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“Nasci em Lorena, SP. Há
30 anos, meu pai veio, com a família, a procura de emprego.
Estudei no Olímpio Catão, na Etip e agora estou terminado o
curso de Direito.”
E
quanto a sua atuação social?
– Atuo no Movimento Popular no setor de Moradia e Mulher por
acreditar que todos tem o direito a moradia e a cidadania
sempre violado numa cidade tão rica como São José. Com tanta
terra e as pessoas sem casa para morar. Existe muita
violência doméstica, as mulheres sofrem para decidir sobre o
corpo, muitas não tem acesso aos programas, passam
necessidades, sofrem com um monte de filhos.
Qual a
sua opinião sobre essas audiências que estão sendo
realizadas para a Lei de Zoneamento?
– Nós da Central de Movimentos Populares acompanhamos as
audiências de uma forma crítica para sentir a legitimidade;
- Estamos percebendo que a Lei de Zoneamento não foi
mostrada, existe apenas um diagnóstico, com a prefeitura
falando do que já foi a esfacelada Lei de Zoneamento, até
hoje com mais de cem alterações feitas pela Câmara
Municipal.
Então seria algo “para inglês
ver”? – Me parece
que pretendem uma lei pra os empresários, o povo pobre não
terá vez.
Como assim?
– Quem se faz presente, discute e reivindica é a classe
média que vem sendo expulsa da área central da cidade.
Alguns tentam resistir como é o caso dos moradores do
Esplanada, Vila Ema, Jardim Apolo etc. Enquanto isso, os
pobres são deixados de lado.
E a prefeitura?
– Ela afirma que não irá colocar as zonas de interesse
social que possibilitariam a regularização dos bairros.
Prefere as zonas mistas para aumentar ainda mais os
problemas na periferia.
E essa conversa de
transformar cada bairro em um centro?
– É uma mentira para que as pessoas saiam da área central. A
Lei de Zoneamento mesmo não existe, a prefeitura nem ao
menos esboçou o que deseja. Estamos ficando assustados com
que presenciamos a cada dia.
Como vê a prefeitura falando
duas horas e dando apenas três minutos para as pessoas se
manifestarem? – É
triste. Não é de hoje que a administração municipal age
assim. Com o Plano Diretor foi a mesma coisa, tivemos pouco
tempo para as explanações, bem anti democrático. Não escutam
as cabeças pensantes da cidade como a Associação dos
Arquitetos e Engenheiros, cientistas sociais e outros. O que
tem somos nós, movimentos organizados falando à população.
No final, o pessoal da prefeitura ainda tenta desclassificar
as propostas dos moradores, como aconteceu no Parque Santa
Rita, quando a Cíntia Gonçalo, que ocupa duas secretaria, de
Obras e Planejamento, afirmou que as propostas colocadas não
eram para o zoneamento.
Como deveria ser?
– Se tivessem fornecido, desde o começo, informações do que
é uma lei de zoneamento e como ela pode intervir, com
certeza as pessoas se manifestariam corretamente. Ainda
assim, em três minutos não dá para colocar o que se pensa.
Daí o nosso comparecimento nas várias audiências para tentar
dar a nossa opinião.
O que você pensa?
– O povo, no geral, participa, fica frustrado, desanimado e
não volta mais.
A Cíntia Gonçalo tem
condições de ser secretária de Obras, Planejamento e dirigir
as audiências? –
Ela é uma funcionária com cargo técnico, como também o
Osvaldo. Mas, não adianta os técnicos colocarem o assunto,
já que quem vai referendar a Lei de Zoneamento é o prefeito.
Como assim?
– O prefeito dará a palavra final, os vereadores farão
emendas para favorecer os seus redutos. Nós dos movimentos
populares estamos pressionando, mas a prefeitura é quem vai
referendar.
Falam uma coisa e farão
outra, já disseram que se trataria apenas de um circo
– Com certeza, a prefeitura já tem a proposta pronta para
colocar na Câmara, do mesmo jeito que fizeram com o Plano
Diretor. Foram 14 audiências, participamos de todas, não
deram a devolutiva e aprovaram algo completamente diferente.
E por que ir às audiências?
– Queremos mostrar, provar, quando formos à Justiça, que o
pessoal da prefeitura não fez o que deveria. Participamos e
vamos cobrar juridicamente. Estamos cientes disso. A
população constrói, deixa a cidade bonita para depois ser
atirada fora. É o que acontece com os moradores do Jardim
São José II. A prefeitura retirou os equipamentos do
Banhado, ficou apenas a FUNDHAS porque o Defensor Público
bateu o pé. Os moradores ficaram sem creche, escola,
atendimento odontológico. Estão retirando o atendimento do
Estado para dificultar ainda mais a vida das pessoas para
que fiquem mais vulneráveis e abandonem o Banhado
Na
sua visão, como a cidade deveria ser zoneada e se
desenvolver? – Nós
dos Movimentos Populares participamos de vários fóruns
nacionais, internacionais e escrevemos a Carta do Direito à
Cidade. Achamos que não se pode entregar a cidade aos
interesses do capital, devemos caber todos nela. Daí o
direito à cidade, de usufruir dos benefícios e isso não
acontece. Quem construiu a cidade tem direito de morar no
seu bairro. Que não se repita o que aconteceu na Vila Rossi,
na Vila Mascarenhas, as pessoas estavam lá há 30, 40, 50 ou
mais anos e, de repente, são obrigas a abandonar suas casas.
Você tem esperança que São
José melhore como cidade?
– Vou lhe dizer, se as pessoas não lutarem, esqueça! Não
haverá esperança, vamos continuar vigilantes. Caso
contrário, nos tomarão tudo.
Para falar com Ângela Silva:
saangela@ibest.com.br
4Lei
de zoneamento ou cartas marcadas
4Água
de São José dos Campos é cancerígena (*)
Ricardo Faria –
ricardo@vejosaojose.com.br |