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Você nasceu em Foz do Iguaçu, em
1979. Veio menino para Curitiba. A descoberta da poesia,
onde?
.
Se meus pais me obrigassem
a jogar bola, eu acharia uma merda. Se me obrigassem a
comer doce, eu teria vontade de vomitar. E foi assim com a
leitura. Eu era um menino solto, apesar de muito tímido.
Queria soletrar amoras no pé, aprender o alfabeto dos
peixes e a última piada de português. Literatura, poesia
eram palavras que eu não conhecia. Eu era analfabeto.
Fui analfabeto até uns 14, 15 anos. Tudo o
que eu lia ou estudava era um exercício de Sísifo. Eu não
conhecia a magia negra e a epifania das palavras. Eu fazia
análise sintática com o desencanto de um necropsista que
escolheu a carreira errada, sem a alegria que eu sentia,
por exemplo, ao desmembrar formigas.
E quando eu lia alguma coisa que não fosse
o gibi da Mônica, aquilo não era uma possibilidade de
beleza e descoberta e enigma; aquilo era um pé no saco,
uma lição de Português, Comunicação Social na minha época.
Eu tirava notas absolutamente medíocres. E era meio
dislexo, trocava (ainda troco às vezes) “p” por “b”,
escrevia “coisa” com “z”, acentuava “tu” e “cu”. Eu só
fazia poesia involuntariamente.
E jamais com palavras. Não fui uma criança
de tiradas maravilhosas. Fui, isso sim, uma criança muitas
vezes constrangedora. Um dia, dentro do avião, comecei a
gritar que o sujeito do meu lado era a cara do Cascatinha,
personagem do Chico Anísio. Outra vez, falei para um
deficiente físico caminhar direito.
Descobri o poema, na escola, como quem descobre uma
frieira. Que merda! Eu vou ter que ler isso?! Mas são só
palavras! Depois, já na adolescência, comecei a prestar
mais atenção. Vi que elas podiam, lá do século XIX, estar
falando de mim, comigo. Mas lia apenas os esquartejamentos
dos versos (excertos) de Álvares de Azevedo, Castro Alves,
Mário Quintana, Cecília Meirelles nas apostilas didáticas.
Comecei lendo para me entreter. Sidney Sheldon, Agatha
Christie e – tamtamtamtam – Paulo Coelho. Ironicamente, me
interessei também por Machado de Assis. Li quase tudo.
Todos os romances a partir de Brás Cubas, quase todos os
contos. Não me lembro de muita coisa. Faz tanto tempo. Mas
lembro que gostava de sua ironia, de seu ceticismo, mesmo
passando reto pela maioria das sutilezas e das questões de
estilo.
Ao mesmo tempo, meu interesse pela música crescia. Adorava
os Beatles, Dylan, Stones, Raul, The Doors, e queria sacar
o que eles estavam cantando. O Jim Morrison, que eu quis
ser por um ano e meio mais ou menos, me guiou pela galeria
dos malditos: Blake, Nietzsche, Rimbaud. Eu tinha uns 15,
16 nos. E quando li Rimbaud pela primeira vez (a
biografia, claro, porque os versos eram rarefeitos demais
a minha fruição), minha vida mudou. Ele (Rimbaud) foi quem
verdadeiramente tirou minha “virgindade poética”.
E me fez mal, me intoxicou, me passou a
doença venérea do pessimismo. Tomei um rumo na minha vida
perigosíssimo. Eu não estava preparado para determinadas
visões do mundo. Nem o próprio Rimbaud estava preparado
para ser Rimbaud.
Nessa época, escrevi uns poemas para um concurso do
colégio, e um deles foi aceito. Brinco que escrevi o
primeiro poema antes de aprender a ler, antes de ter lido
o primeiro livro. Os primeiros poemas que eu li
integralmente foram os três primeiros poemas que escrevi –
horríveis por sinal.
Comecei a ficar febril. A poesia começou a me obcecar.
Passei a investir nela com intensidade cada vez maior,
cada vez mais doentia. Comecei a ler os modernistas
brasileiros. Drummond. Achei uma merda. Cabral. Idem.
Bandeira. Nem se fala. Não estava preparado para aquilo, o
leitor não estava maduro. Tive que voltar infinitas vezes
a estes autores para descobrir-lhes a beleza.
Tive que ser teimoso. Eram anos de
analfabetismo às minhas costas. Mesmo o Gullar, meu herói
literário, foi diminuído em minha primeira leitura. Claro,
comecei pela “Luta Corporal”, aquela coisa arriscada,
difícil. Não entendi porra nenhuma, a não ser o “Galo
Galo” e “A Galinha”. Mas insisti.
Mais
(*)
Bárbara Lia
é professora de História
e Escritora. Publicou poemas no jornal Rascunho, Fenestra,
Garatuja, Mulheres Emergentes, Revista Etcetera, Revista
Coyote, Ontem choveu no futuro. - na Internet - Revista
Zunái, Germina Literatura, Cronópios, Blocosonline, Editora
Ala de Cuervo, entre outros. Finalista
do Prêmio Sesc de Literatura 2.004, com o romance - Cereja &
Blues, e 2005 com o romance – Solidão Calcinada.
Publicou o livro de poesias – O sorriso de Leonardo – Kafka
edições baratas. Até o final de 2.006 a LUMME EDITOR lançará
o livro DE POESIAS ‘O SAL DAS ROSAS’ . E-mail:
barbaralia@gmail.com
www.chaparaasborboletas.blogspot.com |