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Não sei, mas tenho a impressão que em nosso
país, e talvez no mundo, a questão ambiental ainda esteja
muito longe de ser entendida e, o que é pior, de ser tratada
com a devida seriedade pelos políticos e pelos
administradores públicos.
Obviamente que existem algumas valiosas e
significativas exceções tentando equilibrar um pouco a
peleja, o que tem sido muito difícil porque a questão
ambiental ainda não é um foco de prioridades nas políticas
públicas. Meio Ambiente não é algo importante para a maioria
das pessoas e os políticos são o reflexo da sociedade.
Ora, se a sociedade não enxerga a importância
da questão ambiental, os políticos certamente não irão se
ater a ela, a não ser os que estão, de fato, preocupados com
a melhoria da qualidade de vida, os quais, há de se convir,
são poucos. É por isso que a bancada dos políticos e
administradores públicos preocupados e efetivamente
envolvidos com a questão ambiental ainda é pequena.
Mas, então, o que fazer? Meio Ambiente é ou
não uma questão de importância significativa para as
comunidades locais e para a sociedade em geral? A resposta a
essa pergunta obviamente é sim. Mas, então qual é a
dificuldade? Por que não se dá a devida importância ao Meio
Ambiente e as questões ambientais?
Tentarei discorrer um pouco sobre o porquê
dessa dificuldade.
Nossa cultura nos levou historicamente ao
hábito de nos envolvermos apenas nas conseqüências das
coisas. Isto é, não temos visão preventiva, nos preocupamos
em resolver os problemas, mas quase nunca desenvolvemos
mecanismos para impedir que eles aconteçam.
O Meio Ambiente, o local onde nos
encontramos, nunca foi motivo de preocupação, pois sempre
entendemos que precisamos fazer coisas, utilizar coisas,
construir coisas, destruir coisas, mas nunca efetivamente
com o local onde as coisas acontecem.
A condição criadora da mão humana, aliada a
capacidade artesã, sua curiosidade e criatividade levaram
nossa espécie a desenvolver possibilidades fantásticas de
modificar coisas da natureza e a natureza das coisas,
criando e destruindo estruturas.
O Homo sapiens é realmente fabuloso em
modificar as coisas, por outro lado, nunca nos apercebemos
que essa nossa capacidade implicava e fomos mexendo no
ambiente a nossa volta e no planeta como um todo.
Construímos, modificamos muito, melhoramos alguns locais,
prejudicamos outros e assim seguimos nossa história
evolutiva.
Nos fizeram acreditar que precisávamos
crescer e multiplicar, que nossa espécie era infinita, que
foi criada a imagem e semelhança de Deus e que a Terra, o
bem maior que Deus nos concedeu, era infinita.
Íamos bem, até que alguém descobriu que não
somos deuses, que tudo é finito, inclusive a Terra e o
homem, ainda que possamos ser semelhantes a Deus. Quando nos
demos conta do que havíamos feito, já tínhamos modificado o
planeta, principalmente, já tínhamos utilizado e até
extinguido recursos naturais e gerado grande quantidade de
resíduos. Os ambientes, quaisquer que tenham sido, se
transformaram muito em função da capacidade modificadora de
nossa espécie. Perdemos o controle e a nossa capacidade
genial precisava ser freada ou nossa espécie caminharia
muito rapidamente para a sua extinção.
Mas, não tem jeito, somos assim mesmo, é a
nossa índole e isso não é bom e nem é mal, é apenas natural.
Isto é, a nossa natureza é essa mesmo e temos que conviver
com isso.
Entretanto, hoje sabemos (temos o
conhecimento) que não podemos continuar modificando as
coisas, utilizando e extinguindo recursos naturais e gerando
resíduos. Nós precisamos utilizar a nossa capacidade
construtora para reverter o quadro e dirigirmos essa nossa
capacidade para trabalharmos em prol da melhoria da
qualidade de vida e do planeta, diminuindo os resíduos,
utilizando menos recursos naturais e principalmente
reproduzindo menos e ocupando menos espaço físico.
Hoje, o que eu acabei de afirmar está claro
para a maioria das pessoas do mundo, porém temos um passivo
ambiental imenso. Então, como é possível reverter o quadro?
Só existe uma maneira: temos que mudar o pensamento do homem
para que ele passe a produzir um novo comportamento e isso
deve ser feito a partir das políticas públicas que orientem
as populações humanas a cuidar e dirigir corretamente os
ambientes (locais), em particular aqueles ambientes onde
estão os próprios homens.
Para começar, devemos determinar aos homens a
verdadeira dimensão planetária da questão ambiental. Ou
seja, meio ambiente não é um “probleminha” aqui ou ali, é
uma questão global que precisa ser tratada a partir desse
viés.
O planeta é um só e nele estamos, organismos
vivos, humanos e não humanos. É fundamental que entendamos
que cada um tem sua devida importância como espécie e como
indivíduo dentro do contexto ecológico natural planetário.
Os políticos e administradores públicos têm que estar
cientes que esse é um fato real e de suma importância para a
humanidade e para o planeta como um todo.
Ao assumir o meio ambiente como questão
global, certos aspectos que eram tratados de forma paliativa
passarão a fundamentais, as prioridades serão outras quando
se evidenciar a importância real do meio ambiente.
Algumas questões, anteriormente relacionadas
com outros setores, quando passarem a ser observadas com
maior profundidade, mais proximidade e interesse ressaltarão
sua origem ambiental, até então despercebida, por conta do
nosso hábito, já citado, de não nos preocuparmos com o
ambiente e nem com a causa originária da questão.
As políticas públicas terão que se
estabelecer no intuito de melhorar a qualidade dos locais
onde as populações vivem, pois só assim se garantirá a
preservação do ambiente e será mantida a qualidade de vida
daquele lugar.
Quero deixar claro que não se trata aqui de
se discutir sobre “plantinhas” ou “bichinhos” a serem
colocados ou defendidos nesse ou naquele aspecto. A idéia
aqui pretendida é do ambiente como um todo, aquele ambiente
em que o homem como espécie está presente e pode se
manifestar, no intuito de melhorar.
Na verdade, o que se deve discutir e propor
são políticas públicas dirigidas à educação ambiental em
primeiro lugar, a partir daí pensar na ocupação do espaço
físico, no saneamento, na saúde, na habitação, na segurança,
na urbanização, na industrialização, no trânsito, na
adequação das praças, nos parques urbanos, nas áreas de
preservação e nas áreas de lazer.
Enfim, o ambiente (local) e sua ocupação
dentro de critérios benéficos a toda população, devem ser as
prioridades nas ações a serem estabelecidas pelos
administradores públicos em todos os níveis de governo. Há
que se ter conhecimento, dimensionamento e planejamento
efetivo do espaço físico para não se cometer as mesmas
loucuras e devaneios do passado.
A partir do local e da educação que se
destine diretamente à maneira correta de ocupar e de
explorar esse local, devem ser estabelecidas todas as
políticas públicas que viabilizem a permanência das
populações humanas atuais e principalmente as populações
vindouras naquele espaço físico.
Cabe lembrar aqui, que hoje ocupamos o
planeta e que certamente temos o objetivo de deixar um mundo
melhor aos nossos filhos, netos, bisnetos... Para que isso
seja possível, precisamos tratar o mundo de maneira a
permitir a sua melhora progressiva. Se não nos preocuparmos
com o ambiente (o local) hoje, não haverá condições de nossa
descendência ocupá-lo amanhã.
Meus amigos, o momento é propício, pois
estamos próximos a mais um pleito eleitoral municipal, cabe
a cada um de nós o compromisso moral de avaliar os nossos
objetivos futuros ao lugar que escolhemos para viver e gerar
nossos filhos. Nas próximas eleições devemos eleger
políticos que, além de pessoas sérias, competentes e bons
administradores públicos, devem também possuir uma visão
generalizada dos problemas de ordem publica e social e,
sobretudo, devem possuir sensibilidade suficiente com as
questões ambientais que devem ser tratadas dentro de
preceitos que enfatizem a qualidade de vida das populações.
É fundamental que os administradores públicos
queiram fazer as coisas certas, nos lugares certos, nos
momentos certos, objetivando o bem comum e não interesses
particulares de grupos sociais ou de alguns indivíduos. A
administração pública tem que ser generalista e visar o
interesse da coletividade, porém é preciso que haja
discernimento e parcimônia por parte dos administradores,
quanto à priorização das atividades a serem desenvolvidas.
Ninguém deve ser eleito pensando em
prestigiar esse ou aquele setor específico. A cidade deve
ser encarada como um todo, a partir que se estabelecem as
necessidades que irão beneficiar esse mesmo todo, ao longo
do tempo.
O desenvolvimento sustentável tão citado
ultimamente só poderá ser alcançado e efetivado dessa
maneira. O pensamento nas gerações futuras tem que deixar de
ser teoria e passar à prática cotidiana. Os novos políticos
e administradores têm que ter ciência desse fato e
responsabilidade de manter essa coerência no exercício
diário da administração pública.
O interesse público coletivo deve ser
priorizado, a qualidade de vida da população como um todo
deve ser a meta, isto deve ser o interesse público maior. Se
não for observado esse preceito, continuaremos no mesmo
marasmo histórico, com algumas ilhas de desenvolvimento e
outras de miséria alternadas dentro de um espaço físico
fundamental, qual seja, a cidade.
Assim, é preciso que nos ocupemos com a
tarefa de eleger gente boa, mas sobretudo, precisamos eleger
gente capaz de discernir e priorizar no interesse maior da
coletividade presente e futura.
A cidade está momentaneamente nossa, não nos
pertence. As populações futuras a herdarão, serão os seus
verdadeiros donos, é neles que devemos pensar quando formos
eleger os novos administradores.
Pensar bem e começar a preparar hoje a cidade
do amanhã, isso só será possível com visão geral na
administração pública, priorização do interesse coletivo e
desenvolvimento sustentável. Se ainda quisermos deixar algo
aos nossos descendentes é melhor que deixemos coisas boas,
que permitam a eles um bom local para viver, isto é, uma
cidade com boa qualidade de vida.
Muito obrigado.
Caçapava,
29 de setembro
de 2008
(*) Luiz
Eduardo Corrêa Lima (52) é Biólogo, Professor, Escritor e
Ambientalista; Professor Titular de Biologia Animal das
Faculdades Integradas Teresa D´Ávila de Lorena; Professor de
Biologia do Ensino Médio da Escola Professora Francisca
Salles Damasco de Caçapava; Membro do Instituto de Estudos
Valeparaibanos (IEV) de Lorena; Membro do Instituto de
Estudos e Proteção Animal (IEPA) de São José dos Campos;
Membro Efetivo e Fundador da Academia Caçapavense de Letras
(ACL); foi Vereador e Presidente da Câmara Municipal de
Caçapava; Vice-Presidente do Comitê das Bacias Hidrográficas
do Paraíba do Sul (CBH-PS); Conselheiro do Conselho Estadual
do Meio Ambiente (CONSEMA) do Estado de São Paulo -
leclima@hotmail.com |