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Sou professor há mais de 35
anos e tenho sido muito homenageado por meus alunos ao longo
desses anos. Penso que isso me credencia ou, se não
credencia, pelo menos me mantem no direito de emitir uma
opinião sobre a postura de alguns colegas professores, na
hora de avaliar definitivamente os seus respectivos alunos,
seus colegas de profissão, suas disciplinas específicas e em
última análise a si mesmos.
Acredito que falta bom
senso e de um pouco mais de humildade em alguns colegas
professores, que não só agem incoerentemente, como
aparentemente se sentem numa posição muito acima aos demais
de outras disciplinas, pois realmente assumem uma postura de
superioridade como se fossem os “reis da cocada preta” e
atuam como se avaliar pessoas não fosse algo extremamente
complexo.
Aliás, esses professores
interagem como se as demais coisas e pessoas que atuam no
processo educacional, principalmente os seus alunos e os
demais professores, não existissem e assim não seriam
importantes nos seus respectivos processos de avaliação. A
avaliação é um problema exclusivamente deles e só a eles
cabe o direito sagrado de avaliar e decidir sobre a condição
do aproveitamento de seus alunos e nem mesmo esses alunos
(vítimas ou réus no processo), têm o direito de questionar
os seus respectivos veredictos.
Esses professores
manifestam um absolutismo tal, que chegaria a causar inveja
ao próprio Hitler ou mesmo a envergonhar alguns tiranos e
ditadores de tão indubitável e seguro. Desculpem-me pelo
aparente exagero, mas essas figuras ainda existem e estão
presas a valores passados, mas que ainda são muito fortes no
ranço de determinadas escolas e de alguns setores escolares.
No passado, mormente quando
eu ainda estava cursando o antigo curso primário (Ensino
Fundamental), portanto há cerca de 50 anos atrás, por muitas
vezes ouvi alguns professores dizerem que “Português e
Matemática eram as disciplinas mais importantes dos
conteúdos escolares”. Mas é claro que hoje, a maioria de nós
educadores, sabemos que isso é uma falácia, que além de
antiga, é ilógica e principalmente inverídica. Esse tipo de
afirmativa pode ter feito algum sentido no passado distante,
mas hoje em dia, apesar de ainda existirem alguns defensores
de argumentos desse tipo, cada vez mais isso se desmistifica
e assume a condição de mera tolice.
Embora, algumas vezes, a
gente ainda ouça aquelas coisas assim: “mas o fulano passou
em tudo até mesmo em Matemática e Português, como é que pode
ter ficado só em Biologia?” Como se Biologia fosse menos
importante do que Matemática e Português. Na verdade, hoje
nós professores temos (ou deveríamos ter) consciência de que
não existe disciplina mais ou menos importante, pois todas
são igualmente
importantes e necessárias
na formação do indivíduo em qualquer nível de ensino e mais
particularmente no Ensino Médio, o qual por definição deve
procurar ser o mais eclético e abrangente possível, buscando
dar todos os horizontes e dimensões disponíveis para ampliar
a visão do educando.
Por outro lado, é claro que
a capacidade de recepção, isto é, a resposta dada pelos
alunos às diferentes disciplinas é muito diversificada e
assim nem sempre é a mesma. Aliás, a diversidade de
respostas é de tal dimensão que quase nunca é a mesma.
Alguns alunos têm notoriamente maior facilidade de
entendimento e habilidade com algumas disciplinas e maior
dificuldade e mesmo interesse pessoal com outras.
É preciso que fique claro
na cabeça de todos os professores que essa é a regra e não a
exceção e que esse é um fato natural, independente da
vontade e do desejo pessoal do professor e também do amor
que ele tenha por sua própria disciplina. Pois então, é
nessa mesma diversidade natural de interesses, habilidades,
facilidades e saberes que se desenvolve a capacidade
cognitiva e o conhecimento efetivo de cada aluno, que
produzem a formação final do indivíduo como pessoa educada e
como cidadão inserido na sociedade.
Pois bem, esses fatos aqui
citados me parecem apresentar um modelo mínimo e sensato de
razoabilidade que se espera no processo pedagógico
educacional e que resulta na capacitação intelectual final
do indivíduo aluno e da sua percepção de discrepâncias e da
sua condição de discernimento entre elas, as quais são
características fundamentais na identidade e na
personalidade da pessoa humana na sociedade.
Quaisquer que sejam os
professores e quaisquer que sejam suas disciplinas
específicas, eles deverão estar cientes desses fatos e por
menos que possam concordar, eles devem considerar esses
aspectos como premissas fundamentais na avaliação do aluno.
A escola hoje é democrática e assim, todas as disciplinas
são iguais, todas as pessoas envolvidas na educação e na
formação dos alunos devem atuar ativamente no processo de
avaliação escolar e todas têm o mesmo nível de poder.
Todos nós, seres humanos,
de uma maneira ou de outra, fomos intelectualmente
“produzidos” (formados e desenvolvidos) dentro de um padrão
geral educacional único, independentemente dos locais por
onde tenhamos passado e das demais pessoas com quem tenhamos
vivido e aprendido. Ou seja, o processo que nos moldou foi e
continua sendo quase sempre o mesmo, embora a metodologia
específica aplicada possa ser oriunda de locais e pessoas
distintas.
Assim, o “produto
final”, isto é, o “homem educado”, embora nunca seja o mesmo
indivíduo, sempre será bastante parecido, qualquer que seja
a pessoa humana em questão. Em suma, o processo que nos
organiza e compõe como seres sociais e intelectualmente
ativos na sociedade é bastante similar, embora possam haver
nuances metodológicas distintas, os objetivos a serem
alcançados são os mesmos e assim os resultados finais são
praticamente idênticos.
Por outro lado, como
Biólogo, posso garantir que não existem biologicamente seres
humanos iguais, mesmo sabendo como professor que seguramente
o processo de desenvolvimento educacional dos indivíduos
dentro da sociedade humana, que os leva a formação
sociológica como pessoas é praticamente o mesmo em todos os
grupos sociais humanos. Se minha premissa for verdadeira,
então, somos diferentes na Biologia (Genética), mas somos,
ou deveríamos ser iguais (muito parecidos), na Sociologia,
ou pelo menos na nossa vivência social. Desta maneira, se
não tivermos uma base comportamental oriunda da Genética
muito diferente e certamente não temos, então não podemos
desenvolver comportamentos genéricos muito diferentes,
apesar das diferentes culturas desenvolvidas e adquiridas
pelos grupos sociais humanos.
Desta maneira, somos o
resultado comportamental de nossa Genética e de nossas
vivências sociais como aprendizes de seres humanos. Por
outro lado, por termos sido moldados de maneira semelhante
aos nossos mestres, acabamos por sermos “produzidos” como
cópias genéricas deles.
Quer dizer, do ponto de
vista do comportamento social, cada pessoa humana é, além da
Genética, a somatória intelectual de outras pessoas
produzidas da mesma maneira que ela. Assim, do ponto de
visto do comportamento, por mais diferentes que possamos
ser, de fato, somos sempre muito semelhantes, porque somos
oriundos do mesmo padrão de formação.
Historicamente, há, em
última análise, um conservadorismo muito grande no processo
de socialização do indivíduo humano e eu particularmente
suspeito que isso tenha um significativo valor de
sobrevivência para nossa espécie.
Mas, ainda assim, alguns de
nós têm insistido em querer se manifestar como pessoas
diferentes e fora do padrão humano. Aliás, essas pessoas não
querem apenas ser diferentes. Esses humanos de comportamento
estranho querem ser efetivamente anômalos e entendem que
estão acima (ou abaixo) do bem e do mal e pensam que aquilo
que se propõem a fazer certamente deve ser a coisa mais
importante do mundo. Infelizmente, algumas pessoas têm o dom
de achar que o mundo se resume a elas ou ao interesse delas.
Assim, as coisas mais
importantes para essas pessoas, passam a ter que ser também
as coisas mais importantes para todas as outras pessoas do
planeta. Aqueles indivíduos e atores sociais que estão mais
próximos dessas pessoas são os que mais sofrem com essa
psicose acentuada que elas apresentam. Algumas vezes essa
psicose se acentua a tal ponto que passa a ser uma doença
comportamental grave ou gera uma esquizofrenia profunda e
irreversível. A pior situação acontece quando um desses
indivíduos por acaso é um professor e aí, coitados dos seus
alunos.
Na verdade, todos nós,
seres humanos, em certo sentido, temos um pouco dessa
anomalia e agimos um pouco assim, até por questões naturais
de autodefesa, o que é compreensível e em certo sentido até
benéfico para nós. Entretanto, a maioria
de nós também deveria
lembrar que hoje existem mais de 7 (sete) bilhões de pessoas
no planeta, além de cada um de nós e que esse contingente
populacional cresce assustadoramente. Essa população
planetária imensa, como já foi dito, é constituída por
pessoas diferentes, mas que são formadas no mesmo padrão,
sendo por isso mesmo são muito conservadoras, mas que têm
interesses diversos e obviamente atribuem graus de
importância qualitativa e quantitativa variados em relação
às coisas, por conta de condições diversas e fatores
culturais próprios.
Em suma, nós humanos,
prioritariamente nós professores, precisamos entender de uma
vez por todas, que naquilo que diz respeito às pessoas como
indivíduos e suas respectivas vontades, tudo (absolutamente
tudo) é possível, independentemente do que pensa o restante
da sociedade e por isso mesmo devemos aceitar essa
diversidade como algo inato aos seres humanos,
principalmente quando os humanos em questão são os nossos
alunos. O respeito às pessoas e às suas diferenças
individuais tem que ser prioridade nas atividades e nas
entidades sociais humanas, mormente nas escolas, onde se
busca formar o “homem educado”.
Enfim, profissionalmente
falando, o professor deveria ser um humano que fizesse
exceção óbvia a essa idéia de querer ser superior aos demais
humanos. O professor, aquele indivíduo que trabalha
exatamente com a diversidade humana, não deveria procurar
estar acima dessa diversidade e deveria começar
desconsiderando qualquer tipo de preconceito.
Além disso, ele deveria ser
capaz de tentar minimizar e, se possível, desmistificar essa
situação comportamental conflitante. Mas, infelizmente, nem
sempre é assim. Continuam existindo professores que acham e
por isso mesmo querem e alguns até exigem, que seus alunos
sejam semelhantes entre si e mais, que os alunos reproduzam
exatamente aquilo que esses professores querem. Isto é,
esses professores atribuem um grau muito alto de valor às
suas respectivas pessoas e por extensão às suas respectivas
disciplinas. Quer dizer, além de reforçar o erro, falta
modéstia e humildade a esses professores para ensinar aos
seus respectivos alunos e assim contribuir com a melhoria da
sociedade humana.
Aliás, quero crer que esses
professores não devam ensinar, até porque o ensinamento é um
processo de compreensão mútua que envolve dois lados que
precisam chegar ao mesmo nível de entendimento, ainda que
até em tempos diferentes. Na verdade, esses professores que
se acham “os donos da bola” e querem continuar sendo assim,
não são educadores, embora até possam tentar ser instrutores
e até mesmo domadores de outras pessoas.
Nas aulas desses
professores não há participação, não há democracia, não há
troca com seus alunos e assim, não pode haver ensinamento e
nem aprendizagem. Desta maneira, só pode haver treinamento e
adestramento e embora até possam ser desenvolvidas algumas
coisas no que refere à aprendizagem, na verdade, não se
desenvolve o intelecto humano que é aquilo que gera a
liberdade individual e que se desmembra em criatividade e
evolução cognitiva,
que são os objetivos
maiores e que, na minha maneira pessoal de entender,
constituem o cerne da educação da pessoa humana.
Em última análise, esses
professores, talvez nem devam ser chamados de professores e
muito menos de educadores, porque não fazem educação e não
produzem avanço na condição cognitiva dos seus respectivos
alunos. As características de ser igual, de ser humilde e de
ser participativo são fundamentais aos professores e, a meu
ver, sem elas não pode haver o exercício do magistério. Como
esses professores não possuem e nem utilizam tais
características, eles não se enquadram na condição mínima
para serem considerados professores.
Precisamos banir de nossas
escolas aqueles professores que ainda pensam de maneira
retrógrada e que se intitulam “os gênios do saber, os pais
da matéria mais difícil e mais importante”. Nosso pensamento
como educadores deve ser proativo e deve projetar a melhoria
do conhecimento da humanidade.
Esse pensamento básico deve
buscar a formação de novos homens, com novos ideais e novas
visões. A minha verdade como professor deve ser buscar que o
meu aluno venha a ser melhor do que eu possa ter sido,
porque só assim haverá progresso educacional e esta é a
verdadeira necessidade da sociedade humana. Se não for assim
não haverá evolução no processo educacional e não
caminharemos na direção da liberdade.
Alguém já disse que o
conhecimento é a única e verdadeira forma de liberdade,
então se eu limito o conhecimento de qualquer ser humano com
quem convivo àquilo que eu sei ou àquilo que já está
estabelecido, eu estou cerceando a liberdade das demais
pessoas a minha volta. No que diz respeito à educação, não
progredir é necessariamente sinônimo de regredir, porque o
conhecimento se faz sobre o conhecimento pré-existente e
quando o conhecimento estaciona toda a sociedade anda para
trás e se priva da possibilidade de liberdade maior.
Colegas professores, por
favor, pensem nisso, façam uma reflexão profunda sobre esta
questão e me digam se estou certo ou errado. Eu sei que é
difícil mudar de comportamento, principalmente quando se
está habituado a determinados modelos e condições
“didáticas” e “pedagógicas”, mas se você chegar à conclusão
de que eu possa estar certo no meu pensamento e que você se
enquadra nesse padrão que precisa ser mudado, então faça a
sua tentativa de mudança.
Penso que se houver pelo
menos a possibilidade de investir na tentativa de fazer
diferente essa deverá ser efetuada e creio mesmo que só com
isso já estará havendo algum progresso, porque o aluno
perceberá e isso certamente será bastante benéfico ao
processo educacional. Se você achar que eu estou louco e
devo ser internado, peço, desde já, que me desculpe por
sonhar uma educação melhor, por chamar a atenção para a
doença que está aí, por colocar o dedo na ferida e pedir uma
colaboração maior dos meus colegas, professores como eu.
Mas, se existe uma coisa
que eu tenho certeza é que a escola tem que crescer
independentemente de mim e daquilo que eu penso e espero que
você também pense assim a esse respeito, porque a educação
precisa disso e com certeza a educação é maior que a escola
e que todos nós juntos.
A Educação desse país está
carente de valores e precisa de um choque profundo para
voltar aos trilhos. O que estou propondo, obviamente não é
solução do problema, o qual é grave e muito enraizado em
outras questões, e talvez nem seja uma das únicas
alternativas, mas certamente melhorará o processo
educacional, minimizará conflitos e assim trará bons
resultados à Educação como um todo.
A regra futura deve ser
objetivar sempre em crescer a Educação, porque só assim
estaremos agindo no interesse de uma sociedade humana
planetária cada vez melhor, mais igual e mais justa.
Luiz
Eduardo Corrêa Lima (53) é (Professor Titular – FATEA/Lorena/SP
Biólogo (Zoólogo) Escritor e Ambientalista; Membro da
Academia Caçapavense de Letras, ocupando a Cadeira 25; e da
Associação Nacional dos Amigos da Educação, ANAE,
Ex-Vereador e Presidente da Câmara Municipal de Caçapava,SP
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