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  21.12.2007 00h.10  
  Darwin Bassi denuncia Gargione
O Professor Darwin Bassi e outros vinte renomados professores assinaram um documento enviado ao ministro da Educação, Fernando Haddad, em 2 de abril passado, com várias denúncias contra o reitor da UNIVAP, Baptista Gargione Filho.

Acassio Costa (*)

 

Darwin Bassi - Foto: Ricardo Faria

Bassi, 78, nasceu em Marília, SP, onde permaneceu até 1950 quando saiu para estudar física na Universidade de São Paulo. Ainda estudante, em 1952, foi convidado para dar aulas no recém fundado ITA; aceitou e veio para São José dos Campos onde reside. Entre as idéias que defende está a criação de uma Universidade Federal para o Vale do Paraíba.

Professor Darwin como era o ITA naquele tempo? – O Instituto tinha dois anos, se  dava muita importância ao ensino, para cada grupo de oito alunos havia um professor no laboratório. Um professor da USP me recomendou e, com alguns colegas, fomos contratados ainda no segundo ano da faculdade. O ITA me deu liberdade para lecionar e terminar o curso dois anos depois. Casei-me com uma professora da USP e ela veio também para cá. A minha carreira foi feita lecionando no ITA. Fiz mestrado nos Estados Unidos durante dois anos, ao voltar, em 1972, fiz doutorado na USP.

Como era São José dos Campos?                                                  – Era uma cidade pequena com muitos sanatórios, a gente ia de bicicleta para o centro, e se recomendava aos alunos para não tomar nem café nos bares, era o medo da tuberculose.

O começo do ITA.                                                                        – Ele foi criado diferente das instituições superiores do Brasil, onde o professor tomava conta de uma cadeira, virava catedrático e ficava até  se aposentar ou morrer. Era comum arrumar a nomeação do filho ou do genro para o lugar. No ITA nunca foi assim, seguimos o padrão americano com vários professores titulares da mesma matéria; - foi o início de uma nova carreira universitária no Brasil.

Meu chefe de departamento era o Professor Paulus Aulus Pompéia, depois o Professor Richard Robert Wallauschek, um grande mestre que morreu num acidente na via Dutra. O Professor Crispim estava lá e também os professores Rebello, Gaspar Ricardo, grandes nomes nacionais que faziam do ITA uma escola de alto padrão, como é até hoje, basta ver os 7.100 candidatos para 120 vagas neste vestibular.

Até quando ficou no ITA?                                                              – Me aposentei em 1994. Durante esse período, também fui diretor, em 1976, da Faculdade de Engenharia de Guaratinguetá. A Reitoria do ITA permitia que déssemos aulas à noite em outras escolas, foi quando a UNESP foi criada, pois, antes eram apenas institutos isolados por todo o Estado. O primeiro reitor da Universidade Estadual Paulista foi o Professor Luiz Martins, fui o primeiro presidente do conselho da Vunesp que faz os exames vestibulares da UNESP, fiquei por seis anos em Guaratinguetá afastado do ITA.

E sobre o atual reitor da UNIVAP?                                                  Darwin Bassi - Foto: Ricardo Faria– O Professor Baptista Gargione é de Presidente Prudente, SP,  estudou física na USP onde se formou alguns anos depois de mim. Havia vaga no ITA e ele foi contratado, trabalhamos juntos durante muito tempo. Naquela época, nos alternávamos, as vezes era eu o chefe do departamento e outras era ele. Ele sempre foi de dar murro na mesa, de maltratar as pessoas, gritava e fazia a secretária chorar, como não tinha funções consideradas altas, a gente dava um grito e ele calava a boca.

Ele também trabalhou em Guaratinguetá?                                     – Ele tirou uma licença do ITA, fez concurso em Guaratinguetá onde eu era o diretor e ingressou como professor, isso em 1978 ou 79. Quando o Joaquim Bevilacqua assumiu a prefeitura de São José dos Campos (1978-82) ele indicou o Baptista Gargione como secretário da educação, Gargione pediu demissão da Faculdade de Engenharia de Guaratinguetá e veio para São José.

E sobre a Faculdade de Direito que se transformou na Universidade do Vale do Paraíba?                                                                     – Eu não acompanhava muito, me parece que um grupo conseguiu a implantação da Faculdade de Direito, dentre eles; Jamil Oliveira Mattar, Neif Mattar de Oliveira, o Professor Custódio, o Dr. Ulisses Bueno de Miranda e outros. O curioso é que o Jamil era aluno na época. Tenho uma cópia da escritura pública de instituição da Fundação Valeparaibana de Ensino, criada em torno da Faculdade de Direito.

E sobre Jamil de Oliveira Mattar?                                                  - Ele esteve à frente da Faculdade de Direito e das outras que foram sendo criadas, organizando uma estrutura didática muito boa. Possuía muito conhecimento e vários professores da USP vieram lecionar aqui em São José, talvez por puro idealismo, porque o salário não era alto, apenas era proporcionado transporte de ida e volta para São Paulo. O Jamil se manteve por algum tempo, depois entrou na Justiça para receber alguns milhões (em moeda da época), alegando ter um crédito junto à Instituição.

A saída de Jamil Mattar                                                                – A situação foi se deteriorando, o Joaquim Bevilacqua, que era prefeito e havia feito o curso de Direito aqui, se dizendo preocupado, manobrou para colocar como vice presidente da Fundação o professor Baptista Gargione; o presidente na época era o advogado Clélio Marcondes. A situação da Fundação se tornou insustentável, pois as dívidas cresciam; os alunos não pagavam, funcionários e professores não recebiam os salários.

O Clélio Marcondes foi praticamente expelido através de uma série de manobras terríveis, pois chegaram a insuflar grupos de alunos que iam à porta da casa dele gritar e ameaçar. Ele me confidenciou recentemente: “Eu não tinha paciência nem saúde para agüentar esse tipo de coisa.” Assim, pediu demissão e Baptista Gargione assumiu a presidência da Fundação e não largou mais.

E como ele atuou?                                                                       – Ele tem muita habilidade. Conseguiu sanear as finanças da Fundação, com recursos do BNDES, a juros baixos (TJLP) e aplicando os saldos de caixa a juros mais altos, foi construindo os prédios que hoje ai estão, sempre através da mesma construtora, sem concorrência pública.

Algo importante                                                                           - Quando ele quis transformar os institutos em universidade, começou a preparar um processo no Ministério da Educação, orientado pelo Professor Jair Candido de Mello, ex reitor do ITA, que já estava há anos na FVE. O procedimento era a nomeação pelo MEC de uma comissão de quatro membros que acompanhava a evolução da instituição, durante dois anos apresentando, a cada três meses, um relatório que era analisado pelo Conselho Nacional de Educação.

Somente depois de aprovado o relatório era fornecido o título de Universidade. Eu era um dos membros dessa Comissão, o presidente foi um professor da Medicina de Lavras, tinha uma professora da UNIP de São Paulo e um professor da Universidade do Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina.

Como era a proposta?                                                                  - Era de fazer uma universidade pequena com bons professores doutores, com grande potencialidade de ensino e de pesquisa. Foi um bom projeto, tanto que, dois anos depois, recomendamos a aprovação. O ministro da educação era o Professor José Goldemberg que havia sido meu professor na USP, sendo o chefe de gabinete do MEC o Professor Antonio de Souza Teixeira Júnior que assumiu a pasta e aprovou a Universidade, em 1992 e depois virou vice-reitor da UNIVAP e lá continua.

Quando o senhor ingressou na UNIVAP?                                                  – O Professor Gargione vinha insistindo comigo para trabalhar com ele na UNIVAP. Quando completei 65 anos, trabalhava no ITA, resolvi fazer outra coisa, como ele propunha montar um laboratório na minha área, algo que não havia no ITA, aceitei a proposta. Ele colocou 40 mil dólares à disposição e em seis meses o laboratório estava montado.

Entrei como pro reitor de pós graduação como o departamento estava numa bagunça terrível, fiz uma triagem e consegui colocar a coisa em ordem. Em seguida, me foi oferecida a direção do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde, aceitei como candidato e me elegeram diretor. Foi implantada uma faculdade de odontologia de primeiro mundo, com o que havia de melhor no país. Foram também contratados excelentes professores, entre eles vários doutores, da UNESP e da USP, e o MEC reconheceu o curso de odontologia.

O que aconteceu depois?                                                              – Começou a sonegação de recursos: não faz isso, não faz aquilo, venceu o meu mandato, ele esperava que eu continuasse, mas eu não quis. Como diretor, não podia fazer nada, pois ter que ficar seis meses na porta da reitoria para conseguir (e sem conseguir) um ventilador de teto, que custa sessenta reais, vendo os professores saindo com as camisas molhadas de suor, não era o meu estilo. Foi um dos fatos. Ele resolveu que três novos cursos deveriam começar em agosto - enfermagem, fisioterapia e terapia ocupacional.

Aleguei que não havia tempo, que seria impossível implantar os cursos de maio à agosto, pois não havia material humano disponível. Eu sou físico embora sabendo administrar, não poderia fazê-lo, havendo necessidade de contratar um coordenador para cada curso e ele concordou. Todavia queria pagar mil reais mensais para uma professora com doutorado que deveria vir de São Paulo duas vezes por semana. O Gargione viajou para a Europa, aproveitei e falei com o vice Reitor que a professora viria por dois mil reais mensais e ele concordou.

Quando o Gargione voltou e soube deu pulos, soltou fogo pelas ventas: “Vocês estão fazendo coisas na minha sombra, eu sai e vocês se aproveitaram para pagar um salário fora do padrão.” Disse ele, e ficou por isso mesmo. No conselho são todos carneiros, todo mundo tem medo do Gargione.

A fisioterapia                                                                               – Eu consegui um professor excelente que organizou o curso, o Professor Ulisses Ervilha, uma pessoa com altura de gigante e alma pura de criança. O Gargione liberou a verba e foram importados equipamentos de última geração da Holanda, da ordem de 200 mil dólares. Depois de tudo pronto e funcionando o Ulisses foi mandado embora, no lugar dele foi colocado um recém formado.

Na odontologia aconteceu a mesma coisa, os professores de alto nível foram todos demitidos. Ele é um cara de pau - numa ocasião eu recebi designação de matéria para lecionar no fim de ano, deveria dar aulas para a Educação Física de Bio Estatística. Aleguei que não podia, não entendo disso, pois não podia enganar os alunos - sabe o que ele respondeu? “Vá lá é dá qualquer coisa pra eles.” Eu tenho um nome e um currículo a zelar e não fui.

No final, contratei dois professores e paguei do meu bolso para que os alunos tivessem as aulas. O Gargione disse: “Faça como você quiser.” Nos meses de setembro, outubro, novembro e uma parte de dezembro tirei do meu salário e paguei os professores. Veja se isso é um reitor? E tem mais, o filho dele tinha uma carga didática e não ia dar aulas, colocava outra pessoa no lugar, em Jacareí. Quando o Professor Élcio Nogueira, que era pro reitor, levantou o caso, ele foi demitido. Ora, tem muito mais coisa.

Como vê esse movimento de professores contra o reitor Baptista Gargione?                                                                                   – Os professores que saíram estão cobertos de razão, os que permanecem é por questão de sobrevivência, precisam do emprego. Como os direitos são pagos pela Fundação, ele demite a torto e direito.

As acusações contra o reitor são sérias, onde o senhor acha que  vai parar isso tudo?                                                                     –  Da forma como ele grita atualmente na UNIVAP, “Isso aqui é meu, quem manda aqui sou eu...” acho que o Gargione não está bem, como não falava com ele amigavelmente desde 1998; me demiti, sai de lá no ano 2000 e movi dois processos contra ele. Não dá para aturar uma pessoa assim.

Na verdade, o Ministério Público tem que determinar o afastamento da diretoria atual e apurar as denúncias. O MEC tem que intervir, através de uma direção de transição, colocar em ordem os estatutos da Entidade que foram mexidos de forma indevida, fazer novas eleições, eleger gente capaz e tocar para frente. Existem pessoas em São José que podem administrar a UNIVAP de forma democrática. Isso tem que ser feito de fora pois, qualquer professor ou funcionário que se posicionar contra o reitor é demitido na hora.

Fale com o professor Darwin Bassi: dbassi@uol.com.br

Segundo o jornal valeparaibano do dia 18 último, “A pró-reitora de Assuntos Jurídicos da Univap (Universidade do Vale do Paraíba), Maria Cristina Goulart Pupio Silva, voltou a negar ontem irregularidades administrativas na instituição e na Fundação Valeparaibana de Ensino. Por meio da assessoria, ela se recusou a responder aos questionamentos encaminhados por e-mail pelo valeparaibano sobre as supostas irregularidades relatadas pelos ex-professores Marina Pasetto Nóbrega, Darwin Bassi e Rodrigo Alvaro Brandão Lopes Martins...”

Na coluna do leitor no mesmo jornal: "“Finalmente alguém denuncia irregularidades na Univap. Fui estudante da instituição e não me conformava, como um reitor conseguia ao mesmo tempo ser criticado por todos, alunos, passando pelos professores, coordenadores, donos das cantinas, guardas, faxineiros e ser eleito por unanimidade e “ad eternum” para o cargo.” Maria Angélica Ribeiro, São José dos Campos, 18.12.07 – www.valeparaibano.com.br

NA- Tentamos por várias vezes manter contato com o reitor Baptista Gargione Filho através de suas assessoras por telefone, por e-mail e não conseguimos.

Saiba mais: Pro reitor aciona Univap - Doutora é demitida da UNIVAP - Mec Avalia Univap - Perseguição na UNIVAP

(*) Acassio Costa é advogado - acassio@vejosaojose.com.br


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