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No último dia 3, a 1ª
Turma de Direito Público do STJ (Superior Tribunal de
Justiça) negou por unanimidade o recurso especial impetrado
pelos advogados das famílias de sem-teto, do Pinheirinho,
contra a ação demolitória do governo de Eduardo Cury (PSDB). O clima de revolta e
insegurança é enorme depois que a Justiça autorizou a
Prefeitura de São José dos Campos demolir as 1.840 moradias
dos sem-teto do Pinheirinho, na zona sul da cidade.Com mais de dez mil
pessoas jogadas na rua se pode esperar tudo, inclusive
derramamento de sangue, já que os moradores afirmam que só
sairão de suas casas mortos.
Desde muito jovem nos
movimentos sociais, o paranaense de Apucarana, há muitos
anos em São José dos Campos, continua o menino de coração
grande, o sonhador que não desiste da luta por igualdade e
justiça social. - “Estive com os Sem Terra por 15 anos.
Quando o Zé Rainha foi preso, fui para o Pontal do
Paranapanema e dirigi o Movimento com muito orgulho, aprendi
muito. Participei da primeira ocupação urbana do Brasil, em
Guarulhos, o Anita Garibaldi, mostrando que o trabalho
social é possível. Só o fato da gente ver aquela criança que
estava passando fome, com a barriguinha cheia com os seus
cadernos, estudando e brincando, é uma vitória muito grande.
Nesse país, os políticos enriquecem a custa do dinheiro do
trabalhador, em São José não é diferente.”
“Sou
diretor do Sindicato dos Metalúrgicos, da direção nacional
do Conlutas e da coordenação do Pinheirinho. Sou ainda
funcionário da Tecsat, afastado; - Embora tenha ganho todos
os processos, a empresa alega não ter dinheiro para me
pagar, e vamos tocando o barco.”
Assim
é Waldir Martins, o conhecido Marrom, um dos lideres do
Movimento dos Sem Terra que ocupa uma área de 57 alqueires,
o Pinheirinho. Ele sabe direitinho como o solo da cidade foi
parcelado para favorecer a especulação, as grilagens e os
grileiros e os trambiques apoiados por políticos corruptos.
Marrom que falou conosco no último dia 11:
Como
começou o Pinheirinho? -
Marrom – Em dezembro de 2003, um grupo de moradores do Campo
dos Alemães, liderados pelo então vereador Santos Neves,
ocupou umas casinhas do CDHU, no Parque Dom Pedro. Neves não
conseguiu a concordância do prefeito da época, Emanuel
Fernandes, para que as pessoas permanecessem nas casas e
abandonou o pessoal. Eu estava de férias, mas atendi o
chamado e vim para organizar o grupo de setenta pessoas que
logo aumentou para 150.
Veio a ordem de despejo,
resolvemos não enfrentar e procurar outro local. No dia do
despejo, o prefeito Emanuel, junto com a Claude Mary,
prometeu que se o pessoal desistisse da minha liderança, ele
daria casa e trabalho para as 40 famílias e eles aceitaram.
Foi quando o nosso pessoal
resolveu se instalar no Campão dos Alemães, a 500 metros
dali. A prefeitura avisou que ali seria construído um
hospital da zona sul, que não poderíamos ocupar, o terreno
continua lá sem nada.
Já éramos 340 famílias e,
em fevereiro de 2004, numa madrugada de Carnaval, fizemos
uma acordo com a prefeitura: não iríamos invadir nenhum
terreno público e eles disseram que poderíamos ocupar onde
quiséssemos, que não iriam fazer nada contra nós,
conversamos inclusive com o Eduardo Cury que era secretário
de governo.
No mesmo fevereiro,
ocupamos o terreno do Pinheirinho, abandonado há 32 anos.
Segundo soubemos, a área pertencia à uma família alemã que
havia sido cruelmente assassinada, sem deixar herdeiros e
que o Comendador Bentinho havia se apossado dela e passado
57 alqueires para o mega especulador Naji Nahas, que colocou
o terreno em nome da sua falida empresa a Selecta, com sede
no Panamá.
O Naji nunca pagou
impostos, nem rural nem o IPTU à prefeitura. No mesmo ano em
que nos instalamos, a prefeitura pediu a demolição dos
barracos na Justiça, ao mesmo tempo a Selecta pediu a
desocupação do terreno.
Mas
quem deveria entrar na Justiça seria quem se dizia
proprietário, e não a Prefeitura
– Mas sempre
existiu um acordo, a Prefeitura faria a desocupação e
entregaria o terreno limpinho, e tem mais, a Selecta já
devia perto de R$ 6,8 milhões à municipalidade, hoje são
mais de R$ 11 milhões.
Como
funciona o atendimento jurídico da Prefeitura à Selecta?
– Cada vez que os advogados da empresa apelam, os advogados
da prefeitura faturam alto, recebem honorários, independente
de seus salários na Prefeitura. Mesmo assim, conseguimos
derrubar as liminares, aqui e em São Paulo, através dos
nossos advogados, o Toninho Ferreira, o Neto e o Marcelo.
E como
ficou? - O processo
envolvendo as ações de desocupação e demolição foi para o
Tribunal de Justiça, em Brasília. Existem mais dois
processos, um da Bandeirantes Energia e outro da Sabesp,
alegam que estávamos roubando luz e água; - Conseguimos uma
liminar onde o juiz afirmou que água e luz são bens
essenciais às pessoas, que as empresas não poderiam cortar o
fornecimento.
Como
agiu a Câmara Municipal?
– A pedido do Emanuel Fernandes, o vereador Walter Hayashi
entrou com um projeto de lei para que os moradores do
Pinheirinho não mais recebessem nenhum benefício do Governo
Federal, Estadual e Municipal, do tipo Leve Leite, Vale Gás,
Bolsa Família, Bolsa Escola, atendimento nos postinhos etc.
O projeto foi aprovado no começo de 2005. Ainda colocaram
uma carência de seis meses, nesse prazo os moradores ficavam
sujeitos à tal lei, mesmo que saíssem do Pinheirinho, não
poderiam participar de nenhum programa habitacional em São
José.
Como
está hoje o Pinheirinho?
– Estamos bem organizados com auxílio do pessoal da USP, da
Poli, da Faculdade Federal de Juiz de Fora, da Federal do
Rio de Janeiro, conversamos direto com a Unip e a Unitau.
Acabamos de fundar a Frente Nacional de Resistência Urbana
com 40 movimentos em 14 estados. Continuamos buscando
experiências.
Vocês
tem zoneamento e plano diretor?
– Temos tudo isso,
funcionamos através de setores que realizam reuniões
semanais com os grupos responsáveis pela educação, saúde,
mulher, negros, segurança, envolvendo mais de 300 ativistas.
Tudo que acontece no mundo o Pinheirinho toma conhecimento
pela Internet. Temos escola de artesanato, de capoeira, time
de futebol masculino e feminino, as atividades são muitas.
Construímos um barracão muito grande para duas mil pessoas,
cada setor tem sua sede com mesas cadeiras, o data show foi
doado pela Faculdade Anchieta.
Quantas pessoas estão no Pinheirinho?
– Temos 1.843 famílias e cerca de 9.600 pessoas, entre elas,
mais de 4 mil são crianças de zero a doze anos. O ingresso
no Pinheirinho está congelado. Há mais de um ano não entra
mais ninguém, apesar da inscrição de mais de 2.400 famílias.
As pessoas preferem ir para o Pinheirinho ao invés dos
programas da Prefeitura.
Vocês
tem escolas? – Temos,
e outra coisa, quem criticava hoje nos apóia, o Campo dos
Alemães, o Dom Pedro, Interlagos, Morumbi, Parque Industrial
e outros, o apoio dos moradores e dos comerciantes da região
é muito grande.
Como
funciona o sistema viário do Pinheirinho?
– Nenhum bairro de São José dos Campos tem arruamento como o
nosso, feito com orientação de professores universitários.
Uma demonstração para o país que é possível realizar o
social com muito pouco dinheiro. O prefeito Cury gastou R$
40 mil pra fazer uma casa de bonecas, nós fizemos um
barracão de 200 metros quadrados com R$ 4,8 mil com auxílio
da população, sem dinheiro público. As nossa lixeiras e os
demais equipamentos são feitos por nós. É oferecido, mas não
pegamos dinheiro de ongs nem de ninguém.
E o
recolhimento do lixo, o esgoto?
– Os moradores levam até a avenida onde é recolhido pelos
caminhões da prefeitura. Não temos esgoto a céu aberto, cada
casa tem sua fossa, desde o começo.
E a
preservação ambiental?
– Preservamos todas as nascentes e os eco sistemas, as matas
ciliares. Somos um acampamento diferente que chamamos de
ruro-urbano, pois, alem das 1600 famílias no platô urbano,
temos mais 260 famílias no rural, cada um com sua chácara
plantando sua própria comida, colhendo, vendendo, criando
suas galinhas e outros animais.
Então
é de causar inveja?
– Exatamente, o
pior são os construtores da cidade que não suportam ver que,
numa ocupação de sem terras, ninguém tem menos de 250 metros
quadrados. O meio lote é coisa de empresário maluco, não há
como morar com a família em meio lote num país do tamanho do
Brasil, com terras sobrando. Queria ver o prefeito ou os
vereadores que apóiam essa lei construírem e morarem em meio
lote. Pimenta nos olhos dos outros é refresco.
Todos
os moradores tem lotes iguais de 250 metros quadrados?
– Nós achamos que os terrenos tem que ter no mínimo 250
metros, uma família em cada terreno. Se os alemães, que eram
os donos morreram sem deixar herdeiros, quem foi que vendeu
a área. Foram no céu ou no inferno comprar e passar a
escritura? Essa terra foi grilada,
Esquema criminoso do grilo oficializado?
- Em São José
existem várias áreas na mesma situação, o Jardim União foi
grilado e vendido, o Morumbi também, o Interlagos, o Campo
dos Alemães, o Parque Industrial; - Onde está o Vale
Desconto, era da Alpargatas, ela recebeu o terreno por
doação e vendeu para a Cia Satélite que ganhou rios de
dinheiro. Onde hoje é o Carrefour era um terreno doado para
a Ford depois foi loteado e fizeram o jardim Aquarius, para
os que se dizem ricos. No terreno do João Verdi que foi
doado para Avibrás está o loteamento dos japoneses.
Para
alguns tudo – Quando a
pessoa tem dinheiro pode fazer casa em qualquer lugar,
ninguém fala nada. Basta descer para São Sebastião ou
Ubatuba e constatar as mansões construídas nas encostas, nas
áreas de preservação. Mas, quando um pobre faz um barraco, o
prefeito quer derrubar imediatamente. Foi o que aconteceu em
Campos do Jordão onde o prefeito tentou despejar todo mundo
do morro. Nós estivemos lá.
O
prefeito Eduardo Cury
– Foi uma covardia,
na época das eleições o Cury me afirmou que não mexeria mais
com o Pinheirinho. Imaginei que ele tiraria os processos e
isso não aconteceu. Um cara que fala uma coisa e faz outra
não merece confiança, basta ver o que ele arrumou no Morro
do Regaço.
E a
tal empresa que os vereadores trouxeram pra resolver a
situação do Pinheirinho?
– O Guilherme, que
é advogado do São José Esporte Clube, junto com o vereador
Robertinho da Padaria, trouxeram essa empresa Terra Nova, do
Paraná. Fomos pesquisar e constatamos que era mais uma
operação comercial onde rolaria muito dinheiro, quarenta por
cento pra empresa. Ou seja, queriam ganhar uma grana
violenta nas nossas costas. Eles marcaram uma reunião na
Câmara Municipal e nós não fomos.
E os
terrenos na volta do Pinheirinho?
– Em cima é do falecido Kogima, o lado de baixo é do
Bentinho. Na verdade toda a área da zona sul é muito visada
pela especulação imobiliária, nós continuamos denunciando.
Qual é
a solução? – Basta
desapropriar, ou adjudicar o terreno que tem um débito de R$
11 milhões com a Prefeitura, nós estamos usando somente a
metade a outra o prefeito pode fazer o que quiser. Mas ele
fica só num jogo de empurra, dificultando tudo; - Em
Guarulhos existe um acampamento com 3.200 famílias com água
luz e toda infra-estrutura colocada pelo prefeito da cidade.
A
ordem para demolir
– Foi estranho e cabe
recurso. O Direito é algo complicado nesse país onde muitas
vezes se julga com o bolso. Nós recebemos a notificação na
quinta feira, na sexta feira foi o dia do funcionário
público, segunda feira foi o feriado de finados. Não houve
tempo hábil para ir e falar em Brasília, algo orquestrado.
Como é
que vai ficar?
– Basta o prefeito retirar
as ações e sentamos para negociar. Se a gente não conseguir
ganhar na Justiça, uma coisa eu lhe digo: do Pinheirinho
ninguém vai sair. O que pode acontecer é uma carnificina.
Será que o prefeito vai pagar para ver? - Nós somos nascidos
e criados na luta, acostumados a brigar. Se o Cury insistir
em nos tirar de lá, vai haver muita morte. Para mim e para
os moradores permanecer no Pinheirinho é uma questão de
honra, de vida ou morte.
Como
se pode visitar o Pinheirinho?
– O Pinheirinho é aberto diariamente para quem quiser nos
visitar. Alunos de faculdades lá fizeram seus trabalhos de
mestrado e defenderam teses sobre nós. Uma equipe do
Valeparaibano produziu um curta metragem sobre nós e
apresentou na Espanha onde foi premiado em segundo lugar.
Todas as semanas tem alunos que nos visitam. Delegações de
vários países como Romênia, Itália, França, Canadá, Japão e
vários países da América do Sul estiveram no Pinheirinho.
Eles mesmo afirmam que o Pinheirinho é um dos maiores e mais
bem organizados acampamentos do mundo, e isso é motivo de
muito orgulho para nós.
(*) Acassio Costa é advogado
-
acassio@vejosaojose.com.br
4Veja a
matéria de
Cláudio de Souza no Jornal ValeParaibano |