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  23.11.2011 09h.30  
 

O Álcool talvez seja a Maior Vítima do Trânsito

 
por Luiz Eduardo Corrêa Lima  

Considerando o que aconteceu até aqui, as chamadas “Leis Secas” (Lei 9294/2006 e Lei 11705/2008), que normalizam alguns aspectos do Código de Trânsito Brasileiro (Lei 9503/1997), não parecem ter cumprido os propósitos para os quais foram estabelecidas.

Isto é, até aqui não conseguiram minimizar o número de motoristas que dirigem alcoolizados, não diminuíram os acidentes no trânsito brasileiro.

Por conta disso, alguns setores mais radicais e mais ignorantes da administração pública relacionada ao trânsito já estão apontando para um endurecimento na Legislação.

Falam em criar uma nova Lei na qual deverá ser proposta a proibição total do uso de bebida alcoólica ao condutor de veículos automotivos, antes de qualquer viagem. É a chamada “Tolerância Zero”, que eu prefiro chamar de “Idiotice 10”.

Entendo que seria mais uma medida totalmente inviável, descabida e infundada, que só traria mais aborrecimentos e prejuízos sociais, criaria mais problemas burocráticos operacionais e não agregaria nenhum valor útil à minimização dos acidentes de trânsito no país.

Antes de continuar, quero deixar bem claro que sou totalmente a favor da “Lei Seca” em vigência e creio que a maioria dos brasileiros também pensa assim.

Acredito que se a Legislação atual não produziu o efeito desejado foi por conta de deficiência na fiscalização ou então porque o verdadeiro problema dos acidentes de trânsito não seja apenas o consumo de álcool por parte dos motoristas.

É claro que motoristas alcoolizados não podem dirigir de maneira nenhuma e, se isso acontecer, eles devem ser presos e ter suas carteiras cassadas para evitar danos a si mesmos e principalmente à sociedade em geral, inclusive produzindo mortes, como tem acontecido.

Entretanto, gostaria de questionar se existem estatísticas que apontam para o fato de que a maioria dos acidentes de trânsito tenha sido provocada por motoristas alcoolizados. Pelo que li num artigo da própria Polícia Rodoviária Federal, os acidentes produzidos por motoristas alcoolizados é cerca de 30% do total.

Vejam bem, motorista alcoolizado não pode dirigir. Mas, os casos de acidentes de trânsito acontecem com pessoas alcoolizadas ou não e segundo as próprias estatísticas documentadas da Polícia Federal, certamente a maioria (cerca de 70%) dos acidentes ocorre com motoristas que não estavam alcoolizados.

Aliás, também não é difícil afirmar que alguns desses motoristas certamente nunca beberam algum tipo de bebida alcoólica em suas vidas.

Isso nos remete ao seguinte: “o álcool é um grande problema para a questão dos acidentes de trânsito no Brasil, porém certamente não é o único problema e nem parece ser o mais importante”.

Precisamos combater o álcool no trânsito, mas também outras coisas que causam muito mais acidentes, como outras drogas, má formação dos motoristas, despreparo dos policiais e agentes de trânsito, péssimas condições das estradas, fiscalização negligente e propinável, além de outros aspectos.

Penso ser ilusão endurecer mais a “Lei Seca”, porque isso não vai acabar nem minimizar o número de acidentes de trânsito.

Aliás, talvez até aumente o número de acidentes, porque os motoristas passarão a ser privados de seus direitos individuais como cidadãos e isso poderá transtorná-los ao volante, a ponto de aumentar o número de acidentes.

Mas, deixemos isso para lá, essa é outra questão que não cabe aqui. É melhor voltarmos ao foco inicial.

Eu quero lamentar o fato de que com a “Tolerância Zero”, nem eu nem ninguém mais vai poder tomar uma lata de cerveja numa parada da viagem, naquele dia de calor muito forte, porque “alguém”, que ninguém sabe quem é, sentado atrás de uma mesa, longe da maioria das pessoas, com uma caneta na mão, resolveu entender que aquela cerveja é um perigo à minha vida e à sociedade.

Nem eu e nem ninguém poderá mais ir jantar com a esposa num restaurante para comemorar o aniversário de casamento e tomar uma taça de vinho, porque, na cabeça daquele sujeito, isso vai deixar ambos alcoolizados.

O padre da paróquia do seu bairro terá que esperar algumas horas (não sei quantas, mas falam que são de 6 a 8 horas), após rezar sua missa, para poder dirigir seu carro, porque um infeliz inventou uma Lei.

Ora, senhores, me desculpem, mas isso é uma palhaçada e volto a dizer, que não levará a nada, porque os acidentes continuarão acontecendo.

Aliás, é bom lembrar, como também é uma palhaçada e desperdício de dinheiro público, esse negócio de usar o bafômetro para identificar embriaguez.

Meus amigos, quando alguém está alcoolizado e embriagado não há necessidade de bafômetro para comprovar a embriaguez, pois a fisionomia da pessoa é mais do que característica e qualquer indivíduo pode constatar a embriaguez sem nenhuma dificuldade. 

Para acabar com os acidentes de trânsito precisa haver uma ação coletiva, que deve passar por uma boa educação de trânsito, para condutores, policiais, agentes e fiscais; melhoria das máquinas (carros); melhoria das vias públicas, em particular das estradas e principalmente a existência de melhores motoristas. A falta dessas coisas com certeza não é culpa do álcool.

Educação para o trânsito e melhores estradas são problemas da União e dos estados. Melhores máquinas são problemas das fábricas na produção e dos proprietários de veículos na manutenção.

Melhores motoristas é um problema das autoescolas, da fiscalização e da legislação, o que também acaba sendo um problema da união e do estado.

Qualquer cidadão que sabe dirigir e que transita nas estradas brasileiras por aí afora, obviamente já observou que de cada 10 motoristas que estão no trânsito, pelo menos 5 (isso porque estou sendo modesto, pois na verdade a proporção é maior) não tem condições nenhuma de estar conduzindo um veículo e transportando vidas humanas.

E isso não acontece porque o sujeito está embriagado, mas sim porque ele não tem noção de direção e de trânsito, além de ser mal educado, correr feito um louco ou atrapalhar com sua morosidade excessiva, só pensar nele e efetivamente não saber dirigir.

Esse sujeito, que todos conhecem aos montes, não deveria estar controlando um carro e colocando a vida dele e de outros em risco. Esse é o verdadeiro problema do trânsito brasileiro e os maiores culpados disso certamente são a União e o estado que dão carteira de motorista a qualquer idiota nesse país do absurdo.

O trânsito brasileiro é uma desgraça que fica cada vez pior e não é por causa do álcool, mas é por causa do imenso número de maus motoristas, de maus proprietários de autoescola e de maus dirigentes e administradores de trânsito.

A culpa pela existência dos maus motorista é de quem os autoriza.

Às vezes chego a pensar que o álcool consumido, nas horas de lazer, pelas “autoridades de trânsito” que ficam atendendo pessoas atrás dos balcões públicos seja bem mais danoso ao trânsito, quando autorizam qualquer um a dirigir, do que o álcool socialmente degustado por alguns motoristas cônscios e responsáveis.

O problema do álcool no trânsito é grave e precisa ser tratado e combatido como tal, mas há outros mais graves que precisam ser tratados.

Certamente não será apenas impedindo o uso de álcool que se melhorará o trânsito e se minimizará os acidentes.

Pasmem senhores, mas em algumas cidades pequenas aqui na parte paulista do Vale do Paraíba, o trânsito só não é pior porque algumas pessoas conscientes deliberadamente não cumprem as normas estabelecidas pelos dirigentes de trânsito.

A bagunça é generalizada, existem semáforos colocados em locais absurdos; vias e rotas totalmente inadequadas e mal definidas; marcações de trânsito ilógicas, incoerentes e até inconsequentes; indústrias de multas; agentes de trânsito mal educados; policiais corruptos e incompetentes; buracos e mais buracos; motoristas que fazem o que querem em prejuízo da coletividade, pois são os donos das ruas e das calçadas; pedestres e ciclistas folgados, valentões e sem educação nenhuma; motociclistas que pensam que são os donos do mundo ou que são super-heróis e imortais, porque abusam do direito de viver a todo instante.

Enfim, o trânsito tem de tudo, inclusive motoristas bêbados que são minoria perto do todo e não podem ser considerados como o maior problema.

Ah! Eu ia me esquecendo. Há também motoristas drogados, por outras drogas como a maconha, a cocaína, o crack e outras mais, no entanto esses motoristas, embora todos saibam quem são, não há ninguém que os persiga. Por que isso acontece?

Meus amigos, creio que seja preciso parar com esse negócio de sempre se procurar um bode expiatório para tapar o sol com a peneira das coisas erradas que acontecem nesse país.

Não ao álcool no trânsito, mas não também à infinidade de outros absurdos, que infelizmente ninguém comenta e que acabam causando a grande maioria dos acidentes.

O álcool realmente é um mal para o trânsito, mas a falta de critério e de seriedade certamente são males muito maiores.

Não a necessidade de endurecer lei nenhuma, basta apenas se fazer cumprir coerentemente as leis que já estão aí.

O trânsito é parte do todo que só será resolvido quando entenderem que não podem levar vantagem sempre e isso só será possível com muita educação e vergonha na cara.

Luiz Eduardo Corrêa Lima (53) é (Professor Titular – FATEA/Lorena/SP  Biólogo (Zoólogo) Escritor e Ambientalista; Membro da Academia Caçapavense de Letras, ocupando a Cadeira 25; e da Associação Nacional dos Amigos da Educação, ANAE, Ex-Vereador e Presidente da Câmara Municipal de Caçapava,SP - leclima@hotmail.com


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