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Considerando o que aconteceu até aqui, as
chamadas “Leis Secas” (Lei 9294/2006 e Lei 11705/2008), que
normalizam alguns aspectos do Código de Trânsito Brasileiro
(Lei 9503/1997), não parecem ter cumprido os propósitos para
os quais foram estabelecidas.
Isto é, até aqui não conseguiram minimizar o
número de motoristas que dirigem alcoolizados, não
diminuíram os acidentes no trânsito brasileiro.
Por conta disso, alguns setores mais radicais
e mais ignorantes da administração pública relacionada ao
trânsito já estão apontando para um endurecimento na
Legislação.
Falam em criar uma nova Lei na qual deverá
ser proposta a proibição total do uso de bebida alcoólica ao
condutor de veículos automotivos, antes de qualquer viagem.
É a chamada “Tolerância Zero”, que eu prefiro chamar de
“Idiotice 10”.
Entendo que seria mais uma medida totalmente
inviável, descabida e infundada, que só traria mais
aborrecimentos e prejuízos sociais, criaria mais problemas
burocráticos operacionais e não agregaria nenhum valor útil
à minimização dos acidentes de trânsito no país.
Antes de continuar, quero deixar bem claro
que sou totalmente a favor da “Lei Seca” em vigência e creio
que a maioria dos brasileiros também pensa assim.
Acredito que se a Legislação atual não
produziu o efeito desejado foi por conta de deficiência na
fiscalização ou então porque o verdadeiro problema dos
acidentes de trânsito não seja apenas o consumo de álcool
por parte dos motoristas.
É claro que motoristas alcoolizados não podem
dirigir de maneira nenhuma e, se isso acontecer, eles devem
ser presos e ter suas carteiras cassadas para evitar danos a
si mesmos e principalmente à sociedade em geral, inclusive
produzindo mortes, como tem acontecido.
Entretanto, gostaria de questionar se existem
estatísticas que apontam para o fato de que a maioria dos
acidentes de trânsito tenha sido provocada por motoristas
alcoolizados. Pelo que li num artigo da própria Polícia
Rodoviária Federal, os acidentes produzidos por motoristas
alcoolizados é cerca de 30% do total.
Vejam bem, motorista alcoolizado não pode
dirigir. Mas, os casos de acidentes de trânsito acontecem
com pessoas alcoolizadas ou não e segundo as próprias
estatísticas documentadas da Polícia Federal, certamente a
maioria (cerca de 70%) dos acidentes ocorre com motoristas
que não estavam alcoolizados.
Aliás, também não é difícil afirmar que
alguns desses motoristas certamente nunca beberam algum tipo
de bebida alcoólica em suas vidas.
Isso nos remete ao seguinte: “o álcool é um
grande problema para a questão dos acidentes de trânsito no
Brasil, porém certamente não é o único problema e nem parece
ser o mais importante”.
Precisamos combater o álcool no trânsito, mas
também outras coisas que causam muito mais acidentes, como
outras drogas, má formação dos motoristas, despreparo dos
policiais e agentes de trânsito, péssimas condições das
estradas, fiscalização negligente e propinável, além de
outros aspectos.
Penso ser ilusão endurecer mais a “Lei Seca”,
porque isso não vai acabar nem minimizar o número de
acidentes de trânsito.
Aliás, talvez até aumente o número de
acidentes, porque os motoristas passarão a ser privados de
seus direitos individuais como cidadãos e isso poderá
transtorná-los ao volante, a ponto de aumentar o número de
acidentes.
Mas, deixemos isso para lá, essa é outra
questão que não cabe aqui. É melhor voltarmos ao foco
inicial.
Eu quero lamentar o fato de que com a
“Tolerância Zero”, nem eu nem ninguém mais vai poder tomar
uma lata de cerveja numa parada da viagem, naquele dia de
calor muito forte, porque “alguém”, que ninguém sabe quem é,
sentado atrás de uma mesa, longe da maioria das pessoas, com
uma caneta na mão, resolveu entender que aquela cerveja é um
perigo à minha vida e à sociedade.
Nem eu e nem ninguém poderá mais ir jantar
com a esposa num restaurante para comemorar o aniversário de
casamento e tomar uma taça de vinho, porque, na cabeça
daquele sujeito, isso vai deixar ambos alcoolizados.
O padre da paróquia do seu bairro terá que
esperar algumas horas (não sei quantas, mas falam que são de
6 a 8 horas), após rezar sua missa, para poder dirigir seu
carro, porque um infeliz inventou uma Lei.
Ora, senhores, me desculpem, mas isso é uma
palhaçada e volto a dizer, que não levará a nada, porque os
acidentes continuarão acontecendo.
Aliás, é bom lembrar, como também é uma
palhaçada e desperdício de dinheiro público, esse negócio de
usar o bafômetro para identificar embriaguez.
Meus amigos, quando alguém está alcoolizado e
embriagado não há necessidade de bafômetro para comprovar a
embriaguez, pois a fisionomia da pessoa é mais do que
característica e qualquer indivíduo pode constatar a
embriaguez sem nenhuma dificuldade.
Para acabar com os acidentes de trânsito
precisa haver uma ação coletiva, que deve passar por uma boa
educação de trânsito, para condutores, policiais, agentes e
fiscais; melhoria das máquinas (carros); melhoria das vias
públicas, em particular das estradas e principalmente a
existência de melhores motoristas. A falta dessas coisas com
certeza não é culpa do álcool.
Educação para o trânsito e melhores estradas
são problemas da União e dos estados. Melhores máquinas são
problemas das fábricas na produção e dos proprietários de
veículos na manutenção.
Melhores motoristas é um problema das
autoescolas, da fiscalização e da legislação, o que também
acaba sendo um problema da união e do estado.
Qualquer cidadão que sabe dirigir e que
transita nas estradas brasileiras por aí afora, obviamente
já observou que de cada 10 motoristas que estão no trânsito,
pelo menos 5 (isso porque estou sendo modesto, pois na
verdade a proporção é maior) não tem condições nenhuma de
estar conduzindo um veículo e transportando vidas humanas.
E isso não acontece porque o sujeito está
embriagado, mas sim porque ele não tem noção de direção e de
trânsito, além de ser mal educado, correr feito um louco ou
atrapalhar com sua morosidade excessiva, só pensar nele e
efetivamente não saber dirigir.
Esse sujeito, que todos conhecem aos montes,
não deveria estar controlando um carro e colocando a vida
dele e de outros em risco. Esse é o verdadeiro problema do
trânsito brasileiro e os maiores culpados disso certamente
são a União e o estado que dão carteira de motorista a
qualquer idiota nesse país do absurdo.
O trânsito brasileiro é uma desgraça que fica
cada vez pior e não é por causa do álcool, mas é por causa
do imenso número de maus motoristas, de maus proprietários
de autoescola e de maus dirigentes e administradores de
trânsito.
A culpa pela existência dos maus motorista é
de quem os autoriza.
Às vezes chego a pensar que o álcool
consumido, nas horas de lazer, pelas “autoridades de
trânsito” que ficam atendendo pessoas atrás dos balcões
públicos seja bem mais danoso ao trânsito, quando autorizam
qualquer um a dirigir, do que o álcool socialmente degustado
por alguns motoristas cônscios e responsáveis.
O problema do álcool no trânsito é grave e
precisa ser tratado e combatido como tal, mas há outros mais
graves que precisam ser tratados.
Certamente não será apenas impedindo o uso de
álcool que se melhorará o trânsito e se minimizará os
acidentes.
Pasmem senhores, mas em algumas cidades
pequenas aqui na parte paulista do Vale do Paraíba, o
trânsito só não é pior porque algumas pessoas conscientes
deliberadamente não cumprem as normas estabelecidas pelos
dirigentes de trânsito.
A bagunça é generalizada, existem semáforos
colocados em locais absurdos; vias e rotas totalmente
inadequadas e mal definidas; marcações de trânsito ilógicas,
incoerentes e até inconsequentes; indústrias de multas;
agentes de trânsito mal educados; policiais corruptos e
incompetentes; buracos e mais buracos; motoristas que fazem
o que querem em prejuízo da coletividade, pois são os donos
das ruas e das calçadas; pedestres e ciclistas folgados,
valentões e sem educação nenhuma; motociclistas que pensam
que são os donos do mundo ou que são super-heróis e
imortais, porque abusam do direito de viver a todo instante.
Enfim, o trânsito tem de tudo, inclusive
motoristas bêbados que são minoria perto do todo e não podem
ser considerados como o maior problema.
Ah! Eu ia me esquecendo. Há também motoristas
drogados, por outras drogas como a maconha, a cocaína, o
crack e outras mais, no entanto esses motoristas, embora
todos saibam quem são, não há ninguém que os persiga. Por
que isso acontece?
Meus amigos, creio que seja preciso parar com
esse negócio de sempre se procurar um bode expiatório para
tapar o sol com a peneira das coisas erradas que acontecem
nesse país.
Não ao álcool no trânsito, mas não também à
infinidade de outros absurdos, que infelizmente ninguém
comenta e que acabam causando a grande maioria dos
acidentes.
O álcool realmente é um mal para o trânsito,
mas a falta de critério e de seriedade certamente são males
muito maiores.
Não a necessidade de endurecer lei nenhuma,
basta apenas se fazer cumprir coerentemente as leis que já
estão aí.
O trânsito é parte do todo que só será
resolvido quando entenderem que não podem levar vantagem
sempre e isso só será possível com muita educação e vergonha
na cara.
Luiz
Eduardo Corrêa Lima (53) é (Professor Titular – FATEA/Lorena/SP
Biólogo (Zoólogo) Escritor e Ambientalista; Membro da
Academia Caçapavense de Letras, ocupando a Cadeira 25; e da
Associação Nacional dos Amigos da Educação, ANAE,
Ex-Vereador e Presidente da Câmara Municipal de Caçapava,SP
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leclima@hotmail.com |