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De
Angra dos Reis – RJ - A casa é branca, mas o inquilino,
agora, vai ser um negão. Barack Hussein Obama Junior, 47
anos, é o primeiro negro eleito presidente dos Estados
Unidos da América do Norte. Até ai morreu Neves. O
importante a destacar, porém, é que sua eleição nos permitiu
conhecer uma safra de especialistas em política
internacional, até então desconhecidos. Nem o campeonato
brasileiro produziu tantos comentaristas e experts como a
eleição de Obama. É impressionante a quantidade de neguinho
que entende do assunto.
Nos
jornais, rádios e canais de televisão, indivíduos sisudos,
em geral de paletó e gravata, aparecem, de repente, como
analistas da política norte-americana. Um deles fuma
cachimbo, o que lhe dá um ar de sabichão. Com pose de
entendidos, falam, explicam, comentam e opinam, alguns
chegam até mesmo a dizer como é que o novo presidente deve
governar. Eles nos fazem lembrar o pai do ex-governador
Arthur Reis, Vicente Reis, colunista do velho Jornal do
Commércio, fundado em 1904.
Durante a
Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Vicente Reis escrevia
artigos inflamados sobre o conflito que matou 50 milhões e
mutilou 28 milhões de pessoas. Ali, naquele jornal de
Manaus, ele dava conselhos aos generais americanos e
ingleses, com sugestões de tática e estratégia militar. Um
dia ousou escrever, deplorando: “Se Winston Churchill,
primeiro ministro britânico, tivesse seguido as minhas
recomendações da semana passada, Londres não teria sido
bombardeada pelos alemães”. Bem feito! Quem manda o
Churchill não ler, na época, o jornal de maior tiragem de
Manaus!
Acontece
que aquele jornalista aparentemente pretensioso, escrevendo
num pequeno jornal provinciano, se sentia um cidadão do
mundo e não renunciava ao direito de formar opiniões e de
interferir na realidade. O precedente do velho Vicente e os
posudos comentaristas da mídia constituem um estímulo para
qualquer um dar pitaco. É como no futebol: a paixão faz que
qualquer Zé Mané se transforme num Felipão. Por isso, daqui
de Angra dos Reis, onde estou ministrando um curso, também
meto a minha colher nessa sopa, aconselhando o Negão de lá.
O Negão de lá
Antes dos
conselhos, convém destacar algumas particularidades já
registradas pelo noticiário internacional. O Negão de lá
viveu parte de sua vida numa área pobre de Chicago. Altgeld
Gardens é um bairro operário com 1.500 casas, cujos
moradores foram vítimas de um crime ambiental. As fábricas
ali instaladas contaminaram quimicamente a vizinhança com o
arbesto, substância que causa câncer. Hoje, ele vive no Hyde
Park, bairro de classe média. Não é nenhuma mansão como a do
Tarumã, de propriedade do Negão de cá. Trata-se de uma casa
confortável de dois andares, de tijolo marrom e janelas
brancas. O Negão de lá vive bem, mas não ostenta.
Sua
mulher, Michelle Obama, é uma mulher simples, de classe
média, com a beleza de uma tacacazeira da Praça XIV dos anos
1950. Ela também foi criada num bairro pobre e violento de
Chicago, mas os dois se conheceram em Harvard, universidade
da elite, onde ambos estudaram direito, graças a bolsas de
estudo que obtiveram com talento e inteligência. Hoje, as
duas filhas – Malia (10 anos) e Natasha (7 anos) estudam na
Escola Laboratório da Universidade de Chicago, uma espécie
de Colégio de Aplicação.
O Negão
de lá, antes de ser um político, é um intelectual. Gosta de
ler e de escrever, publicou alguns livros e foi o primeiro
editor negro da Harvard Law Review, a revista de Direito da
Universidade de Harvard. Escreveu “Sonhos vindos do meu
pai”, editado no Brasil com o título A origem dos meus
sonhos (1992-1995). Em Chicago, freqüenta a Livraria 57th
Street Bookstore. Seu gosto musical mostra que o Negão de lá
era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling
Stones. Curte ainda Bob Dylan, Joan Baez, Stevie Wonder,
Aretha Franklin.
O Negão
de lá é honesto. Arrecadou dinheiro para sua campanha
através da Internet. Recebeu contribuições de milhares de
pessoas, num total de US$ 660 milhões. Mas prestou contas de
cada centavo. O Negão de lá não responde a processos. Não
existe qualquer denúncia ou suspeita de corrupção. Não
surgiu nenhum Marcos Valério com caixa 2 em sua vida
política.
Guerra e paz
A vitória
do Negão de lá despertou esperanças em todos nós. Ele assume
o comando de um país em frangalhos, material e moralmente,
desacreditado nacional e internacionalmente, que está à
beira de uma profunda recessão, com um déficit publico de 3
trilhões de dólares, envolvido em três guerras com o Iraque,
o Afeganistão e o Paquistão, ameaçando se alastrar pelo
Kudomundistão e pelo resto do planeta.
O que
entusiasma a todos nós, comentaristas amadores, é o fato de
se tratar de um Negão, que ganhou as eleições num país onde
a segregação racial era política de Estado há menos de 40
anos. Ou seja, até meados dos anos 1960 era absolutamente
legal discriminar os negros, que não podiam usar os mesmos
ônibus dos brancos, freqüentar as mesmas escolas, as mesmas
lojas, os mesmos banheiros e lugares públicos. A estupidez
racista era a lei dominante. A vitória de Obama lava a alma
de todos os que somos, visceralmente, anti-racistas.
No
entanto, é preciso chamar a atenção para o fato de que não
se trata de um Negão qualquer, mas de um herdeiro político
de Martin Luther King, que traz com ele a palavra de ordem
da mudança. É isso que está emocionando o mundo que - como a
Tereza Batista - está cansado de guerras. Se o novo
presidente da República fosse uma negra, como Condoleezza
Rice, responsável pela política belicista de George Bush, o
papo era outro, porque não haveria luz no fim do túnel. Não
estaríamos esperançosos.
No dia em
que se comemorava a vitória de Obama, uma noticia ocupava
discretamente um pequeno espaço nos jornais. As tropas
americanas, num pretenso bombardeio aos rebeldes talibãs,
mataram 40 civis, feriram dezenas de pessoas, entre elas
muitas crianças, num ataque aéreo a uma festa de casamento
no sul do Afeganistão. Mataram o noivo e a família toda da
noiva. Neste ano, foram assassinados mais de 4.000 civis
naquele país pelo exército de ocupação americano. O Brasil
inteiro se emociona com o assassinato de uma Eloá, mas
permanece entorpecido com esses crimes em massa.
Então,
imitando a Vicente Reis, o conselho que nós, daqui desse
Diário do Amazonas damos ao novo presidente Barak Obama é
que ordene a retirada imediata das tropas americanas
daqueles três países e acabe com essa guerra estúpida, que
envergonha e enlameia a nação americana. Um país que elege
alguém como Obama como presidente da República não merece
dar continuidade ao terrorismo de Estado sustentado por
Bush, o maior carniceiro da história contemporânea. Espero
que Obama siga meus conselhos e não faça comigo o que
Winston Churchill fez com Vicente Reis.
P.S.
– Eu ia comentar aqui o livro “O homem invisível”, do
escritor negro norte-americano Ralph Ellison, mas não deu
tempo de terminar a leitura. Fica pra próxima.
(*)
José R. Bessa Freire
-
www.taquiprati.com.br –
http://www.diarioam.com.br
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