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  17.10.2008 21h.03  
 

No caminho com Rodrigo Madeira

Bárbara Lia (*)  

 

Você nasceu em Foz do Iguaçu, em 1979. Veio menino para Curitiba. A descoberta da poesia, onde?

.
Se meus pais me obrigassem a jogar bola, eu acharia uma merda. Se me obrigassem a comer doce, eu teria vontade de vomitar. E foi assim com a leitura. Eu era um menino solto, apesar de muito tímido. Queria soletrar amoras no pé, aprender o alfabeto dos peixes e a última piada de português. Literatura, poesia eram palavras que eu não conhecia. Eu era analfabeto.
 
Fui analfabeto até uns 14, 15 anos. Tudo o que eu lia ou estudava era um exercício de Sísifo. Eu não conhecia a magia negra e a epifania das palavras. Eu fazia análise sintática com o desencanto de um necropsista que escolheu a carreira errada, sem a alegria que eu sentia, por exemplo, ao desmembrar formigas.
 
E quando eu lia alguma coisa que não fosse o gibi da Mônica, aquilo não era uma possibilidade de beleza e descoberta e enigma; aquilo era um pé no saco, uma lição de Português, Comunicação Social na minha época. Eu tirava notas absolutamente medíocres. E era meio dislexo, trocava (ainda troco às vezes) “p” por “b”, escrevia “coisa” com “z”, acentuava “tu” e “cu”. Eu só fazia poesia involuntariamente.
 
E jamais com palavras. Não fui uma criança de tiradas maravilhosas. Fui, isso sim, uma criança muitas vezes constrangedora. Um dia, dentro do avião, comecei a gritar que o sujeito do meu lado era a cara do Cascatinha, personagem do Chico Anísio. Outra vez, falei para um deficiente físico caminhar direito.

Descobri o poema, na escola, como quem descobre uma frieira. Que merda! Eu vou ter que ler isso?! Mas são só palavras! Depois, já na adolescência, comecei a prestar mais atenção. Vi que elas podiam, lá do século XIX, estar falando de mim, comigo. Mas lia apenas os esquartejamentos dos versos (excertos) de Álvares de Azevedo, Castro Alves, Mário Quintana, Cecília Meirelles nas apostilas didáticas.

Comecei lendo para me entreter. Sidney Sheldon, Agatha Christie e – tamtamtamtam – Paulo Coelho. Ironicamente, me interessei também por Machado de Assis. Li quase tudo. Todos os romances a partir de Brás Cubas, quase todos os contos. Não me lembro de muita coisa. Faz tanto tempo. Mas lembro que gostava de sua ironia, de seu ceticismo, mesmo passando reto pela maioria das sutilezas e das questões de estilo.

Ao mesmo tempo, meu interesse pela música crescia. Adorava os Beatles, Dylan, Stones, Raul, The Doors, e queria sacar o que eles estavam cantando. O Jim Morrison, que eu quis ser por um ano e meio mais ou menos, me guiou pela galeria dos malditos: Blake, Nietzsche, Rimbaud. Eu tinha uns 15, 16 nos. E quando li Rimbaud pela primeira vez (a biografia, claro, porque os versos eram rarefeitos demais a minha fruição), minha vida mudou. Ele (Rimbaud) foi quem verdadeiramente tirou minha “virgindade poética”.
 
E me fez mal, me intoxicou, me passou a doença venérea do pessimismo. Tomei um rumo na minha vida perigosíssimo. Eu não estava preparado para determinadas visões do mundo. Nem o próprio Rimbaud estava preparado para ser Rimbaud.

Nessa época, escrevi uns poemas para um concurso do colégio, e um deles foi aceito. Brinco que escrevi o primeiro poema antes de aprender a ler, antes de ter lido o primeiro livro. Os primeiros poemas que eu li integralmente foram os três primeiros poemas que escrevi – horríveis por sinal.

Comecei a ficar febril. A poesia começou a me obcecar. Passei a investir nela com intensidade cada vez maior, cada vez mais doentia. Comecei a ler os modernistas brasileiros. Drummond. Achei uma merda. Cabral. Idem. Bandeira. Nem se fala. Não estava preparado para aquilo, o leitor não estava maduro. Tive que voltar infinitas vezes a estes autores para descobrir-lhes a beleza.
Tive que ser teimoso. Eram anos de analfabetismo às minhas costas. Mesmo o Gullar, meu herói literário, foi diminuído em minha primeira leitura. Claro, comecei pela “Luta Corporal”, aquela coisa arriscada, difícil. Não entendi porra nenhuma, a não ser o “Galo Galo” e “A Galinha”. Mas insisti. Mais

(*) Bárbara Lia é professora de História e Escritora. Publicou poemas no jornal Rascunho, Fenestra, Garatuja, Mulheres Emergentes, Revista Etcetera, Revista Coyote, Ontem choveu no futuro. - na Internet - Revista Zunái, Germina Literatura, Cronópios, Blocosonline, Editora Ala de Cuervo, entre outros. Finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2.004, com o romance - Cereja & Blues, e 2005 com o romance – Solidão Calcinada. Publicou o livro de poesias – O sorriso de Leonardo – Kafka edições baratas. Até o final de 2.006 a LUMME EDITOR lançará o livro DE POESIAS ‘O SAL DAS ROSAS’ . E-mail: barbaralia@gmail.com www.chaparaasborboletas.blogspot.com


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