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Embora
sem ter atualmente a possibilidade de conversas diretas com
o Todo Poderoso – exclusividade de padres e pastores que
infestam a televisão brasileira com seus milagres e ganância
– apresento uma versão política do milenar ensinamento.
Ela é
fundamental para qualquer eleitor que assiste ao show de
horrores que é a campanha política no horário gratuito da
televisão. A tônica é a baixaria e a mistificação,
promovidas pelos muito bem pagos marketeiros políticos
espertalhões que aparecem nessa hora.
Em
desespero, candidatos a prefeito e vereadores transformam-se
para apresentarem-se na tela da TV. Penteados novos, voz
adocicada e amiga, vestuário simples e popular e, acima de
tudo, promessas, muitas promessas.
Sem mais
explicações, além de assegurar que qualquer semelhança com
os políticos do Vale do Paraíba não é mera coincidência,
vamos a oito regras fundamentais e não a um decálogo,
exclusividade religiosa.
1º.
Mandamento - Você, eleito prefeito é um semideus e,
portanto, não precisa ficar ouvindo a população, que só sabe
pedir. Nada de audiências públicas, nada de orçamentos
participativos. Você sabe o que é bom, o povo tem que
aceitar e ficar agradecido.
2º.
Mandamento - A cidade cresce automaticamente com os impostos
das indústrias e do comércio. Portanto, nada de planejamento
que é perda
de
tempo e
de
dinheiro. Lembre-se que planejamento costuma propor
soluções e obras a longo prazo, o que não rende votos
imediatos.
3º.
Mandamento - Não permita oposição, que somente atrapalha
exigindo explicações. Faça um grande conchavo com os
vereadores e denomine de leque de apoio ao governo ou
bancada de sustentação. O grande problema é que os
vereadores vão ficar sempre pedindo pequenas obras para seus
currais eleitorais. Uma reforma de escola ali, um
ajardinamento lá, uma quadra esportiva ou consertar asfalto
de uma rua ou avenida. Mande fazer e, em seguida, com o
vereador a tiracolo, inaugure a obra dando crédito ao
político que não fiscalizou o orçamento e nem elaborou
projetos de leis importantes para o município, deixando você
governar livremente.
4º.
Mandamento - Sem planejamento para fazer, sem fiscalização
na Câmara para responder, você não precisa de secretários
competentes. Afinal, é você mesmo que vai decidir sobre
tudo. Aproveite para fazer algumas experiências como nomear
um pedreiro para secretário da Saúde, uma enfermeira para
Obras, um ambulante para Fazenda. Se der certo, você será
considerado um gênio da administração pública.
5º.
Mandamento – Acabe com os esportes coletivos, tipo futebol,
basquete, vôlei ou natação, ajudando os clubes a conseguirem
apoio na indústria e comércio de sua cidade.
Da mesma
forma acabe com apoio às manifestações culturais e ao lazer.
Quem estiver interessado nessas áreas que se mude a capital
ou vá assistir televisão.
6º.
Mandamento - Não tenha política de comunicação que implica
a manter abertos canais de informação com a imprensa e
explicar seus atos à população. Na época eleitoral contrate
um marketeiro ou uma agência de publicidade para explicar
como você foi fundamental para o futuro do município. Se
sobrar dinheiro ou cargos, contrate jornalistas que
esqueceram o seu compromisso com a verdade e a honra.
7º.
Mandamento – Crie um inimigo que personifique o mal, para
que você possa ser chamado de salvador da pátria. Ele será
sempre culpado de todos os problemas da cidade. Seus
assessores e claque organizada fará o trabalho de caça às
bruxas.
8º.
Mandamento - Obedeça fielmente a premissa política que
ensina que os governantes tem que divulgar o que está
fazendo de bom e esconder o mal.
Praticando esses oito mandamentos muito certamente você
perderá as eleições, porque o povo não é tão bobo como se
pensa, mas o Brasil ganhará mais um desses políticos cujo
carreirismo tem prejudicado tanto as cidades brasileiras.
(*) Antonio Augusto de Oliveira é jornalista -
vanguga@ig.com.br |