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01.06.2007 10h.50 |
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Água ou veneno? II
Sem lideranças confiáveis, a saúde da população de São José
dos Campos enfrenta graves problemas.
Ricardo Faria
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A atmosfera e a água estão comprometidas pela poluição, a
falta saneamento básico e a degradação ambiental estão
presentes graças a desenfreada especulação imobiliária
comandada por pequenos e irresponsáveis empresários com a
conivência da prefeitura. Todo mundo sabe que poucas pessoas
ficaram ricas na cidade sem roubar.
A refinaria da Petrobrás jamais poderia ter se instalado no
município. Quem aprovou o projeto foi o famigerado Sérgio
Sobral de Oliveira, prefeito nomeado pela ditadura
militar, em 1974. O atual prefeito, Eduardo Cury, aprova a
expansão da empresa e sua transformação em um pólo
petroquímico.
A Revap e outras indústrias comprometem o ar e são
responsáveis pelas doenças pulmonares de milhares de
pessoas. Adicione-se aí as emissões dos canos de escape dos
mais de 80 mil veículos que passam diariamente pela via
Dutra.
Apenas 40 por cento dos esgotos coletados são tratados, o
restante é lançado in natura nos córregos e no rio Paraíba.
Além disso, a Sabesp não separa, nem retira os agentes
químicos e os hormônios sexuais antes de servir a água à
população.
Em Campinas, pesquisadores da Unicamp mostraram que a
população está ingerindo vários tipos de compostos derivados
de fármacos, hormônios sexuais e produtos industriais
através da água. Qualquer médico joseense pode informar
sobre as terríveis conseqüências produzidas pela ingestão de
hormônios: aumento de leucemia nas crianças, problemas de
tiróide nas mulheres, hepatite de vários tipos e cirrose
hepática (câncer no fígado). A água do rio Paraíba,
fornecida aos moradores de São José dos Campos, pode estar
pior do que a do rio Atibaia que os campineiros consomem.
O biólogo Murilo Pires Fiorini, formado pela Univap, falou a
respeito da água consumida em São José dos Campos. Com 29
anos, Murilo mora na Vila Industrial onde cresceu e fez os
primeiros estudos. Esteve no Colégio Bandeirantes e no
Objetivo. O curso de biologia foi feito na Univap.
“Nasci
em Campo Grande, MT, mas saí de lá bem novo, Meu pai
trabalhava na White Martins e sempre era transferido
de uma cidade para outra, Sorocaba, Mogi-Mirim, rodamos um
pouco e viemos parar aqui em São José, em 1980.” Disse
Murilo.
Quando começou na Univap?
– Foi em 1998, fiz quatro anos. Depois fiz mestrado em
engenharia hidráulica e sanitária com enfoque em saneamento
ambiental, na USP, em São Carlos. Retornei à Univap onde
comecei como professor parcial. Em 2003 surgiu a
oportunidade de trabalhar com o Projeto Vale a Pena Viver,
uma iniciativa da reitoria.
Que projeto é esse?
– É um projeto da Univap e meu setor é a parte de apicultura
e restauração de áreas degradadas. Sou responsável pelo
setor dos peixes, tenho a responsabilidade de capacitar os
alunos em biologia, engenharia ambiental, turismo ou áreas
afins. O produto gerado, no caso os peixes, é doado às
pessoas carentes.
A água da Univap vem de onde?
– A Universidade tem uma estação de captação e tratamento.
Temos também a água da Sabesp.
Se o peixe está vivo e nadando, significa que a água é boa
pra o consumo humano?
– Não necessariamente. Os peixes, como outros seres vivos,
têm um processo de bio-acumulação para determinados tipos de
resíduos que é transferido para a cadeia alimentar. Pode não
fazer mal ao peixe, mas quando o ser humano vai se
alimentando desse peixe isso pode ocasionar algum tipo de
doença. Temos o controle sanitário e muito cuidado com o
nosso pescado que é doado.
Como
vê a água de São José dos Campos?
– Hoje, pelo que conheço do sistema de tratamento, eu tomo a
água sem filtrar. O que ocorre hoje é que algumas pesquisas
feitas despertam algumas coisas para quem trabalha nessa
área. Por exemplo, sabemos que o cloro em excesso causa
problemas gástricos e não é mais utilizado em vários países.
Temos que repensar a forma do nosso tratamento. Existem
alguns resíduos que são lançados na água que temos que
encontrar uma maneira para, pelo menos, amenizar o problema.
E sobre o excesso de sílica gel utilizado no tratamento da
água?
– Temos noção disso. A sílica é um material proveniente da
areia e pode estar vindo das próprias tubulações do
consumidor. Acho que é preciso comprovar o alto percentual
de sílica gel as torneiras.
Quem poderia providenciar a análise da água de São José?
– É fácil de fazer, uma coisa que a própria sociedade
poderia e deveria fazer. Teríamos que nos juntar e formar
grupos para gerenciar alguns setores.Temos as ongs,
associações de bairro e outras entidades.
A Univap tem condições de analisar a água da cidade?
– Sim, já foram feitos vários trabalhos. Não temos todos os
equipamentos necessários, mas podemos conseguir através de
parcerias com outras universidades. Não podemos esquecer do
trabalho de gerenciamento que a Cetesb realiza. Temos que
começar a diferenciar os objetivos.
E quem deve ser responsável pela captação e tratamento e
distribuição da água em São José?
– O razoável e a formação de um consórcio com a participação
dos vários segmentos da sociedade civil, prefeitura etc,
para um trabalho em conjunto.
Como vê o aumento de pessoas doentes em São José?
– O que influencia é o modo de vida que a sociedade
escolheu, com uma série de falhas na educação e no sistema
de saúde pública. Campinas está fazendo um acompanhamento da
qualidade da água e vamos fazer o mesmo aqui, um trabalho de
graduação da própria Univap. Estou orientando uma aluna
nesse sentido. Já realizamos um projeto onde o professor
Wilson Cabral do, ITA, foi o responsável com apoio do Feidro,
no sentido físico-químico para apontar nitrogênio, fósforo,
coliformes etc.
E sobre os hormônios sexuais na água?
– Vamos fazer um trabalho, mas não somente sobre a presença
dos hormônios. Estou encabeçando o projeto e tenho que
capacitar os alunos, dez são bolsistas e um é voluntário.
Temos ainda alguns voluntários nos finais de semana.
Como
será feito o trabalho?
– Temos informações dos trabalhos de graduação do Davi, do
Danilo, do Luciano, da Ane, executados na represa de Santa
Branca e na Represa do Jaquari. Temos os estudo feitos com o
pessoal do ITA, no rio Paraíba, com amostragens em 14
pontos, de Santa Branca à Queluz. Estamos juntando esses
dados concretos e elaborando um estudo.
Como está o rio Paraíba?
– É um Paraíba que vemos no dia a dia. De Santa Branca à
Jacareí tudo bem. Daí para frente, temos problemas,
principalmente com coliformes fecais. As águas melhoram
quando atingem Cachoeira Paulista e Queluz pela estrutura
morfológica do ambiente rochoso que possibilita melhor
oxigenação.
E quanto aos hormônios na água?
– Não posso falar de algo que desconheço. Temos estudos da
Unicamp e de países europeus que comprovam o fato há um bom
tempo. Eu aconselho as pessoas a assistir o filme de Erin
Brockovich, Uma Mulher de Talento, com Júlia Roberts.
Sinopse
“Erin (Julia Roberts) é a mãe de três filhos que trabalha
num pequeno escritório de advocacia. Quando descobre que a
água de uma cidade no deserto está sendo contaminada e
espalhando doenças entre seus habitantes, convence seu chefe
a deixá-la investigar o assunto.”
Então a coisa vem de longe?
– Isso, a discussão não acontece apenas hoje, no Brasil. Vem
de longe. Existem estudos sobre o lançamento de
anticoncepcionais nas águas dos rios. Nós os humanos estamos
chegando a uma situação terrível. Já foi comprovada a
reversão sexual dos peixes. O filme que citei foi baseado em
fatos reais, mostra bem a realidade dos fatos e coloca as
pessoas ao par da situação. Precisamos nortear o que vai ser
feito. Vamos tentar restaurar o ambiente. Os pontos mais
críticos do rio Paraíba ocorrem em Jacareí, São José,
Caçapava, Taubaté, até Aparecida.
Não seria razoável a Sabesp mudar o local de captação de
água?
– É o que está acontecendo em São Paulo, mudaram a captação
para a Serra da Cantareira. Só que lá existe uma capacidade
suporte. Vamos fazer igual? Tirar a água em outro município
até quando? É muito mais fácil fazer um trabalho no próprio
local. Inclusive com os moradores que jogam esgotos nos rios
para não pagar à Sabesp.
Como vê a própria Sabesp lançar esgotos nos rios?
- Ainda não consegui comprovar isso, não tenho dados. Sinto
a falta de incentivo à pesquisa por parte das empresas que
deveriam estimular estudos como esse que envolvem os
hormônios, as estatísticas envolvendo a hepatite, o câncer e
outras doenças. Aí sim, a partir daí podemos sugerir juntos.
E as suas análises começam quando?
-
Vamos começar a coletar e analisar as amostrar a partir do
final de junho. Já estive com o Dr. Francisco Leão, do
Instituto Fleury, e combinamos para aprender a mexer num
equipamento chamado EDX, adquirido pela Professora Ana
Maria, que faz análises rápidas. Temos uma parceria com ela
e com o professor Newton Beltrame, de Química Orgânica, para
refinar as análises. Uma nova tecnologia de íons
dissolvidos, metais pesados, que traremos ao Vale do
Paraíba.
Os resultados preliminares saem rápido e mensalmente teremos
novidades. Vamos disponibilizar os dados na Internet. É só
entrar no Centro de Estudos da Natureza sob a
responsabilidade das professoras Giosane e Nádia no site:
www.univap.br
Ricardo
Faria - ricardo@vejosaojose.com.br |
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