramos uma grife que dava destaque à
Universidade. Muitas notícias do projeto Genoma saiam nos
jornais, recebemos prêmios do Governo. Entendo agora que
fomos usados pela UNIVAP.
Como
era o relacionamento com o reitor ?
-
Nos
primeiros anos, tínhamos contato apenas quando havia algum
problema causado pelo Diretor do Instituto e o vice-reitor
Teixeira Jr nos ajudava a no acesso ao reitor para
solucionar o problema. Na maior parte do tempo ficávamos
como estivéssemos num redoma, dando aulas, trabalhando na
pesquisa e orientando alunos. O nosso laboratório era ponto
de parada para as comissões e personalidades que visitavam
a UNIVAP. Como apareciam muitos grupos de alunos para nos
visitar, e o laboratório é de nível de biossegurança 2,
tivemos que montar uma estratégia para atender as visitas,
uma apresentação virtual do laboratório, no saguão, em
frente, para garantir a segurança das pessoas.
Quando
começaram os problemas?
-
Com o
passar dos anos, o reitor foi aumentando os controles e a
burocracia. A presença passou da lista assinada pelos
docentes para um cartão eletrônico que devia ser registrado
4 vezes por dia, na entrada, na saída para almoço, no
retorno e na saída final, com quatro horas exatas de
trabalho. Depois, foi implantado um sistema de identificação
digital, como se o IPD fosse um centro de pesquisa
militar secreta.
Notamos que os nossos privilégios eram negados aos demais
docentes. As aulas eram atribuídas sem discussão, com
disciplinas fora da área de especialização dos docentes. A
coordenação de cursos era imposta sem possibilidade de
recusa e sem pagamento extra. Isso nos incomodava bastante.
A
promessa inicial que o reitor nos fez de que a UNIVAP seria
uma universidade pequena mas de alta qualidade foi
mentirosa. Não gostava do trabalho noturno, sempre
preocupado com supostas demandas trabalhistas. Economizava
cortando a iluminação à noite em torno do IPD, achar o carro
na saída era um problema.
O
Nóbrega, meu marido, uma vez tropeçou numa guia e caiu.
Reclamei e o Gargione me mandou trazer uma lanterna... Se
trabalhava mais do que 8 horas tudo bem. Se faltassem alguns
minutos vinha o desconto. Nunca entendeu que um chefe de
pesquisa tem que fazer contatos fora, ir à USP em São Paulo
ou em Ribeirão Preto.
Como
começou o ataque ao grupo do Genoma?
-
Foi
gradual, começou com a saída do Prof. Rafael Santos, que
recusou ser diretor da Computação sem autonomia para fazer
as reformas necessárias. Uma crise temporária, resolvida
pela vinda, infelizmente curta, do Prof. Diógenes e tivemos
que convencer novamente o reitor que era preciso contratar
um bioinformata, desta vez, o mestre pela USP Luciano
Bernardes.
Uma
colaboradora, vinda da UNICAMP, a Dra. Luciana Paulino,
geneticista, teve problemas imediatos ao recusar dar aula de
metodologia da pesquisa para alunos de direito. O reitor
nunca a perdoou e não lhe concedeu afastamento sem
remuneração quando ela conseguiu um pós-doutoramento em Nova
Iorque.
Mais
constrangimento era notar que nos atribuía cerca de 2 a 3
disciplinas por semestre, em nossa área de especialização,
enquanto os demais recebiam 15 com mais de 20 horas aula
semanais, algo incompatível para um pesquisador ativo,
tornando impossível fazer um trabalho de bom nível e formar
alunos capazes. Um relato crítico de um grupo avaliador da
FAPESP foi trancado na gaveta pelo reitor e ninguém ficou
sabendo das recomendações.
Manipulação e perseguição
– Há indicações de que a administração estimula estudantes a
provocar os docentes para os desestabilizar. Eu mesma fui
parar no Procon quando um estudante bolsista achou que não
deveria ser reprovado por haver pago o curso. Tenho
critério de avaliação, não é só pagar, tem que saber para
passar. De qualquer maneira, me aborreci. Tive que me
entender com o Procon, mandar vários papéis etc.
E
depois?
-
As
coisas foram ficando mais difíceis, apesar das muitas
conversas com o Gargione. Aconteceu algo inusitado numa
instituição de nível superior: o aluno da UNIVAP, de
graduação, pagante, não podia entrar no Instituto para
assistir os seminários. Nem o cartaz de divulgação podia
aparecer junto ao balcão de entrada. Tivemos que levar os
seminários para fora do IPD.
Sempre
gerenciei os seminários desde que entrei na Univap.
Trouxemos para os alunos interessados de pós-graduação e de
graduação muitos dos nossos maiores cientistas como Isaias
Raw, Ricardo Brentani, Erney Camargo, Ohara Augusto, Paulo
Arruda, Alexander Tzagoloff, Andrew Simpson, Fernando
Reinach, Fernando Perez, Ladislau Dowbor, Eduardo Suplicy e
tantos outros num total de mais de 150 palestras. Tive que
manter os seminários na raça, já que o reitor parou de
fornecer uma diária ao conferencista, tínhamos que tirar da
nossa verba de pesquisa FAPESP.
Ele
forneceu o transporte e depois apresentou a lista dos
seminários por aí. Ouvi gente da FAPESP elogiar a UNIVAP
pela qualidade dos conferencistas sem saber que a
administração não dava condições para que alunos e
professores participassem. Em geral eram os nossos alunos e
bolsistas associados que enchiam parcialmente a sala com
poucos externos da pós-graduação, e aqui e ali um docente.
Havia
muita pressão contra a participação docente e contato
conosco. No início de 2006, fizemos contatos para sair da
UNIVAP. Discordávamos da administração em aspectos muito
importantes como o centralismo excessivo e ditatorial do
reitor, o descaso com a graduação, a propaganda enganosa com
a pós-graduação ("excelência sem limites").
Você
disse que a gota d'água foi o fechamento do Instituto de
Pesquisa e Desenvolvimento (IPD). Pode explicar melhor ?
-
A
partir de maio de 2006, a coisa começou a piorar
rapidamente. Na 6a feira, dia 5 de maio, logo depois do
almoço o reitor fechou o IPD para os colaboradores externos.
Foi um caos, com várias dezenas deles barrados dos
laboratórios mais ativos.
Tínhamos células sincronizadas a processar, trabalho de uma
semana comprometido. Fui conversar e o Gargione esbravejou:
“O Instituto é meu, faço o que eu quero.” Argumentei que não
estava disputando a autoridade dele - estou dizendo que o
senhor não tem o direito de destruir experimentos de mais de
vinte dias e todo o trabalho de uma equipe - que era
dinheiro público, aí o Teixeira Jr. me puxou e me levou
embora. A partir daí, perdi totalmente a sincronia de
trabalho no laboratório.
A
desculpa foi o recadastramento, que poderia ser feito
facilmente dando um prazo aos vários laboratórios. Para
mostrar que não dava à mínima aos nossos argumentos, ainda
mandou fechar o IPD nos dias 12/05, 22/05, 17/07 e 31/07,
uma segunda-feira. Acabou liberando, mas a notícia já havia
se espalhado e o pessoal não apareceu. Foi um espetáculo
lamentável de autoritarismo, tão sem finalidade e
contraproducente que imaginamos que havia algo de
perturbação mental, muito comum após duas angioplastias.
Curiosamente ninguém tinha coragem para dizer que ele estava
errado, só nós do Genoma. Toda a cúpula à sua volta,
inclusive o Prof. Teixeira Jr., o apoiava, algo assustador.
Habilmente ele minou a estabilidade do laboratório, passamos
a recusar novos estudantes, alguns que estagiavam sentiram a
pressão e se retiraram, trabalhar no Genoma ficou mal visto
já que afrontávamos o todo poderoso reitor. Certos docentes
da UNIVAP têm tanto medo que sequer aceitavam o convite para
dar seminário na série que eu organizava para a PG em
Ciências Biológicas.
No fim
do primeiro semestre de 2006 ele acabou com nossa
bioinformática ao demitir o Prof. Luciano Bernardes. Em
seguida, dobrou a carga didática do Prof. Francisco Nóbrega.
Em vez de responder ao pedido dele de cortar duas
disciplinas, enviou um aviso de falta grave que poderia
levar à demissão por justa causa. No início de 2007 não
aceitou manter a atribuição dos primeiros anos e o Dr.
Nóbrega pediu para ficar em tempo parcial, só com pesquisa e
pós-graduação.O reitor mandou instalar câmeras por todo o
Instituto, uma delas voltada para a porta de entrada do
Genoma. Isso fez com que os docentes que precisavam usar
equipamentos desistissem ou enviassem estudantes, alguns
docentes eram alertados a não conversar conosco.
E a
demissão?
- Ele foi nos destruindo, e agora me colocou na rua. Na
manhã do dia 13 de novembro, eu estava no laboratório quando
o Maurício, chefe do departamento pessoal, chegou com uma
folha onde estava escrito: “Estamos rescindindo o seu
contrato a partir de já.” Eu perguntei: você está louco, o
que eu faço com tudo isso aqui? Tive que telefonar para o
meu advogado, e assinei o recebimento da demissão.
O
Maurício me informou que eu estava sendo demitida sem aviso
prévio. O mais estranho é que ele sabe que estamos indo para
a UNESP, apenas aguardamos que as instalações do laboratório
fiquem prontas. Não precisava gastar o dinheiro da UNIVAP.
Talvez seja uma retaliação, pois não assinei o
abaixo-assinado de auto elogio que ele mandou circular pela
Universidade. Os que assinaram ficaram revoltados, mas não
podiam correr o risco de contrariar o monarca absoluto e
perder o emprego. Ao me despedir, me excluir
pela força, desfere mais um golpe no atinge o
laboratório.
E
depois?
-
Tudo
aconteceu no dia 13 de novembro, o dia 15 foi feriado e tive
que comunicar à FAPESP pois tenho projetos em andamento e
tomar outras providências. Na quarta feira, dia 19, fui
informada oralmente de que não poderia mais entrar no
laboratório. Não recebi nada por escrito.
Entrada proibida
- Apesar da proibição de acesso ao laboratório, ainda
entrava no campus até que fui informada na portaria de baixo
que estava proibida. Indaguei de quem tinha partido a
orientação e os funcionários me pediram que fosse à portaria
central. Lá me confirmaram, só ignoravam de quem tinha sido
a ordem. Ligaram para o prefeito da Universidade que disse
não ter partido dele e sim da reitoria. Fui até lá e o
Teixeira Jr. falou que nada tinha a ver, que era contra,
pediu por favor para que não o envolvesse.
Durante o tempo, em torno de duas horas, permaneci no campus
acompanhada sempre pelos guardas com motocicletas e nada da
ordem por escrito. Precisava de pelo menos duas testemunhas
para registrar a proibição e ninguém quis assinar. Estavam
todos com muito medo. Tentei falar com algumas pessoas, mas
nenhuma atendeu, os telefones estavam desligados ou haviam
saído.Aí desisti e fui embora.
E
agora?
- Tentamos uma autorização de entrada para quem não tem
vínculo com a universidade concedida para mais de 100
pessoas e ele não respondeu. Solicitei então a entrada por
um dia para retirar objetos pessoais e documentos para
trabalhar em casa e aguardamos.
Meus
ultracongeladores armazenam clones do projeto genoma do
câncer e genoma do fungo patogênico Paracoccidioides
brasiliensis que é um patrimônio da comunidade
científica, da humanidade, que foi transferido para a UNESP
pela FAPESP. O laboratório é minha responsabilidade, alem
disso, por um capricho autoritário, o meu e-mail
institucional foi desconectado
Fale
com a Dra. Marina Pasetto Nóbrega:
maripnobrega@gmail.com
NA
- Tentamos e não conseguimos fazer contato com o reitor Batista Gargione até o fechamento dessa edição -
www.univap.br
4Saiba
mais sobre as críticas à Univap
(*) Acassio Costa é advogado
-
acassio@vejosaojose.com.br |