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  23.07.2010  00:55  
 

Animais “Úteis” X Humanos “Inúteis”

Luiz Eduardo Corrêa Lima (*)

 

Nesta semana, mais uma vez, tive a infeliz oportunidade de presenciar, num trabalho que pretensamente deveria ser de Educação Ambiental, uma professora falando com um grupo de alunos de Ensino Fundamental, sobre um assunto que imaginava estar sendo tratado de maneira diferente nas escolas.

Na situação em questão, a professora falava aos alunos sobre os “animais úteis” ao homem, algo lamentável e que, pelo visto, ainda há muita gente pensando, e o que é pior, ensinando isto às crianças.

Historicamente, desde o momento que o ser humano nasce ele é levado a entender que há “animais úteis” e outros não.

Mais tarde, quando a criança entra na escola, lamentavelmente o ensinamento errado é reforçado pelos professores no início de sua formação.

Ora, se alguns animais são considerados úteis, isso implica em que outros sejam inúteis, uma conclusão simples e lógica. Alguns ainda vão mais longe: “já que esses animais são inúteis, então vamos acabar logo com eles”.

Pois é, ao longo do tempo, fizeram isso, trabalharam para destruir e matar os animais considerados “inúteis”, tentando aumentar as populações dos “úteis”.

Por exemplo, historicamente supervalorizamos as galinhas, pois elas fornecem carne e ovos, além de outras coisas de menor destaque e sub-valorizamos os gambás porque não fornecem aparentemente absolutamente nada, e se, por acaso, resolve comer algumas galinhas, a coisa fica feia e desanda de vez. Porque o gambá, além de inútil, passa a ser visto como um inimigo cruel comedor das pobres aves amigas.

O pior, ganha o “status” de “animal nocivo” - muito mal visto, caçado e destruído sem nenhuma justificativa, apenas por ser um gambá.

Considerando que a Educação Ambiental é hoje a expressão de ordem nos projetos educacionais, é inadmissível que ainda existam professores com essa visão errada, passando esse tipo de informação aos seus alunos. E pior ainda quando se está num país de mega-biodiversidade.

Aliás, sempre é bom lembrar que o Brasil é o país que detém a maior biodiversidade do planeta, com cerca de 20% das espécies vivas da Terra. Ou seja, para quem pensa em utilidade dos animais, países como o Brasil têm muito animal inútil.

Essa questão de utilidade dos animais nem de longe pode ser considerada verdadeira e foi por mim abordada num trabalho que publiquei há 13 anos (LIMA, 1997), ao que parece ninguém leu, ou estava muito interessado nesse assunto. De lá para cá nada mudou.

Talvez, naquela época a Educação Ambiental não estivesse na “moda”. Porém, hoje, não dá mais para entender que nas escolas primárias continuem falando em animais úteis e inúteis para as crianças, principalmente quando se enfatiza a necessidade de destaque e apoio à Educação Ambiental.

Naquele artigo, eu já dizia que é preciso mudar essa mentalidade de que os animais são bens da natureza doados por Deus ao homem para sua utilização.

Certamente ninguém leu esse trecho, ou se leu deve ter imaginado que eu era mais um louco blasfemando contra Deus. Não sou contra Deus e nem estou louco. Mas, insisto que devemos abandonar essas afirmações de “animal útil” e de “animal nocivo” o mais rápido possível nas escolas do ensino fundamental.

Assim poderemos produzir homens melhores que respeitem relacionamento com os demais organismos vivos, particularmente os animais, fundamentais ao desenvolvimento e à manutenção da vida no planeta.

Todas as espécies animais e vegetais, sem exceção, são importantes para o planeta. Caso contrário a natureza não as teria selecionado e elas não existiriam.

Essa nossa antiga conceituação sociológica de que existem animais úteis e inúteis precisa ser esquecida e apagada no ensino escolar para que as crianças sejam  esclarecidas e colaborem na preservação dos seres vivos na natureza.

Se existirem entidades biológicas inúteis no planeta, devem ser seres humanos que continuam ignorando a boa relação com os animais.

Referências Bibliográficas: LIMA, L. E. C., 1997. A Educação Ambiental e a Utilidade dos Animais: um Contrassenso Sociológico e Naturalístico, Ângulo, Lorena, (67): 6-8.

Luiz Eduardo Corrêa Lima (53) é (Professor Titular – FATEA/Lorena/SP  Biólogo (Zoólogo) Escritor e Ambientalista; Membro da Academia Caçapavense de Letras, ocupando a Cadeira 25; e da Associação Nacional dos Amigos da Educação, ANAE, Ex-Vereador e Presidente da Câmara Municipal de Caçapava,SP - leclima@hotmail.com


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